O comportamento do consumidor brasileiro vem passando por uma transformação profunda ao longo das últimas décadas — reflexo de um mundo que também mudou. Até alguns anos atrás, ninguém perguntava de onde vinha um determinado produto, quais eram seus ingredientes ou se o fabricante adotava práticas sustentáveis. A lógica era simples: comprar o que estava disponível e cabia no bolso.
Hoje, a realidade é outra. O consumidor busca qualidade, transparência e, também, que suas escolhas gerem impacto positivo. Lê rótulos, compara informações nutricionais, avalia a procedência e pesquisa a reputação da marca antes de tomar uma decisão. Esse comportamento está ligado não apenas a questões de saúde e segurança alimentar, mas também a uma crescente consciência coletiva sobre o meio ambiente e a responsabilidade social das empresas.
Uma série de estudos reforçam essa tendência. Levantamento feito pela Associação Paulista de Supermercados (APAS), em parceria com a Scanntech, mostra que 71% dos brasileiros mudaram seus hábitos de compra em supermercados em 2024. Cerca de 59% dão preferência a produtos saudáveis, 57% preferem fazer compras emergenciais em mercados do bairro e 35% escolhem produtos mais baratos.
Outro levantamento feito pela Serasa Experian identificou 34,4 milhões de pessoas classificadas como “caçadoras de descontos”. Nesse grupo estão, em sua maioria, mulheres (55,2%), e tem uma forte representatividade de consumidores na faixa de 34 e 48 anos (47,3%). A metade desse público pertence à classe C e uma faixa de renda de até R$4 mil mensais.
A digitalização do consumo também ampliou a consciência do consumidor: com a internet, comparar preços, verificar informações e compartilhar experiências se tornou parte natural da jornada de compra. E essas mudanças não são superficiais. Elas refletem uma nova postura, em que consumir deixou de ser apenas um ato econômico e passou a carregar valores pessoais e coletivos. Escolher uma marca hoje é, muitas vezes, escolher uma causa.
Para os pequenos empreendedores, compreender essa transformação é essencial. Significa perceber que não basta oferecer um produto barato ou conveniente: é preciso transmitir confiança, mostrar transparência e estar alinhado a práticas que façam sentido para um consumidor cada vez mais atento, exigente e consciente do impacto de cada escolha que faz.
Principais tendências de consumo em 2026
Para se manter competitivo, o pequeno empreendedor precisa compreender a fundo os novos hábitos de consumo e como eles influenciam as escolhas do cliente. Mais do que acompanhar modismos passageiros, trata-se de identificar tendências consistentes — como a valorização da saúde, da conveniência e da sustentabilidade — e adaptar o negócio a elas.
A seguir, ajudamos você a entender as transformações do mercado, antecipando as principais demandas de alguns setores essenciais para que você fortaleça sua relação com o consumidor e garanta espaço em um cenário cada vez mais dinâmico e exigente.
Alimentos e bebidas
Entre 2025 e 2027, o setor de alimentos e bebidas deve passar por grandes transformações. Segundo o boletim de tendências do Sebrae Inteligência de Mercado, cresce a demanda por alimentos naturais, fortificados e bebidas funcionais, ao mesmo tempo em que marcas tradicionais são pressionadas a reduzir teores de sódio e de açúcar em seus produtos. Também se fortalece o reducionismo alimentar: menos consumo de carnes e laticínios e mais alternativas vegetais, equilibrando sabor, saúde e impacto ambiental.
As novas gerações lideram essa mudança. A geração Z — jovens nascidos entre os anos 1990 e 2010, conectados ao digital e às causas sociais — está reduzindo o consumo de álcool e abrindo espaço para os mocktails, coquetéis sem álcool elaborados com frutas, ervas e especiarias. Já a geração Y (os millennials), formada por quem nasceu entre 1980 e 1995, busca experiências diferenciadas e investe em alimentos premium, saudáveis e exclusivos.
Para os empreendedores, o momento pede inovação em drinks autorais, menus funcionais e produtos gourmet que transmitam estilo de vida e bem-estar. O relatório do Sebrae também aponta a expansão do slow food, que valoriza ingredientes locais, tradições culturais e práticas sustentáveis, criando conexão entre produtores e consumidores.
Em paralelo, a busca por longevidade e envelhecimento saudável estimula a oferta de alimentos funcionais e nutritivos, enquanto a tecnologia apoia desde o planejamento das refeições até a personalização das dietas. Apesar do apelo por inovação e saúde, o custo-benefício segue decisivo. Produtos acessíveis, embalagens sustentáveis, promoções e programas de fidelidade ganham peso nas escolhas.
Estética e beleza
O boletim de tendências do Sebrae Inteligência de Mercado sinaliza o crescimento do setor de beleza até 2027. A inovação tecnológica já transforma a experiência do consumidor, com realidade aumentada, aplicativos personalizados, inteligência artificial e dispositivos vestíveis que monitoram a pele e a saúde, tornando os cuidados mais inteligentes e individualizados.
A consciência ambiental também se fortalece: ingredientes naturais, orgânicos e veganos, embalagens recicláveis e processos produtivos transparentes se tornam diferenciais competitivos. O movimento beleza azul, que prioriza produtos que não prejudicam os oceanos, reflete esse cuidado, assim como a inovação em fórmulas que consomem menos água, recurso cada vez mais valorizado.
As tendências sociais e comportamentais também moldam o setor. Movimentos como o body positive, a beleza do amadurecimento, a beleza na menopausa, o autocuidado e o DIY (faça você mesmo) mostram a demanda por diversidade, representatividade, autonomia e bem-estar. Entre os jovens, a beleza temporária permite experimentar mudanças rápidas e customizáveis, conectando estética e identidade.
A personalização continua sendo um diferencial estratégico. Conhecer os hábitos de consumo dos clientes permite entregar experiências que geram valor, fidelização e confiança. Marcas que acompanham tendências nacionais e internacionais, participam de feiras e eventos e oferecem excelente atendimento fortalecem sua posição no mercado.
Além disso, experiências multissensoriais, clubes de beleza e jornadas omnichannel — que conectam de forma integrada os canais online e presencial, garantindo que o cliente tenha a mesma qualidade de atendimento e experiência de compra em todos os pontos de contato — criam uma conexão emocional mais profunda com os consumidores.
A beleza dos próximos anos será inclusiva, consciente, tecnológica e personalizada. Marcas que combinarem inovação, sustentabilidade e atenção aos hábitos de consumo estarão mais preparadas para encantar um público exigente e conectado, que busca experiências que vão além da estética.
Moda
Os insights de consumo organizados pela consultoria WGSN Insights indicam que a sustentabilidade na moda será prioridade até 2027, com uma maior demanda por tecidos orgânicos, reciclados e biodegradáveis, produção local e economia circular, incluindo aluguel de roupas, troca de peças e reparos. O slow fashion reforça a qualidade, durabilidade e ética, contrapondo-se ao fast fashion.
A personalização e a expressão individual ganham força: consumidores buscam peças únicas, sob medida. A moda também se tornará mais inclusiva, contemplando diferentes corpos, etnias e idades, enquanto o conforto e a funcionalidade seguem em destaque.
Estéticas como o retorno do vintage, o minimalismo, a moda atemporal e o lowkey luxury — luxo discreto que combina conforto e sofisticação sem ostentação — ganham força ao valorizar história e versatilidade. Ao mesmo tempo, a economia da experiência desloca o foco do produto físico para vivências, enquanto movimentos como a moda genderless, sem gênero definido, e o uso de estampas vibrantes reforçam identidade e otimismo.
Para os pequenos negócios, é essencial alinhar tendências às estratégias: integrar canais, focar na experiência, personalizar o atendimento e usar dados para gerar insights sobre os hábitos de consumo. A IA pode simplificar processos e ampliar a criatividade do capital humano, enquanto colaborações com fornecedores e consumidores ajudam a criar novos produtos e soluções. Negócios que combinarem sustentabilidade, tecnologia e personalização estarão melhor preparados para inovar, fidelizar clientes e aproveitar as oportunidades do mercado.
Como se preparar para o novo consumidor
Uma pesquisa mundial divulgada pelo Sebrae no início deste ano mostrou que o número de empreendedores no Brasil chegou ao maior patamar em cinco anos. Mas, como se diferenciar em meio a tantos concorrentes e transformar tendências em oportunidades de negócio?
A resposta é resiliência, adaptação rápida e presença digital sólida. Além de estar aberto às constantes mudanças no mercado e no perfil do consumidor é preciso construir a presença digital do negócio. Mas isso não significa apenas ter um site ou uma conta em alguma rede social: é necessário oferecer uma experiência integrada entre canais online e offline, conhecida como omnichannel, garantindo que o consumidor tenha a mesma qualidade de atendimento em todos os pontos de contato — do Instagram à loja física.
Outra ferramenta nova e de suma importância para os pequenos negócios é a inteligência artificial, que já é realidade no cotidiano de boa parte dos pequenos e médios negócios. O estudo “Transformação Digital nos Pequenos Negócios 2025”, realizado pelo Sebrae, aponta que oito em cada dez empreendedores já utilizaram GPS, 77% tiveram experiências com programas de reconhecimento facial, 56% recorreram a assistentes virtuais e 52% usam aplicativos que melhoram a qualidade de imagens.
Além disso, 51% fazem uso de ferramentas de textos generativos, como ChatGPT, Deep Seek, Copilot e Gemini; 44% utilizam recursos digitais de geração de imagem; 41% recorrem a chatbots via WhatsApp; 30% a chatbots de vendas; 22% a dispositivos inteligentes que controlam luz, temperatura e outros aspectos da operação; 21% a eletrodomésticos inteligentes; e 20% interagem com robôs para tirar dúvidas financeiras.
Já não se trata mais de uma tecnologia distante, restrita às grandes corporações: hoje existem soluções acessíveis que ajudam desde a automação de tarefas simples até a personalização de ofertas. No marketing, por exemplo, a IA permite analisar o comportamento do público, segmentar campanhas e criar conteúdos direcionados, fortalecendo a presença digital em redes sociais e marketplaces.
No atendimento, chatbots garantem respostas rápidas e disponíveis 24 horas, enquanto na gestão de estoque e finanças a tecnologia contribui para prever demandas e reduzir desperdícios. Mais do que eficiência, a inteligência artificial oferece oportunidades de inovação e aproximação com o consumidor, transformando-se em uma tendência estratégica para quem deseja se adaptar às mudanças rápidas do mercado e construir relações de fidelidade com clientes.
Feiras e eventos: oportunidades únicas de networking
Participar de eventos que reúnem empreendedores é uma estratégia essencial para quem busca inovação e crescimento. Esses encontros permitem a troca de experiências, o compartilhamento de soluções para desafios comuns e a identificação de oportunidades de negócios antes pouco exploradas. Além disso, eventos desse tipo fortalecem redes de contato, possibilitam parcerias estratégicas e oferecem acesso a insights sobre tendências de mercado, novas tecnologias e práticas de gestão.
O mês de outubro traz duas grandes oportunidades para aqueles que buscam aumentar suas chances de negócio e ampliar a rede de contatos: a Feira do Empreendedor Sebrae 2025 e o Festival da Rede Mulher Empreendedora.
A 14ª edição da feira do Sebrae, que acontece de 15 a 18 de outubro no São Paulo Expo, terá entrada gratuita e irá contar com a presença de especialistas e empreendedores de diferentes setores. A programação, com eventos presenciais e online, foi dividida em sete eixos temáticos: cidade empreendedora; comece seu negócio; comportamento empreendedor; ESG impacto social e ambiental; gerencie seu dinheiro; inovação e tecnologia; e marketing e vendas.
O 14º Festival Rme acontece de 3 a 4 de outubro também no São Paulo Expo. O tradicional encontro de mulheres empreendedoras trará palestras, mentorias gratuitas e grandes nomes, como Luiza Helena Trajano, presidente do Magazine Luiza, as jornalistas Izabella Camargo e Glória Vanique, e a influenciadora Pequena Lô, dentre outros grandes nomes.
No site do Sebrae é possível fazer uma busca por eventos e cursos em todas as regiões do Brasil. Não fique de fora! Acesse aqui.
Dicas práticas de gestão financeira
Manter as finanças em ordem é um dos maiores desafios para quem empreende. Negócios bem organizados conseguem atravessar crises, aproveitar oportunidades e crescer de forma sustentável. Para isso, alguns passos simples de gestão financeira fazem toda a diferença no dia a dia do pequeno empreendedor:
Controlar preço x custo: definir preços sem considerar todos os custos pode corroer o lucro. Além do valor de compra, entram na conta despesas como impostos, energia e tempo de trabalho. O ideal é usar uma planilha de precificação, que ajuda a calcular margens corretas.
Gestão de fluxo de caixa: o fluxo de caixa mostra entradas, saídas e reservas, funcionando como um mapa financeiro do negócio. Sem ele, é impossível saber se há lucro ou prejuízo. Planilhas e aplicativos simples ajudam a manter o controle, mas, para análises e projeções mais estratégicas, é recomendável contar com um contador ou consultor financeiro.
Controle de estoque: acompanhar a rotatividade e planejar compras com antecedência ajuda a manter o equilíbrio e evitar excessos. Além disso, o controle do estoque auxilia nas vendas em períodos de maior ou menor venda.
Simulações de cenários: antecipar crises ou mudanças de mercado aumenta a resiliência do negócio. Fazer simulações permite prever estratégias, como renegociar prazos ou ajustar preços.
Gestão de investimentos: todo negócio precisa de investimentos para crescer, seja qual for o ramo. Investir ou não? Quanto isso vai custar? Vou ter retorno? São muitas as dúvidas nesse momento. Um bom primeiro passo é fazer um projeto de viabilidade do investimento ou plano de negócio. O site do Sebrae mostra o passo a passo para desenvolver esse material.
Como se preparar para vender mais em todas as datas do calendário
De olho nas datas comemorativas, o empreendedor tem que se organizar para aproveitar as grandes datas que o varejo tem: Dia das Crianças, Natal, Black Friday, Dia dos Professores, entre outras. Sempre há aquele consumidor que busque por uma lembrancinha para presentear ou aproveita os descontos para, enfim, adquirir algum item tão desejado.
É aí que entra a chave do sucesso: planejamento. E isso começa desde cedo, ao revisar seu estoque meses antes para garantir que haja quantidade suficiente dos produtos mais procurados. O aumento da demanda em datas comemorativas também exige que a logística esteja preparada. Avalie prazos de entrega, disponibilidade de transporte e a capacidade da equipe para atender ao aumento de pedidos. Os funcionários, inclusive, devem estar bem treinados, tanto no atendimento, quanto no conhecimento dos produtos, promoções e processos.
Além disso, adaptar a comunicação e as campanhas a cada período ajuda a destacar os produtos certos, criar conexão com o público e potencializar os resultados das ações promocionais.



