Os golpes amorosos, chamados também de estelionatos sentimentais, têm ganhado espaço nos noticiários ao envolver pessoas, muitas vezes idosas, que acreditam manter relacionamentos afetivos com perfis falsos na internet. Assim como acontece em outros tipos de golpes e fraudes financeiras, os criminosos usam a tecnologia e a engenharia social para se aproximar da vítima.
A diferença, nesse caso, está na abordagem: essas fraudes costumam começar de forma discreta, em conversas e demonstrações de interesse emocional que, a princípio, parecem genuínas. Depois, surgem pedidos de dinheiro, geralmente associados a emergências, promessas ou supostos obstáculos burocráticos, como taxas para liberar encomendas vindas do exterior, custos para desbloquear contas ou despesas inesperadas para viabilizar um encontro presencial.
Situações como essa têm sido registradas em diferentes regiões do país. Recentemente, uma idosa perdeu cerca de R$26 mil após se envolver com um homem que se apresentava como o empresário Elon Musk e prometia o envio de uma caixa com dinheiro, mediante o pagamento de taxas para a liberação da entrega. Em outro episódio, a imagem da atriz Juliana Paes foi usada indevidamente por golpistas para enganar um idoso de Minas Gerais, que acreditava viver um relacionamento com a artista. Ele transferiu aproximadamente R$32 mil aos golpistas, ao longo de três meses.
Ainda que alguns casos envolvam figuras públicas, as fraudes não se limitam a nomes conhecidos. Muitas vezes, os criminosos adotam identidades comuns, apresentando-se como solteiros ou viúvos, com poucos vínculos familiares, e criam narrativas detalhadas para conquistar a confiança aos poucos.
“Cada vez mais vemos como os golpes têm se sofisticado. Eles estão mais estruturados, porque os criminosos treinam para isso”, alerta a psicóloga Cintia Sanches, colaboradora no Instituto de Psiquiatria da FMUSP, no PRO-AMITI. Por isso, é importante manter-se informado sobre como esses golpes são aplicados.
O que são os golpes amorosos digitais
Os “golpes do amor” fazem parte de um contexto mais amplo de fraudes que têm crescido no país. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados ao menos 281,2 mil crimes de estelionato por meios eletrônicos no Brasil, 17% a mais do que no ano anterior. As tentativas de fraudes permaneceram elevadas ao longo de 2025, especialmente entre usuários de plataformas digitais.
A atuação é baseada na criação de relacionamentos afetivos falsos em redes sociais e aplicativos de relacionamento. Nesse tipo de crime, os golpistas observam e estudam o comportamento da vítima antes de qualquer abordagem financeira. A dinâmica inicial costuma ser semelhante à de um contato comum: após o primeiro vínculo, a comunicação se intensifica e passa a incluir demonstrações rápidas de afeto, urgência emocional e promessas de futuro, estratégia conhecida como love bombing.
Com o avanço da inteligência artificial, essas interações podem incluir áudios e chamadas de voz ou vídeo, o que reforça a sensação de proximidade e dificulta a identificação da fraude.
O impacto além do dinheiro
Os golpistas exploram fatores como solidão, busca por afeto, momentos de vulnerabilidade emocional em diferentes fases da vida e dificuldades no uso de ferramentas digitais para fisgar a vítima. Isso torna-se ainda mais fácil com a proliferação do uso da inteligência artificial para simular fotos, áudios e vídeos.
Com a ajuda de IA, perfis falsos conseguem manter conversas frequentes, criar rotinas de contato e reforçar a sensação de reciprocidade, fazendo com que a relação pareça legítima antes mesmo de qualquer pedido financeiro.
Segundo Cintia Sanches, o processo não acontece de forma abrupta. “O golpista vai se aproximar de você, criar um vínculo e buscar sua confiança, entrando na relação como qualquer outra pessoa faria”, explica. “E a vítima acaba caindo porque partimos do pressuposto de que as pessoas são honestas. Essa é uma característica da vida em sociedade”.
O início costuma reproduzir interações comuns em aplicativos de relacionamento, com elogios, demonstrações de interesse e trocas cotidianas. Com o tempo, o discurso evolui para declarações de necessidade emocional e promessas de amor, estratégia que contribui para a construção gradual da confiança da vítima.
Os pedidos financeiros costumam aparecer depois, de forma gradual e contextualizada. Primeiro, costumam ser valores baixos pedidos em situações corriqueiras, como uma conta que não foi paga ou um problema temporário com o cartão. Em alguns casos, o dinheiro é devolvido nas primeiras vezes para reforçar a sensação de segurança. Depois, vem o golpe de fato.
Quando a pessoa percebe, além do prejuízo financeiro, precisa lidar com sentimentos como vergonha, culpa e medo, que geram sofrimento psicológico e podem levar ao isolamento, impedindo-a, muitas vezes, de pedir ajuda a amigos e familiares.
Em situações mais graves, o impacto se prolonga e pode afetar a saúde mental, exigindo acompanhamento profissional para a reconstrução da autoestima e da confiança nas relações.
De olho nos sinais de alerta
Segundo Cintia Sanches, os primeiros sinais de que alguém está sendo vítima de um golpe costumam aparecer em mudanças de comportamento sutis, percebidas principalmente por quem convive de perto com a vítima.
Entre os alertas mais frequentes estão o isolamento progressivo, o aumento significativo do tempo no celular ou no computador e o sigilo excessivo sobre conversas online. “Muitas vezes, o golpista tenta isolar a pessoa de amigos e familiares, diminuindo as chances de questionamento externo. Esse isolamento progressivo dificulta o reconhecimento do golpe e torna mais demorada a busca por ajuda”, alerta.
Outro indício importante é quando a pessoa passa a evitar comentar sobre o relacionamento com amigos ou familiares. “Se alguém começa a esconder transferências, sair do ambiente para pagar contas ou sentir que não pode contar algo em voz alta, esse já é um sinal relevante”, explica a psicóloga.
Como familiares, amigos e cuidadores podem ajudar
Ao desconfiar que alguém próximo pode estar envolvido em um golpe amoroso, a recomendação é evitar acusações diretas ou confrontos, que tendem a reforçar o isolamento da vítima. Em vez disso, o caminho mais eficaz é incentivar a reflexão com calma, fazendo perguntas e demonstrando interesse genuíno pela situação.
Realizar uma escuta ativa e agir com empatia ajudam a manter o vínculo e reduzem a sensação de julgamento. Cintia comenta que os golpistas costumam se colocar como rivais de amigos e familiares, tentando enfraquecer relações de confiança para manter a vítima isolada. Por isso, mostrar presença constante, relembrar a história compartilhada entre você e a vítima e reforçar o apoio são estratégias importantes.
Também é válido estimular conversas abertas sobre relacionamentos online e finanças, conectando o tema ao cuidado cotidiano com o dinheiro. Quando há impacto emocional intenso, vergonha persistente ou sinais de sofrimento psicológico, a dica é buscar apoio profissional. Serviços públicos e gratuitos de atendimento psicológico, oferecidos por universidades, SUS e iniciativas estaduais podem ser um ponto de apoio.
Por fim, reforçar a segurança digital como responsabilidade coletiva ajuda a quebrar o estigma: golpes amorosos não acontecem por ingenuidade individual, mas pela exploração de necessidades emocionais reais. Informar, acolher e manter redes de apoio é parte essencial da prevenção.
Como perceber o golpe do amor e se proteger
O estelionato sentimental pode assumir diferentes formas, mas costuma seguir padrões reconhecíveis ao longo da abordagem. Primeiro, os criminosos criam perfis falsos, com imagens e informações inventadas ou apropriadas de terceiros, e iniciam conversas marcadas por atenção constante, interesse afetivo e narrativas pessoais envolventes.
Com o avanço da conversa, o vínculo é fortalecido de maneira gradual, muitas vezes em relações à distância, enquanto o golpista passa a reunir informações pessoais, imagens e detalhes da rotina da vítima, que podem ser usados como recurso de pressão emocional.
Somente depois desse envolvimento consolidado é que surgem os pedidos de dinheiro, apresentados como exceções ou situações pontuais, associadas a emergências, dificuldades temporárias ou promessas de encontro presencial.
Quando há resistência ou questionamentos, alguns casos evoluem para formas mais explícitas de manipulação. Ameaças de rompimento da relação, demonstrações de indignação ou tentativas de inversão de culpa passam a ser usadas para manter o controle emocional.
Em situações mais graves, o golpe pode avançar para chantagem, com ameaças de divulgação de imagens íntimas ou informações sensíveis.
Para se proteger, conheça algumas orientações do Ministério Público:
- Confirme a identidade dos perfis: antes de se envolver, busque verificar quem é a pessoa com quem você conversa. Procure perfis antigos, conexões reais e referências cruzadas, como amigos, familiares ou ambientes profissionais mencionados.
- Proteja sua privacidade on-line: evite compartilhar informações pessoais sensíveis, como rotina, endereço, documentos ou dados financeiros. Quanto menos informações disponíveis, menor a chance de elas serem usadas de forma indevida.
- Desconfie de histórias dramáticas: relatos muito elaborados, pedidos urgentes ou narrativas que despertam pena e exigem decisões rápidas merecem atenção redobrada. Golpistas costumam explorar situações emocionais para reduzir a capacidade crítica da vítima.
- Evite enviar conteúdo íntimo: o envio de fotos ou vídeos íntimos pela internet pode se tornar um instrumento de chantagem. Uma vez compartilhado, o conteúdo foge do controle de quem envia.
Caso você perceba que foi vítima de um golpe ou alguém próximo conte que passou por essa situação, o primeiro passo é usar as ferramentas de denúncia das próprias redes sociais e registrar a ocorrência nos canais oficiais da polícia e do Ministério Público.
Crimes como estelionato e fraudes digitais podem ser comunicados pela Delegacia Virtual do estado onde a vítima mora ou pela plataforma do Ministério da Justiça, voltada ao registro de crimes praticados pela internet.
Sempre que possível, vale também procurar uma delegacia de polícia, de preferência unidades especializadas em crimes cibernéticos, como as Delegacias de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI) ou estruturas estaduais semelhantes, responsáveis por investigar golpes aplicados no ambiente digital.
É importante não apagar mensagens, áudios, imagens ou comprovantes de transferência, já que essas informações podem ser decisivas para a investigação. Reunir dados como perfis usados pelo golpista, endereços de e-mail, números de telefone e registros de pagamento ajuda as autoridades a identificar os responsáveis e interromper novas tentativas de fraude.
A lista abaixo reúne algumas delegacias e núcleos especializados em crimes cibernéticos em alguns estados brasileiros. A existência dessas unidades varia conforme a região. Onde não houver delegacia especializada, a orientação é registrar a ocorrência em qualquer delegacia comum ou pela Delegacia Virtual do estado.
| Estado | Unidade responsável | Endereço | Contato |
|---|---|---|---|
| Acre | Delegacia Virtual (DEVIR) | Atendimento online | (68) 32231764https://delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/ |
| Bahia | Grupo Especializado de Repressão a Crimes por Meio Eletrônico | Rua Tristão Nunes, nº 8, Mouraria, Salvador/BA | (71) 3117-6109 |
| Ceará | Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC) | Avenida Oswaldo Studart, 585, Fátima, Fortaleza – CE, CEP: 60411-260 | (85) 3101-7586drcc@pc.ce.gov.br |
| Distrito Federal | DRCC / Divisão de Repressão aos Crimes de Alta Tecnologia (DICAT) | SIA Trecho 2, Lote 2.010, Brasília/DF | (61) 3462-9533 |
| Goiás | Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Cibernéticos (DERCC) | Endereço não divulgado | (62) 3201-6352 |
| Mato Grosso | Delegacia de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI) | Av. Cel. Escolástico, 346, Cuiabá/MT | (65) 3613-5625 |
| Minas Gerais | Delegacia Especializada de Investigações de Crimes Cibernéticos (DEICC) | Av. Francisco Sales, 780, Belo Horizonte/MG | (31) 3212-3002 |
| Paraná | Núcleo de Combate aos Cibercrimes (Nuciber) | Rua José Loureiro, 376, Curitiba/PR | (41) 3323-9448 |
| Rio de Janeiro | Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) | Av. Dom Hélder Câmara, 2066, Rio de Janeiro/RJ | (21) 2202-0277 |
| Rio Grande do Sul | Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos (DRCI) – DEIC | Av. das Indústrias, 915, Porto Alegre/RS | (51) 3288-2400 |
| Santa Catarina | Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) – DEIC | Rua Henrique Alvim Corrêa, 232, São José/SC | (48) 3665-9547 |
| São Paulo | Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCIBER) – 4ª Delegacia | Rua Brigadeiro Tobias, 527, São Paulo/SP | (11) 2221-7030 |
Por fim, reforçar a segurança digital como responsabilidade coletiva ajuda a quebrar o estigma: golpes amorosos não acontecem por ingenuidade individual, mas pela exploração de necessidades emocionais reais. Informar, acolher e manter redes de apoio é parte essencial da prevenção.



