A expectativa de vida no Brasil alcançou 76,4 anos em 2023, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estamos vivendo mais, mas será que estamos nos preparando para viver melhor? Afinal, a longevidade não é só tempo, é também fazer esse tempo valer a pena.
Hoje, quase 16% da população brasileira tem mais de 60 anos, e essa porcentagem não para de crescer. Até 2070, estima-se que mais de um terço dos cidadãos estará nessa faixa etária. Isso significa que a maneira como encaramos o futuro – e como o planejamos – precisa mudar. Viver bem vai muito além de acumular bens ou economias: é ter liberdade, saúde e significado.
Foi diante desse contexto que Angélica Alves de Araújo percebeu, aos 50 anos, a necessidade de reorganizar sua vida, mudar hábitos e repensar os planos para a aposentadoria. Em busca de soluções, ela encontrou Adriana de Arruda e, juntas, deram início a uma jornada de aprendizado, estudo e desenvolvimento pessoal. Dessa parceria nasceu o livro Longevidade: É hoje! Um livro para você ter a aposentadoria que sempre sonhou.
Na obra, as autoras compartilham orientações práticas e reflexões profundas sobre como planejar não apenas a aposentadoria, mas também a vida que se inicia após essa etapa. Combinando suas vivências pessoais e vasta experiência profissional, as duas mostram que a longevidade deve ser encarada como uma oportunidade para construir uma nova fase repleta de significado e possibilidades.
Adriana é educadora, palestrante, planejadora financeira pessoal e psicanalista. Com muitos anos de atuação em uma multinacional americana, dedica-se atualmente a apoiar famílias em questões emocionais e financeiras. Já Angélica é palestrante, planejadora financeira pessoal e psicanalista, com 30 anos de experiência na gestão de fundos de pensão e com foco na educação financeira.
1. Longevidade começa agora
A aposentadoria pode parecer o ponto final da vida profissional, mas, na verdade, é o início de uma nova fase: a longevidade. Para Adriana e Angélica, planejar o futuro exige equilíbrio entre saúde, finanças, relacionamentos e espiritualidade – os pilares para construir um envelhecimento sustentável e feliz.
"Para isso, sugerimos fazer uma reflexão: como você quer chegar em sua longevidade? Feche os olhos por um momento e imagine. Você se vê agachando para brincar com os netos? Ou talvez se imagina viajando, descobrindo novos hobbies, curtindo a liberdade financeira sem preocupações? Agora, pense no que está fazendo hoje para tornar isso possível”, provoca Adriana.
Refletir sobre sonhos e ambições permite traçar um plano, um caminho que leve para esse objetivo. Para poder brincar com os netos no futuro, por exemplo, é preciso cuidar do corpo agora. E para oferecer a si mesmo o futuro dos seus sonhos, sem pesar no orçamento, é preciso criar uma reserva financeira. A boa notícia é que quanto mais cedo você começar, mais leve será o esforço para alcançar seus objetivos.
“Não existe milagre. Se você não começar cedo, enquanto ainda é jovem, o caminho se torna mais difícil. Mas sempre é tempo de começar”, compartilha Angélica.
Construir o futuro não significa abrir mão de viver o presente, mas sim encontrar o equilíbrio entre aproveitar a vida hoje e garantir que ela continue plena amanhã.
2. O papel do autoconhecimento
Planejar a longevidade começa com um exercício fundamental: conhecer a si mesmo. E, para as autoras, isso significa fazer uma análise de seus valores e escolhas. “Se o lazer é algo importante para você, por exemplo, é essencial garantir que uma parte do seu orçamento seja destinada a isso”, pontuam. Isso vale para todas as esferas da vida.
Para fazer essa análise, o orçamento pessoal é um grande aliado. Colocando no papel todos os seus gastos e ganhos, você tem uma visão de como andam suas finanças e entende o que pode mudar, priorizar ou cortar, de acordo com suas prioridades. “O autoconhecimento pode ser transformador porque revela padrões que, por vezes, passam despercebidos e nos afastam de nossos objetivos”, dizem.
Nessa análise, podemos notar problemas como, por exemplo, uma compulsão por consumo que está atrapalhando investir em algo relevante para o futuro. É o momento de se perguntar: “esse meu comportamento está me sabotando?”
3. Organização financeira na longevidade
O livro traz diversos exercícios para ajudar a desmistificar o tema do dinheiro, que ainda é um grande tabu no Brasil.
As autoras destacam a importância de incluir todos os membros da família ao falar sobre finanças, a atenção e cuidado com as compras parceladas e a importância de manter um planejamento financeiro anual, que permite considerar despesas sazonais, como impostos e matrículas escolares, que não aparecem no orçamento mensal.
“Quando temos uma boa organização financeira, é muito mais fácil mudar a rota se necessário. Sabemos onde podemos cortar ou ajustar gastos, até retomar o equilíbrio”, explicam Adriana e Angélica.
Para começar a organizar suas finanças, planilhas de organização financeira ou o Guia do Planejamento Familiar são bons aliados. Esses recursos são práticos e podem transformar a forma como você e sua família gerenciam o dinheiro.
Como sair das dívidas e reconquistar tranquilidade
O livro também oferece orientações para aqueles que estão enfrentando dívidas, mostrando que é possível superar essa situação e recuperar a tranquilidade financeira para desfrutar bem da longevidade. É essencial começar entendendo suas dívidas e elaborar uma lista de prioridades de pagamento, que, segundo as autoras, inclui aspectos subjetivos.
Por exemplo, se você deve dinheiro a um familiar, como sua mãe, que emprestou sem cobrar juros, pode ser uma prioridade para você quitar essa dívida primeiro, mesmo que não seja a maior em termos financeiros. Compreender essas dinâmicas ajuda a identificar o que é mais importante para estabelecer suas prioridades.
Transparência e organização
Para além das dívidas, a falta de transparência nas finanças e no patrimônio familiar pode gerar conflitos, especialmente na hora de distribuir heranças ou organizar bens. "Revisar testamentos, planos de previdência e seguros com regularidade é essencial para evitar surpresas em momentos delicados", destacam.
Uma sugestão prática das autoras é a criação de uma lista de diretivas finais. Esse documento deve conter informações detalhadas sobre bens, contas bancárias, seguros, senhas e contatos de profissionais importantes, como seus advogados. Ele ajuda a reduzir o estresse de quem fica, proporcionando maior tranquilidade e agilidade na gestão do patrimônio.
Além disso, é uma ferramenta que ajuda no diálogo familiar, deixando claro o que a pessoa gostaria que fosse feito, quando não estiver mais por aqui. "Deixar tudo claro para quem fica, inclusive em temas mais difíceis, é fundamental. É como um último ato de amor", aconselham. Para famílias com filhos menores, também é essencial definir tutores e curadores, garantindo que os interesses das crianças sejam resguardados.
Flexibilidade no padrão de vida
No mundo corporativo, especialmente para o público masculino, é comum que se busque um estilo de vida de alto padrão: carros, imóveis de férias, viagens. Mas, com o tempo, as necessidades mudam e, de acordo com Angélica e Adriana, às vezes, a pessoa não percebe que a fase da vida já mudou.
O que antes parecia importante, como manter vários imóveis, pode agora pesar demais no orçamento e no emocional. É preciso se perguntar: “meu padrão de vida cabe no meu bolso?”; e o segredo está em ter flexibilidade para adaptar-se ao novo momento e entender que, em certos casos, vender ou alugar aquele patrimônio pode ser a escolha mais sensata.
Mulheres e finanças
Apesar de quase metade dos lares brasileiros serem chefiados por mulheres, muitas ainda não participam ativamente da gestão financeira da casa. O livro também olha para essa questão, destacando a importância da mulher assumir um papel mais ativo no controle do orçamento, evitando delegar 100% dessa responsabilidade para o parceiro ou terceiros.
Mudanças significativas na vida podem transformar completamente a dinâmica financeira da família e estar preparado para essas transições é essencial para evitar crises e garantir a segurança financeira.
A pandemia escancarou casos que ilustram esse problema. Muitas mulheres, ao perderem seus companheiros, se viram desorientadas por não saberem sequer onde estavam documentos importantes ou como administrar as contas da casa. "Essa conscientização precisa começar dentro das famílias, incentivando o envolvimento feminino na gestão financeira e na tomada de decisões", reforçam as especialistas.
4. Preparo emocional e relacionamentos para uma boa longevidade
Amizades, saúde emocional e relações familiares são tão cruciais quanto o planejamento financeiro, pois a ausência de uma rede de apoio pode gerar solidão e afetar diretamente a qualidade de vida, especialmente na maturidade.
Adriana e Angélica destacam em seu livro que, assim como ocorre com as finanças, os relacionamentos também exigem planejamento e dedicação contínuos. “Se não nutrimos nossas relações – com a família, amigos ou parceiros – ficamos sozinhos. O alimento emocional é tão importante quanto qualquer outro recurso”, complementa Adriana.
Por isso mesmo, o livro apresenta o conceito de "net living", que envolve construir pontes entre pessoas e manter-se ativo em diferentes ambientes, evitando o isolamento e tornando essa fase da vida mais rica e dinâmica.
5. Preparando-se para imprevistos
A prática de poupar ainda enfrenta desafios no Brasil. Segundo o Índice de Saúde Financeira do Brasileiro (I-SFB), apenas 32,4% dos entrevistados afirmam dar conta de uma despesa inesperada grande, e mais de 67% afirmam não ter segurança sobre o futuro financeiro.
Construir o hábito de planejar para o futuro é essencial, especialmente na longevidade, quando os gastos — principalmente com saúde — tendem a aumentar, e a renda, a diminuir. A reserva de emergência tem exatamente esse propósito: proteger contra imprevistos, evitando a necessidade de recorrer a empréstimos ou acumular dívidas em momentos de crise.
Criar essa reserva exige disciplina e consistência. Mesmo que o valor separado mensalmente seja pequeno, o importante é começar. Com consistência, é possível montar uma base financeira sólida, capaz de oferecer segurança sem comprometer o orçamento mensal.
6. Investimento vs. Poupança
A poupança é uma das opções mais populares para guardar dinheiro. Mas, segundo as autoras, é importante ir além, buscando investimentos que permitam alinhar aplicações financeiras a objetivos futuros, como comprar uma casa, fazer uma viagem ou garantir uma aposentadoria tranquila. A escolha entre poupança e investimento depende de objetivos claros e do tempo disponível para alcançá-los.
Mais do que apenas aplicar, investir exige consciência. As autoras incentivam entender minimamente onde o dinheiro está sendo colocado. Delegar investimentos a um assessor financeiro é comum, mas não deve ser uma entrega total. É fundamental revisar as aplicações, entender minimamente as opções e fazer perguntas que ajudem a alinhar os investimentos com seus valores e objetivos. Essa prática garante autonomia e clareza no cuidado com o dinheiro.
7. Planejando a aposentadoria
A aposentadoria é vista por alguns como um alívio, enquanto para outros é um desafio. Infelizmente, muitos profissionais ao longo da vida não conseguem construir uma reserva financeira suficiente para garantir uma vida digna e independente. Como enfatizam Adriana de Arruda e Angélica Alves de Araújo: “ser responsável nas atitudes, comportamentos e decisões do presente é o primeiro passo para construir um futuro mais equilibrado, estável e com maior liberdade de escolha.”
Idealmente, o planejamento da aposentadoria deve começar o quanto antes, mas nunca é tarde para organizar-se. Mesmo quem está a poucos anos de se aposentar pode criar alternativas que garantam autonomia financeira. Além de poupar para ter uma renda passiva, é importante calcular o impacto financeiro da perda de benefícios típicos da CLT, como o plano de saúde e seguro de vida, ao deixar o mercado corporativo.
Previdência pública e privada
A previdência pública, oferecida pelo INSS, é um benefício que reflete diretamente o histórico de contribuições do trabalhador. No entanto, muitas pessoas se surpreendem com os valores pagos, geralmente menores do que o esperado. Isso reforça a importância de regularizar as contribuições ao longo da vida e entender como o sistema funciona.
Apesar das mudanças nas regras da aposentadoria, como aumento da idade mínima, o INSS continua sendo uma rede de proteção humanitária, especialmente em momentos de longevidade. Para evitar frustrações no futuro, é preciso buscar informações sobre os benefícios disponíveis e planejar alternativas financeiras que complementem a previdência pública.
Angélica destaca que aposentadoria não é um prêmio, mas um suporte para garantir dignidade na velhice. Se o objetivo é uma maior segurança financeira, é fundamental investir paralelamente e construir uma reserva própria. Esse planejamento deve considerar as transformações do mercado de trabalho e o aumento da expectativa de vida, com possibilidades de reinvenção profissional ou acadêmica após os 60 anos.
8. Vida após a aposentadoria
Aposentar-se não significa ficar parado. “Se você se aposentar entre os 60 e os 70 anos, o que vai fazer nos 30 ou 40 anos restantes que você ganhou para viver? Tem muito chão pela frente. Cada vez mais, vemos que não é tarde para se reinventar. Vejo muitas pessoas que estão entrando na faculdade aos 60 anos”, relata Angélica, mostrando que nunca é tarde para realizar sonhos.
A aposentadoria é uma oportunidade para explorar novos talentos ou hobbies que antes eram deixados de lado por falta de tempo, como aprender um instrumento ou iniciar um pequeno negócio.
Aposentadoria não significa estar sem função, mas sim escolher qual caminho seguir. O universo digital, por exemplo, abre portas para ensinar, aprender e até gerar renda extra. O importante é garantir que essa nova fase esteja alinhada com seus desejos e prioridades. Afinal, este é o momento de viver para si, com propósito e realização.
Contudo, essa fase deve ser vivida com equilíbrio. Participar da vida dos netos, por exemplo, pode ser prazeroso, mas não deve se transformar em uma responsabilidade integral que comprometa o momento de liberdade tão aguardado. Planeje e viva a aposentadoria de forma que ela reflita suas prioridades e desejos.
Enfrentando a velhice com dignidade
A sociedade muitas vezes marginaliza os idosos. No entanto, envelhecer não significa perder valor ou independência e cada pessoa deve ter o direito de escolher onde viver, como se locomover e quais atividades deseja realizar.
O envelhecimento traz desafios, mas também novas oportunidades, como em qualquer outra fase da vida. O problema é que, muitas vezes, o olhar da sociedade coloca a velhice como uma espera passiva pela morte, o que pode levar à perda de autoestima e até ao adoecimento emocional.
Mas quem envelhece não deixa de ter sonhos, objetivos e vontade de viver. Culturas tradicionais reverenciam os mais velhos e reconhecem sua sabedoria. No entanto, em sociedades modernas, ainda há um preconceito estrutural que trata o idoso como incapaz.
Mudar essa postura diante do envelhecer é o que nos ajuda a existir numa longevidade com mais respeito, liberdade e dignidade.
9. Tudo aquilo o que não controlamos
Por fim, o livro relembra que nem tudo está em nossas mãos. Pandemias, crises econômicas e mudanças na política financeira são exemplos de fatores externos que podem impactar nossa vida. No entanto, distinguir o que podemos ou não controlar faz toda a diferença para evitar frustrações e focar no que realmente importa.
Cuidar da saúde, manter bons hábitos financeiros e cultivar uma rede de apoio são atitudes que dependem de nós e que podem garantir um futuro mais estável. Pequenas mudanças diárias, como uma alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios, ajudam a construir uma longevidade com mais qualidade de vida.
Como destacam as autoras: “precisamos trabalhar nesse equilíbrio: entender que sim, o futuro vai existir, mas que a gente também precisa viver o presente com serenidade, paz, tranquilidade, trabalhando e economizando, fazendo reservas para que nosso futuro seja um futuro de dignidade”.





