Infidelidade financeira

Como proteger seu relacionamento dos desgastes gerados pela falta de diálogo sobre dinheiro.

Organizar as finanças

/ 22 Set 2025 / 4 min. leitura
Conversar sobre dinheiro é essencial para fortalecer as relações amorosas

No começo, parecia apenas mais uma crise conjugal, mas a verdade escondida pesava mais que qualquer desentendimento: Marina* descobriu, no processo de separação, que o marido, que era empresário e sócio de uma empresa, estava endividado e inadimplente. Durante anos, ele havia omitido a real situação financeira da família. 

Como ele sempre fez o manejo do dinheiro, Marina não tinha noção da gravidade. “A quebra de confiança fez com que o casamento, que já não ia bem, ruísse de vez. A dor da traição foi mais forte do que a vontade de continuar no relacionamento”, relata a economista e planejadora financeira Paula Sauer, que acompanhou de perto essa história.

Casos como esse não são isolados. Pesquisas mostram que a infidelidade financeira é mais comum do que parece: um levantamento da ForbesWoman em parceria com a National Endowment for Financial Education (NEFE) revelou que cerca de 3 em cada 10 casais admitiram esconder gastos ou mentir sobre compras. Outro estudo, da CreditCards.com, apontou que 44% dos adultos em relacionamento já cometeram algum tipo de “infidelidade financeira”, como ocultar dinheiro, dívidas ou contas do parceiro.

Paula, que é professora da ESPM e doutoranda em Psicologia Clínica pela PUC-SP, escolheu o tema como foco de seus estudos justamente pelo impacto que causa na vida conjugal. “Existem graus e diversos tipos de infidelidade financeira: há quem esconda dívidas, os que possuem aplicações financeiras ocultas, os que mentem preços de compras, presenteiam em segredo, escondem rendimentos ou até perdem dinheiro em jogos”, explica.

O que é infidelidade financeira

Relacionamentos amorosos são construídos sobre confiança — e isso inclui a forma como o casal lida com o dinheiro. A chamada infidelidade financeira acontece quando um dos parceiros esconde gastos, contrai dívidas sem contar, mente sobre quanto ganha ou reserva uma quantia sem o conhecimento do outro. Para que ela exista, é preciso haver, antes, um acordo ou combinado entre o casal. 

A infidelidade ocorre justamente quando um ou ambos mentem, omitem ou distorcem a realidade financeira porque sabem que seu comportamento vai gerar conflito. Ou seja, mente-se porque se tem consciência de que um acordo foi quebrado, de que algo deixou de ser cumprido em relação ao que foi pactuado com o parceiro.

Embora o termo soe pesado, é um comportamento comum. Muitas vezes nasce do medo de desapontar, da vergonha de admitir erros, da falta de organização ou até de diferenças na criação. “Cada parceiro vem de uma família de origem, com crenças e valores diferentes sobre dinheiro. Só através de uma comunicação franca e transparente é que se chega a bons acordos e cumplicidade”, lembra a especialista.

Como identificar os sinais de alerta de infidelidade financeira na relação

sinais de alerta da infidelidade financeira

Alguns comportamentos cotidianos podem indicar que algo não vai bem com as finanças do casal. O importante é perceber os sinais e abrir espaço para conversas francas, em vez de transformar o tema em acusação. Esse pode ser um caminho para evitar que pequenos segredos se tornem problemas maiores.

Mudanças bruscas no padrão de consumo

Se o parceiro passa a gastar mais do que o habitual — com roupas, viagens, eletrônicos ou saídas — sem que isso esteja alinhado ao orçamento, pode ser um indício de que há despesas escondidas. O contrário também chama atenção: reduções drásticas no padrão de vida, sem explicação clara, podem revelar dívidas ocultas.

Como agir: pergunte com interesse genuíno: “Notei que você tem gastado mais com X, aconteceu alguma mudança?”. É importante mostrar preocupação e não julgamento. Isso abre caminho para a verdade vir à tona.

Resistência em compartilhar informações sobre rendimentos ou dívidas

Manter sigilo sobre quanto se ganha, bônus recebidos ou dívidas acumuladas é um sinal clássico de falta de transparência. Quando um dos lados evita conversar sobre salário, contas ou se esquiva de abrir extratos bancários, o diálogo financeiro está comprometido. 

Como agir: proponha conversas periódicas sobre finanças, como uma “reunião do casal” mensal. Deixe claro que o objetivo não é controlar, mas alinhar expectativas e sonhos.

Contas atrasadas ou notificações inesperadas de cobrança

Atrasos em boletos que deveriam estar quitados ou mensagens de cobrança que chegam sem aviso prévio revelam desorganização ou ocultação de gastos. Muitas vezes, um parceiro assume compromissos em nome dos dois sem comunicar, gerando surpresas desagradáveis. 

Como agir: em vez de focar apenas na cobrança, converse sobre o impacto no orçamento: “Esse atraso pode prejudicar nosso crédito para os próximos planos. Como podemos nos organizar juntos para resolver?”.

Compras ou transferências que não foram combinadas

Pequenos gastos fora do combinado podem parecer inofensivos, mas, quando recorrentes, abrem espaço para desconfiança. Transferências de dinheiro não explicadas ou movimentações bancárias fora do planejamento conjunto também podem indicar que um dos parceiros não está sendo transparente sobre suas prioridades financeiras.

Como agir: estabeleça limites saudáveis de autonomia — cada parceiro pode ter uma quantia para gastar livremente, mas os valores maiores devem ser decididos juntos. Isso dá liberdade sem abrir espaço para segredos.

Como a infidelidade financeira pode impactar seu relacionamento

As consequências da infidelidade financeira costumam aparecer em duas frentes principais: financeira e emocional. Muitas vezes, uma alimenta a outra, criando um ciclo difícil de quebrar. “A infidelidade financeira entre casais pode destruir não só os atuais relacionamentos amorosos, mas também minar futuras relações. A desconfiança passa a ser companheira de quem já foi traído uma vez”, destaca Paula Sauer. 

Impactos financeiros

  • Dívidas conjuntas: quando um dos parceiros contrai dívidas em segredo, o outro pode ser surpreendido por cobranças ou até ser responsabilizado legalmente. Isso prejudica a saúde financeira da família como um todo.
  • Orçamento descontrolado: os segredos dificultam o acompanhamento das despesas, levando a gastos acima da renda e ao uso excessivo de crédito. A consequência é o aumento do estresse com contas no fim do mês.
  • Adiantamento ou cancelamento de projetos importantes: planos como comprar a casa própria, fazer uma viagem ou até ter filhos podem ser adiados porque o dinheiro que deveria ser poupado foi comprometido em gastos não combinados.
  • Impacto no futuro: sem planejamento claro, o casal pode comprometer aposentadoria, investimentos ou a construção de patrimônio.

Impactos emocionais

  • Desgaste da relação: quando a mentira aparece, o parceiro enganado tende a sentir-se traído, o que gera ressentimento e frustração.
  • Quebra de confiança: mesmo pequenas omissões, quando descobertas, abalam a base da parceria. Reconstruir essa confiança pode levar tempo e esforço.
  • Aumento das brigas: o dinheiro, já apontado como uma das maiores causas de discussões conjugais, se torna um gatilho constante de conflitos quando há segredos.
  • Afastamento entre o casal: a falta de transparência pode criar barreiras emocionais, diminuindo a intimidade e a sensação de estar “no mesmo time”. Em casos mais graves, pode até resultar no fim do relacionamento.

Como evitar e lidar com a infidelidade financeira

 como lidar com a infidelidade financeira

O caminho para prevenir e enfrentar a infidelidade financeira passa, essencialmente, pelo diálogo e pelo planejamento conjunto. Manter um orçamento compartilhado, seja por meio de planilhas ou aplicativos,  é uma medida saudável para ampliar a clareza e ajudar na tomada de decisão, ajudando o casal a organizar melhor suas contas

Outro passo importante é definir metas em conjunto. Estabelecer prioridades — como quitar dívidas, poupar, investir ou planejar uma viagem — e alinhar expectativas desde o início do relacionamento fortalece a base para uma vida financeira saudável a dois. Falar sobre dinheiro, especialmente em momentos decisivos como antes do casamento, evita surpresas e garante que ambos estejam na mesma direção.

Também é possível conciliar autonomia e transparência. Cada parceiro pode ter liberdade para gastos individuais, desde que haja limites acordados previamente. Essa prática valoriza a individualidade, mas dentro de um pacto de confiança.  Para isso, falar sobre dinheiro é o melhor remédio. Se, mesmo assim, o tema ainda gerar tensão, buscar apoio externo pode ser uma boa saída. Consultores financeiros e até mesmo a terapia de casal oferecem ferramentas para mediar conversas difíceis e construir estratégias de prosperidade em conjunto.

Entre os benefícios da transparência estão a redução do estresse, o fortalecimento da confiança, um planejamento mais eficiente e, acima de tudo, a união na conquista dos objetivos comuns.

*Os nomes das pessoas citadas nas histórias foram alterados para proteger a privacidade dos envolvidos.