Quem tem mais de 30 anos costuma lembrar com certa nostalgia dos tempos em que assistir a um show era um programa acessível. Artistas nacionais renomados e até algumas atrações internacionais lotavam ginásios e estádios com ingressos que cabiam no bolso da maioria. Hoje, no entanto, frequentar um espetáculo musical pode significar um impacto considerável no orçamento — e não apenas pelo valor da entrada.
No passado, era comum pagar de R$20 a R$50 por um ingresso de pista. Atualmente, o preço médio para ver um artista de grande porte pode ultrapassar os R$300, chegando a valores acima de R$1.000 em setores VIP ou com benefícios extras, como open bar ou camarotes. A chamada "experiência completa" passou a ser vendida como um produto exclusivo, tornando os eventos musicais menos acessíveis.
Por que será que essas atividades viraram sinônimo de esforço financeiro e, em muitos casos, até mesmo endividamento? Apesar dos preços altos, saiba que ainda é possível, sim, curtir suas bandas favoritas sem sair do orçamento. Confira nossas dicas e já reserve a agenda para o seu próximo artista favorito.
Experiência muito além da música
Ir a um show no Brasil já foi uma experiência mais democrática. Nas décadas de 1980 e 1990, a maioria dos espetáculos era composta por estruturas modestas, produções enxutas e valores que cabiam no bolso da maioria do público. Os custos de produção eram relativamente baixos, e isso se refletia diretamente no valor dos ingressos.
O público se contentava com o essencial: um palco funcional, um sistema de som adequado e o artista ao vivo. Poucos efeitos, pouco luxo, e muita música. Com a abertura do mercado brasileiro para artistas internacionais a partir dos anos 80, começaram a surgir festivais maiores, mas ainda assim com um padrão técnico muito distante do que se vê hoje.
Um exemplo emblemático dessa época é a primeira edição do Rock in Rio, em 1985. Idealizado pelo empresário Roberto Medina, o festival foi realizado entre os dias 11 e 20 de janeiro daquele ano e reuniu 1,38 milhão de pessoas na Cidade do Rock, uma área especialmente construída na zona oeste do Rio de Janeiro. O evento marcou a história da música brasileira e mundial, trazendo ao país artistas como Queen, AC/DC, Iron Maiden, Rod Stewart, Ozzy Osbourne e James Taylor, além de grandes nomes da música nacional como Gilberto Gil, Paralamas do Sucesso e Elba Ramalho.
Os ingressos custavam entre 16 mil e 20 mil cruzeiros, valores que, atualizados pelo IPCA, correspondem a aproximadamente R$102. A estrutura, embora grandiosa para a época, era bastante simples se comparada aos padrões atuais: um palco de 80 metros de largura, torres de som, iluminação convencional e um público que acompanhava os shows em pé, sob sol e chuva, sem áreas VIPs, sem ativações de marca e com poucos serviços de conforto.
Quase quatro décadas depois, o cenário mudou radicalmente. E a edição mais recente do Rock in Rio, em 2024, representa bem essa transformação. Com ingressos vendidos a R$795 (inteira), o evento atraiu aproximadamente 100 mil pessoas por dia, somando cerca de 700 mil em sete dias de festival. A estrutura se transformou em um verdadeiro parque de diversões temático: vários palcos simultâneos, roda-gigante, espaços interativos, espaços com grandes marcas, áreas gourmetizadas, tecnologia de ponta e um nível de produção que exigiu centenas de profissionais de diversas áreas. No line up, nomes como Ed Sheeran, Katy Perry, Imagine Dragons, Måneskin, Ludmilla e Jão dividiram espaço com experiências de entretenimento que vão muito além da música.
Mas o que justifica a tamanha diferença de preços nos ingressos ao longo dos anos? A resposta está na complexidade da produção atual. Atualmente, um show de grande porte envolve palcos automatizados, cenografias personalizadas, telões de LED, pirotecnia, efeitos visuais em tempo real, passarelas móveis e iluminação computadorizada. Além disso, os custos com segurança aumentaram exponencialmente. Exigências legais obrigam as produtoras a contratar brigadas de incêndio, equipes médicas, segurança privada, câmeras de monitoramento, controle de acessos e planos de evacuação. Tudo isso encarece a produção e, naturalmente, o preço dos ingressos para o consumidor final.
Há também o peso da carga tributária. Os eventos musicais no Brasil enfrentam um sistema complexo e oneroso, com taxas para alvarás, licenciamento, seguro obrigatório, direitos autorais e impostos como ISS e ICMS. Algumas estimativas indicam que cerca de 25% do valor de um ingresso é composto apenas por tributos.
A intermediação das plataformas de venda também impacta o preço. Empresas responsáveis pela distribuição digital dos bilhetes costumam cobrar taxas que chegam a 20% do valor total, além de repassar ao consumidor custos de conveniência e administração. Para completar, há ainda a logística: o transporte de equipamentos pesados, hospedagem e alimentação das equipes técnicas, cachês elevados dos artistas, e o aluguel de estruturas temporárias em cidades onde faltam espaços adequados.
Outro fator que influenciou os valores atuais foi a pandemia da Covid-19. O setor de eventos ficou paralisado por quase dois anos, e, com isso, muitos fornecedores fecharam as portas. Isso gerou escassez e aumento de preços em praticamente todos os insumos da cadeia de produção. Produtores relatam que o custo de montagem de um show dobrou em comparação com os valores pré-pandemia.
O resultado dessa equação é um ingresso mais caro e um espetáculo cada vez mais sofisticado. Se em 1985 o Rock in Rio era um marco por trazer o Queen ao Brasil com uma estrutura ousada, hoje o mesmo festival compete com os maiores do mundo em termos de tecnologia e experiência. No entanto, essa sofisticação tem um custo.
Gastos extras podem impactar o orçamento
Um estudo da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, mostrou que 62% dos brasileiros têm o costume de ir, pelo menos uma vez ao ano, em shows de artistas nacionais e 27% se programam para ir a shows internacionais.
De acordo com a pesquisa, que entrevistou 1.398 pessoas em março de 2024, 56% daqueles que frequentam shows sempre se planejam com antecedência e 46% costumam poupar ou investir algum dinheiro direcionado a esses gastos. No entanto, o estudo mostrou, também, que 6 em cada 10 pessoas têm o hábito de comprar os ingressos com menos de um mês de antecedência à realização do show.
Além do valor do ingresso, há diversas outras despesas a serem consideradas. Gastos com transporte e hospedagem (para eventos fora da sua cidade), despesas com alimentação, dentre outros. Sete em cada dez entrevistados afirmaram que o maior valor já pago para assistir a um show foi de R$ 300; 70% dizem que não pagariam mais do que isso em um ingresso.
Durante a realização de um evento, de acordo com a pesquisa, os gastos mais comuns envolvem alimentação e bebidas (68%), com uma média de até R$200 por apresentação. Concertos em outras cidades, com custos que envolvem longos deslocamentos, envolvem, ainda, despesas com hospedagem e combustível, totalizando cerca de R$1.000 por pessoa.
Planejamento: estratégia para gastar menos
Assistir a shows e eventos musicais ao vivo pode ser uma experiência inesquecível, mas também pode virar uma dor de cabeça financeira se não houver planejamento. Com ingressos cada vez mais caros, além dos custos extras como transporte, alimentação e hospedagem (em caso de viagens), é essencial criar uma estratégia para aproveitar esses momentos sem comprometer a saúde do bolso. Veja algumas dicas:
1. Compre ingressos com antecedência: atrações nacionais e internacionais costumam fazer a divulgação das datas de shows com certa antecedência. Comprar os ingressos ainda em pré-venda ou no primeiro lote pode garantir descontos especiais, já que os preços podem variar bastante de lote para lote. Quem se antecipa, quase sempre paga menos.
2. Aproveite promoções e programas de pontos: pesquisar é a chave do sucesso e, para isso, vale acompanhar as redes sociais dos artistas e das produtoras. Muitas vezes, há promoções-relâmpago, descontos para determinados cartões ou até concursos oficiais. Algumas bandeiras de cartão de crédito podem oferecer a troca de pontos por ingressos também.
3. Divida custos da viagem: viajar em grupo, dividir refeições, transporte e hospedagem nunca saem de moda. Ainda mais quando o assunto é economizar. Reúna os amigos que desejam ir ao show e vejam a melhor opção - comprar ingresso junto pode, inclusive, diluir as taxas de conveniência cobradas pelos sites.
4. Fuja dos excessos: aquela camiseta na porta do show ou o copo personalizado com seu artista preferido podem custar caro. Ainda mais quando são vendidos na porta do show ou nas lojinhas próximas. Evite as compras por impulso.
5. Inclua o show em seu planejamento: entender o lazer como uma parte importante do bem-estar e que, por isso mesmo, deve entrar no planejamento financeiro mensal é muito importante. Para isso, reservar uma quantia fixa para cultura e entretenimento, ainda que pequena, ajuda a evitar surpresas e dívidas. Se há um grande show que você quer muito ver no ano — seja um artista internacional ou uma banda que marcou sua vida — vale transformá-lo em meta pessoal. Nesse caso, a dica é começar a poupar com antecedência, guardando um valor mensal, por menor que seja, até que consiga cobrir o ingresso ou parte dos custos.
6. Cuidado com o parcelamento: outro ponto essencial é o uso consciente do cartão de crédito. O parcelamento é um grande aliado, desde que ele esteja sob controle. O ideal é que as parcelas estejam previstas no orçamento mensal e que o limite do cartão não seja confundido com dinheiro disponível. Acumular gastos sem ter como pagá-los integralmente pode gerar uma bola de neve difícil de conter, especialmente se o rotativo do cartão entrar em cena.
A dica é simples: vale mais economizar e se programar para aquele único show que irá marcar a sua vida do que gastar de forma impulsiva em experiências que podem não valer tanto a pena depois.
Eventos gratuitos são uma ótima opção
Os fãs de Madonna e Lady Gaga jamais sonharam em ver as divas do pop ao vivo e de graça nas areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Mas, o que parecia ser um sonho virou realidade.
Em maio de 2024, Madonna reuniu 1,6 milhão de pessoas e gerou mais de R$300 milhões para a economia do Rio de Janeiro, que teve altas taxas de ocupação nos hotéis da cidade e aumento nas vendas de produtos e serviços aos turistas. Em 2025, foi a vez de Lady Gaga atrair uma multidão de pessoas: com um público estimado de 2,1 milhões de pessoas, a apresentação da cantora levou 600 mil turistas à cidade. Porém, as altas nos valores de passagens e hospedagens para a cidade fizeram com que muitos fãs optassem por viagens de bate e volta - na semana do show, o preço de uma passagem só de ida de São Paulo para o Rio de Janeiro custava R$800, em média.
A boa notícia é que, nas grandes cidades brasileiras, há uma oferta crescente de programações culturais gratuitas, muitas delas com artistas talentosos, ambientes agradáveis e, o melhor: sem filas quilométricas ou preços exorbitantes.
Realizada anualmente em São Paulo, a Virada Cultural consolidou-se como um dos maiores eventos de acesso gratuito à arte e à música do país. Em sua edição de 2025, o festival reuniu mais de 4,7 milhões de pessoas em mais de 1.200 atrações distribuídas por 21 palcos espalhados por todas as regiões da cidade. Com uma programação que foi do rock à música clássica, do rap ao samba, o evento celebrou a diversidade musical brasileira — e o melhor: sem cobrar nada do público.
O Governo do Estado de São Paulo também lançou, em 2024, a Agenda Viva SP. Trata-se de uma plataforma colaborativa que reúne os principais eventos culturais, esportivos, turísticos e gastronômicos realizados em todo o estado. No site, o usuário pode fazer um filtro para conhecer os eventos disponíveis no dia, fazer uma busca por categoria ou visitar os mais acessados, com opções pagas e gratuitas.
Com unidades espalhadas por todas as regiões das grandes cidades e também em municípios do interior, o Sesc é outra excelente opção de programação diversificada, com qualidade artística e inclusão. Nomes consagrados da música brasileira já se apresentaram em palcos das unidades por preços simbólicos. Além disso, boa parte das apresentações são gratuitas, especialmente em projetos ao ar livre ou em parcerias com circuitos culturais. Vale a pena conferir!




