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Atualizado em: 30 set 2019 às 15h e 27m

Gastar hoje ou guardar para amanhã?

Como encontrar o equilíbrio entre desfrutar o prazer do agora e construir a segurança do futuro


A forma como lidamos com o dinheiro e tomamos decisões relacionadas a ele é muito particular. O que pode ser uma fonte de prazer para uns, como gastar boa parte do salário em restaurantes, roupas e sapatos, pode não fazer o menor sentido para outros, que preferem economizar mesmo em itens essenciais, como a alimentação.

No primeiro caso, observa-se uma valorização do presente, dos prazeres imediatos. A pessoa quer algo, vai lá e faz, mesmo que não tenha se programado financeiramente para isso. No segundo, com frequência, há um medo exacerbado de ficar desprotegido no futuro.  Quem tem esse perfil, em geral, prefere acumular, ter posses, a desfrutar.

Mas qual é o impacto das atitudes extremas, como as do gastador e as do chamado pão-duro, nas relações familiares, amorosas e de amizade?

“Esses comportamentos muitas vezes levam a conflitos nas relações porque impedem as pessoas de aproveitar mais o presente, no caso do avarento, ou de ter um futuro com mais qualidade, no caso do gastador”, alerta a psicóloga Valéria Meirelles, especializada em psicologia do dinheiro. Em ambos os casos, segundo ela, o estresse gerado por esses conflitos pode impactar a saúde mental da família como um todo.


Guardar tudo ou nada?

Vamos entender um pouco mais esses dois perfis a partir de dois exemplos:

- Um pai sovina, que tem um bom dinheiro guardado, mas nunca proporciona nada de extraordinário para sua família: nenhuma viagem, nenhuma surpresa, nenhum presente. Prefere deixar os filhos usando roupas velhas, puídas ou rasgadas a comprar novas.

- Um pai gastador, que troca de carro todos os anos, mas não tem nenhuma reserva financeira. É capaz de deixar de pagar a mensalidade da escola para comprar um celular de última geração. A sucessão de atitudes inconsequentes pode levá-lo ao endividamento exagerado.

“Se o pão-duro jura que nunca vai faltar dinheiro, o gastador jura que nunca vai passar vontade”, ilustra Valéria. Ela destaca que o comportamento em relação ao consumo tem origem em uma somatória de experiências pessoais nas diferentes fases da vida.

É comum alguém muito econômico ter sofrido forte privação na infância ou adolescência, por isso, só consegue se sentir seguro se o dinheiro estiver na conta. Já aquele que não consegue se controlar não aprendeu, lá atrás, a dar valor ao dinheiro. E manteve esse padrão quando começou a trabalhar e receber seu próprio salário.


Faça o fluxo da prosperidade fluir

Essas atitudes, em geral, têm mais a ver com emoções e significados escondidos do que com o quanto se ganha. “Se eu pegar meu extrato bancário ou controle financeiro, que histórias eles têm para me contar? Se o meu dinheiro falasse, o que ele diria sobre mim?”, provoca Valeria.

Mais do que um recurso que garante a sobrevivência, o dinheiro mostra a forma como queremos estar no mundo. Que estilo de vida eu quero ter? Meus comportamentos financeiros estão alinhados aos meus valores, sonhos e necessidades? Direciono meus recursos para o que realmente importa para mim?

Essas reflexões podem trazer um sentido de realidade e ajudar a prevenir a quebra de laços familiares. Não é raro que pessoas de uma mesma rede de afeto – tanto de sovinas quanto de gastadores – queiram se afastar e manter distância, em função de traumas, rancores e queixas acumuladas ao longo do tempo.

Nesses casos, a melhor postura dos familiares deve ser o diálogo. “O dinheiro tem um significado diferente para cada um. Só conversando é possível eliminar a sensação de injustiça, compreendendo os valores do outro e incentivando-o a refletir sobre seus comportamentos. Essa é uma maneira de fazer fluir o fluxo de prosperidade, o senso de pertencimento nas decisões familiares e a saúde das relações”, relata Valeria.

Ela lembra que o diálogo evita comportamentos como os de esconder decisões e ações uns dos outros. “É um ganho tanto para quem tende a acumular dinheiro sozinho, sem que ninguém participe. E para aqueles que têm o hábito de fazer compras, contrair empréstimos e acumular dívidas às escondidas para evitar represálias da família”.

Por isso, se algum gasto feito por outro membro da família gerou um incômodo, tome a iniciativa de conversar na hora, antes que o efeito bola de neve conduza a rompimentos. Se o incômodo tem a ver com a atitude sovina e você sente que tanto ele quanto a família estão passando por privações desnecessárias, não deixe de abrir o diálogo.


Conheça seu perfil

Valéria criou um teste, publicado pelo portal Universia, para identificar tendências de gastos e de consumo. São dez perguntas que ajudam a conhecer o momento de vida, servindo como um norte para que encontrar o equilíbrio entre desfrutar o presente e construir o futuro sem exagero tanto do lado do pão-duro quanto do gastador.


Busque o caminho do meio

Mais do que garantir o equilíbrio da vida financeira e a saúde das relações, quem se identifica com algum destes perfis extremos tem a chance de rever seus próprios padrões. Veja algumas dicas para isso.

# Autoconhecimento. Busque entender as experiências do passado e as emoções que regem suas decisões. Em algumas situações, a dica é procurar ajuda profissional (um psicoterapeuta, por exemplo) para saber quais experiências negativas antigas você está reproduzindo ou tentando compensar no presente.

# Propósito. Pare alguns minutos para listar seus valores pessoais – o que realmente importa para você? Esse exercício traz naturalmente a noção das prioridades de vida. Ele permite definir objetivos, impedindo que o dinheiro seja direcionado para gastos desnecessários, e também ajuda a evitar o controle excessivo, que pode comprometer o bem-estar.

# Projeção orçamentária. Faça um controle das entradas e saídas financeiras do mês. Liste todas as contas a pagar e, antes de fazer qualquer uso do dinheiro, separe um pouco para investir. Para quem tem medo de gastar, a dica é fazer o mesmo tipo de planejamento, incluindo um valor para passeios, viagens e presentes para você e para quem você ama. Para facilitar esse trabalho, a gente tem uma planilha orçamentária prontinha e superfácil de preencher.


Longe dos rótulos, aprendendo com o outro

Usamos aqui expressões como pão-duro e gastador para refletir sobre padrões de consumo exacerbados. Mas sabemos que cada pessoa é muito mais do que um rótulo e, mesmo com seus desafios, tem muito a nos ensinar.

Com o pão-duro, podemos aprender que segurança e organização financeiras são, sim, importantes e que podem nos trazem muita liberdade. E que, na hora de um imprevisto, ter dinheiro guardado também pode trazer tranquilidade. Sem falar da facilidade em formar patrimônio e realizar projetos de vida.

Já o gastador nos ensina que a vida é preciosa e deve ser desfrutada a cada instante. E que é preciso boas doses de sabedoria e bom-senso para usufruir hoje e viver bem amanhã.




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