Uma Iniciativa Febraban
Atualizado em: 09 jun 2020 às 16h e 07m

Gente que se reinventou na crise

Conheça as histórias de empreendedores que mudaram de rota para minimizar os desafios trazidos pelo Covid-19


Se a pandemia trouxe desafios sem limites para os empreendedores brasileiros, também é verdade que muitos têm usado sua força, criatividade e persistência para ir adiante. A seguir você conhece a história de alguns deles. Adaptando seus modelos de negócios e descobrindo novos jeitos de fazer as coisas, eles encontraram caminhos para se manter no mercado e, ao mesmo tempo, contribuir para que a sociedade supere algumas das dificuldades que surgiram neste momento. Para você se inspirar e descobrir que sair do lugar, muitas vezes, pode produzir resultados notórios.








Em janeiro de 2020, Mariana Camardelli vivia uma fase de consolidação de seus mais de dez anos de trabalho como designer de eventos. O ano se mostrava bastante promissor para a sua empresa, a Altos Eventos. “Comecei o ano com todas as metas batidas, pronta para um período de colheita”, conta. Com a chegada do isolamento social, o sonho tão batalhado transformou-se em dura realidade quando ela viu todos os seus contratos cancelados. “De repente, fui da prosperidade à escassez.”

Os profissionais do setor de eventos, que dependem da presença física, viram-se estagnados, sem saída. Mariana respirou fundo e decidiu esperar, criar repertório e observar como as pessoas estavam se movimentando na área. Em vez de correr para o online, como muitos fizeram, ela preferiu preservar o cuidado que sempre cultivou na organização dos eventos presenciais, com conceito, estratégia e foco nas pessoas.

Após essa fase de maturação, ela lançou a série “19 piqueniques online para você aprender a desenhar eventos incríveis”, formada por encontros para compartilhamento de conhecimento com gente que estava vivendo os mesmos dilemas que ela. Nesses eventos, foi possível testar o formato e entender os caminhos de conexão e interação entre as pessoas. Foi aí que ela começou a perceber como o negócio poderia funcionar dali em diante.

A seguir, realizou eventos online com três convidados internacionais, sendo que um deles passou a ser o seu mentor: Fabian Pfortmüller, um dos criadores da Community Canvas e especialista em criação de comunidades virtuais. “Diante de muita insegurança e um alto custo emocional, foi dele que ouvi que meu fracasso momentâneo, trazido pela pandemia, não definia o meu valor.”

Como esse apoio, Mariana seguiu desenvolvendo novos produtos. Criou uma metodologia e mais uma série de cursos de design de eventos online, que teve início em 30 de maio de 2020 com turma lotada. “Foi como passar pela jornada do herói, perder tudo, viver o luto, para entender por onde recomeçar”, conta.

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A Questonnó é uma consultoria em inovação e design de produtos, marcas e serviços digitais com escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York. Com 40 pessoas trabalhando em suas instalações no Brasil, a empresa sentiu o forte impacto da pandemia, com clientes postergando projetos e pagamentos. Mesmo assim, adotou a política de não demitir. Colocou seu time em home office, e fez uma redução drástica nas despesas.

Em plena crise, mobilizou seus engenheiros, pesquisadores e estrategistas para trabalharem à distância no desenvolvimento de um sistema de ventilação pulmonar de baixo custo para atender à demanda de equipamentos para tratar pacientes com síndromes respiratórias provocadas pelo Covid-19.

Usando os recursos e conhecimentos que tinha dentro de casa, seu time se uniu a médicos e instituições da área de saúde, como a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e a Associação Paulista de Medicina para projetar um equipamento acessível aos hospitais. A equipe contou com a participação do engenheiro Jorge Bonassa, um dos maiores especialistas em ventilação mecânica do Brasil, e do Dr. Luiz Fernando Falcão, pesquisador na área de ventilação mecânica e fisiologia pulmonar, além de vários outros especialistas.

Cerca de 35 dias depois nascia o VentFlow, um equipamento que deve ser colocado à venda por cerca de 10% do valor de uma máquina similar, que custa até R$ 150 mil. Neste momento, o sistema encontra-se em processo de certificação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Assista ao vídeo Projetando o VentFlow para saber mais sobre seu desenvolvimento.

A comercialização do produto irá gerar recursos para novos investimentos. “Vamos criar e manter um grupo de especialistas focado em desenvolver produtos e serviços adequados à realidade da saúde do Brasil”, explica o presidente da empresa, Levi Girardi. “O modelo será o de uma empresa social, uma start-up incubada na Questtonó”, diz.

Perguntado sobre o que recomenda a empreendedores para que consigam sobreviver na atual crise, ele dá algumas dicas: “é importante tentar transformar as novas limitações em oportunidades de diferenciação a partir da inovação. Restaurantes que  conseguirem levar a experiência que proporcionam para as casas das pessoas, construtoras que conseguirem mostrar seus apartamentos de forma digital e humana, produtos que conseguirem integrar protocolos de segurança neles mesmos, só para ficar em poucos exemplos, sairão na frente.”













A Yes Modas já vinha funcionando há dez anos em Poá, em São Paulo, quando a pandemia chegou ao país. Eliana Jesus Oliveira, que sempre gostou de trabalhar com roupas femininas, precisou fechar as portas da loja para atender às medidas de restrição. Munida de máscara e álcool gel, começou a levar as mercadorias de porta em porta para as freguesas, mas logo percebeu que roupas novas deixaram de ser prioridade na maioria das casas.

O que as pessoas precisavam, em primeiro lugar, era de alimentos. Atenta a essa necessidade, Eliana decidiu mudar o foco do negócio. Começou, então, a entregar frutas, verduras e legumes em casa. “Estava funcionando, mas muito devagar”, conta. Por sugestão de suas irmãs, montou uma barraca para vendê-los porta de casa. Foi quando Maurício, seu marido, pensou em vender alimentos no próprio ponto comercial onde funcionava a loja de roupas.

Aproveitaram a estrutura e transferiram todo o capricho e a dedicação com os clientes para o novo empreendimento. Além das frutas, legumes e verduras que chegam todos os dias fresquinhos direto da horta, eles incluíram chás, temperos, grãos e frutas secas no menu do estabelecimento, que ganhou um novo nome: Empório da Li.

Ainda que Eliana tenha sentido a mudança, aos poucos, ela percebeu o valor do novo negócio, ainda mais em um momento em que as pessoas têm sua atenção voltada para a saúde e para a boa alimentação. “Eu sinto que o empório vai ficar para sempre, vou trazer novidades, quero que minha clientela se sinta feliz. Mas não vou parar de trabalhar com roupa, mesmo que seja num esquema de leva e traz”, afirma.















Ana Maria Drummond e Marina Martins moraram em Banglandesh no final de 2018, quando fizeram uma imersão para conhecer os fundamentos dos negócios sociais com Muhammad Yunus, economista ganhador do Prêmio Nobel da Paz e o maior líder do tema do microcrédito no mundo. O objetivo era entender como movimentar a economia impactando positivamente a vida das pessoas.

Já no Brasil, junto com mais duas sócias, Andreia Vettorazzo e Fabiana Peroni, em 2019, dedicaram-se a uma intensa pesquisa e chegaram à definição do que queriam fazer dali em diante. Junto com uma equipe multidisciplinar, nasceria, então, o Somos Todos Maria, projeto voltado à capacitação de mulheres que trabalham na área da beleza na periferia de Poá, em São Paulo.

“Apesar do impacto positivo que provocam em suas comunidades, essas mulheres são invisíveis”, diz Ana. “Fazem a economia girar, mas não têm capital de giro e acesso a crédito”. Muitas delas, segundo ela, têm um histórico de maus-tratos e violência doméstica. O salão, muitas vezes montado na garagem de casa, é um espaço de transformação social. “Elas não vão ali apenas para cuidar das mãos ou do cabelo, mas para falar sobre seus desafios diários”.

Quando os salões foram fechados, durante a pandemia, as idealizadoras mobilizaram suas redes para apoiar o início de uma nova atividade: a confecção de máscaras de proteção. O modelo planejado por elas previa uma arrecadação virtual para apoiar o trabalho das mulheres e a doação das máscaras confeccionadas por elas.

“Conseguimos levantar R$ 50 para cada uma por dia de produção”, conta Ana. A iniciativa acabou sendo contemplada no edital do Heróis Usam Máscaras, movimento organizado por três grandes bancos (Bradesco, Itaú e Santander) para viabilizar a confecção de máscaras para a população brasileira. Neste momento, o projeto já trabalha em novos ciclos de arrecadação e produção.














Com as portas fechadas, bares e restaurantes precisaram encontrar alternativas para tentar sobreviver e quem não trabalhava com entregas de comida em casa, por exemplo, precisou correr atrás. Mesmo assim, o confinamento impactou diretamente não apenas os donos dos estabelecimentos, mas seus fornecedores e profissionais que prestam serviços nesse mercado.

Foi o caso das nutricionistas Marília Liotino e Mariana Pupin, que trabalham juntas há dois anos e, no último, fundaram a consultoria em nutrição Sou Conhecimento. Sediadas em Ribeirão Preto, em São Paulo, reduto de bares e com uma vida noturna agitada, começaram com tudo. “Tínhamos contratos com negócios renomados, clientes e projetos legais, para os quais nossos olhos brilhavam. Estávamos vivendo um sonho”, conta Marília.

O trabalho prestado por elas estava concentrado na prestação de consultoria e assessoria na adequação às regras da vigilância sanitária. Com o coronavírus, dos dez contratos que tinham, ficaram com apenas três. Foi quando elas se deram conta de que precisavam rever o foco do negócio com o objetivo de manter a marca viva.

Passaram, então, a centrar seus esforços em um público que até então não era prioridade: as padarias. Ao mesmo tempo, começaram a oferecer o serviço de revisão de cardápio para restaurantes, de maneira a reduzir os custos dos pratos. “Nesse momento, estão todos atentos ao preço”, diz Marília.

A preocupação das pessoas com a higiene dos alimentos também entrou na perspectiva do negócio. As nutricionistas têm ajudado seus clientes na comunicação para tranquilizar e conquistar a confiança dos consumidores. Esse assunto tende, inclusive, a ser incorporado à prestação de serviços da dupla após a pandemia.

 








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