O Brasil vive uma febre de apostas esportivas digitais. Em menos de cinco anos, as chamadas bets deixaram de ser uma curiosidade importada da Europa para se tornar parte da rotina de milhões de cidadãos. Basta assistir a um jogo de futebol ou abrir o feed do Instagram: as casas de apostas estão em todos os lugares, patrocinando uniformes, invadindo transmissões esportivas e oferecendo bônus que parecem irresistíveis.
De acordo com o relatório do Itaú BBA, o mercado de bets brasileiro movimenta hoje entre R$8 bilhões e R$20 bilhões ao ano. É uma cifra que coloca o país entre os maiores polos globais dessa indústria, ao lado de potências como Reino Unido e Estados Unidos. O número de brasileiros cadastrados em plataformas de apostas já ultrapassa os 30 milhões e esse número não para de crescer.
O avanço das bets traz custos sociais. A oitava edição do Raio X do Investidor, da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), detectou que o endividamento das famílias vem sendo alimentado, em parte, pelo crescimento do jogo digital.
Ao contrário de um bilhete de loteria comprado no fim de semana, as bets oferecem acesso permanente, 24 horas por dia, na palma da mão. Os mecanismos que sustentam esse modelo — gamificação, recompensas rápidas, promoções de boas-vindas e vitórias iniciais planejadas — criam a sensação de que o próximo clique pode ser o da virada financeira.
“As dependências comportamentais são como as primas das dependências químicas”, explica psicóloga Tatiana Filomensky, especialista em transtornos do impulso do Ambulatório do ProAmiti, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. “Enquanto a dependência química envolve uma substância que gera prazer imediato e aciona o sistema de recompensa cerebral, as dependências comportamentais funcionam de forma semelhante, mas a partir de comportamentos que trazem prazer, como o jogo, as compras, a comida ou a internet.”
O resultado é um terreno fértil para a compulsão. E o que começa como entretenimento pode se transformar em vício silencioso, com impactos que vão além do bolso. Entender como esse processo acontece, e de que forma é possível se proteger, é essencial para enfrentar a nova febre nacional.
Bets podem realmente viciar?
O fascínio das apostas não está apenas nas promoções ou na publicidade agressiva: ele é construído dentro do cérebro humano. A cada aposta bem-sucedida, o sistema de recompensa libera dopamina, o mesmo neurotransmissor associado ao prazer do consumo, ao uso de drogas e até às curtidas em redes sociais.
“O cérebro passa a associar o ato de jogar a uma sensação de prazer imediato. Isso cria uma memória prazerosa. Com o tempo, o organismo exige estímulos mais intensos para gerar a mesma satisfação”, explica Tatiana. É o mesmo mecanismo que explica a busca constante por novidades em aplicativos ou a sensação de urgência em promoções relâmpago do comércio. No caso das bets, o efeito é amplificado e a possibilidade de ganhar dinheiro funciona como um reforço poderoso.
Segundo a psicóloga, nem todas as pessoas desenvolvem dependência, mas algumas têm mais facilidade para isso. Esse risco pode estar associado a marcadores biológicos, características de personalidade mais impulsiva, histórico familiar ou até mesmo herança genética. Esse processo é quase invisível no início. O jogador ocasional, que começou apostando em um clássico de futebol, passa a sentir necessidade de repetir a experiência em jogos menores, em campeonatos estrangeiros, em esportes que antes não acompanhava.
“O jogo cria um ciclo vicioso. A pessoa sabe que perdeu, mas entrar em contato com essa perda é tão angustiante que ela busca novamente o prazer que o jogo proporcionou no começo. Ela tenta parar, controlar ou reduzir, mas não consegue… E acaba fracassando”.
O vício, em geral, não começa de forma brusca, mas cresce silenciosamente até comprometer a vida financeira e pessoal do jogador. Por isso, é importante estar atento aos sinais que o Transtorno do Jogo apresenta.
O que é o Transtorno do Jogo e como ele funciona na prática?
O Transtorno do Jogo, também chamado de Jogo Patológico, é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde e pelo manual diagnóstico DSM-5 como uma condição clínica. Trata-se de um padrão recorrente e persistente de comportamento de aposta que leva a prejuízos sérios em vários campos da vida de uma pessoa.
O ProAmiti, referência brasileira no tema, descreve os principais sinais:
- Preocupação constante com apostas;
- Necessidade de aumentar valores ou frequência para manter a excitação;
- Mentiras para esconder perdas ou tempo gasto;
- Tentativas de recuperar prejuízos apostando mais, o chamado chasing losses.
A psicóloga Tatiana Filomensky explica que, ao tentar recuperar perdas, o indivíduo entra em um ciclo de arrependimento e culpa, buscando o prazer do jogo novamente como forma de alívio. “É porque, junto com o prazer, vem também o arrependimento, a culpa e todo um conjunto de sentimentos de desprazer, essas emoções disfóricas que acabam se sobrepondo.”
Esses mecanismos de prazer e desprazer não afetam apenas os jogadores: pesquisas em economia comportamental mostram como o cérebro cria atalhos mentais que podem levar a decisões financeiras irracionais, que vão das apostas às compras por impulso. Esse ciclo leva a novas tentativas e apostas constantes, muitas vezes impulsionadas por sentimentos negativos, resultando em endividamento e uso de dinheiro não planejado.
Estudos mostram que apenas uma minoria dos jogadores desenvolve o transtorno completo. Mas a indústria das apostas vive justamente dessa fatia. Pesquisas feitas no Reino Unido indicam que 5% dos usuários respondem por até 70% da receita das casas, evidência de que a dependência não é um efeito colateral, mas um pilar de sustentação do modelo de negócio.
Algumas práticas podem ajudar quem está passando por essa situação:
- Fixar um teto mensal para apostas e respeitá-lo rigorosamente. Funciona como um “contrato pessoal” que ajuda a reduzir a impulsividade.
- Manter contas separadas para despesas essenciais e lazer. Ao dividir o dinheiro em “caixinhas”, fica mais difícil gastar sem perceber o impacto.
- Usar aplicativos de bloqueio de sites ou tempo de tela. Ferramentas como Freedom, BlockSite e os próprios recursos de “Bem-estar digital” do celular permitem restringir o acesso em horários críticos — à noite ou após perdas, por exemplo.
- Reconhecer sinais de compulsão cedo. Jogar escondido, sentir ansiedade por não apostar ou gastar mais do que o previsto são indícios de que o controle já está se perdendo.
Essas medidas funcionam como barreiras entre o impulso e a ação. E podem ser combinadas a cuidados mais amplos de saúde financeira, que ajudam a reduzir o estresse e trazer equilíbrio ao dia a dia.
Em países como a Inglaterra, as casas de apostas são obrigadas a oferecer ferramentas de autoexclusão, que permitem ao usuário se bloquear temporária ou permanentemente do sistema. No Brasil, a regulação ainda está em construção, mas já existem aplicativos independentes e até alguns bancos digitais que permitem limitar transações em sites de jogos.
Vale reforçar a importância de colocar o jogo dentro do orçamento. Isso significa planejar o gasto como se fosse cinema ou restaurante: um valor fixo, que não deve ser ultrapassado. Se o limite mensal acabou, a regra é clara — só voltar a apostar no mês seguinte. A lógica é simples: quanto mais barreiras entre o impulso e a ação, menor o risco de perder o controle.
Crianças e adolescentes: risco em dobro
Se para adultos o apelo das apostas já é forte, entre adolescentes o perigo é ainda maior. A impulsividade típica da idade, somada à menor capacidade de avaliar riscos, cria uma vulnerabilidade natural. “Os adolescentes naturalmente são mais impulsivos porque estão em formação cerebral. Então, sempre querem mais e não ponderam riscos. Essa é uma combinação explosiva”, explica Tatiana Filomensky.
Além disso, muitos jogos digitais trazem mecânicas de sorteio pago, como as loot boxes e as caixas misteriosas, que funcionam como uma espécie de aposta disfarçada. A pesquisadora alerta que esses joguinhos, nos quais a criança espera abrir a caixa misteriosa e é incentivada a tentar novamente para ganhar moedas e continuar jogando, funcionam como estratégias para criar o futuro jogador.
Tatiana defende que o debate seja levado para dentro da escola. “É trazer para o universo escolar discussões sobre jogo, assim como já fazemos com drogas, bullying, internet e educação sexual. Hoje já existe um movimento com educação financeira, ainda tímido, mas acontecendo. O jogo precisa entrar nesse contexto”, afirma.
Na Europa, já há movimentos para regulamentar ou proibir o uso de loot boxes (caixas virtuais com prêmios aleatórios compradas com dinheiro real, que funcionam como uma espécie de aposta dentro do jogo) em games voltados a menores de idade. No Brasil, o debate ainda engatinha. Enquanto isso, especialistas recomendam que pais, professores e cuidadores mantenham supervisão ativa, uso de controles parentais e diálogo constante sobre os conteúdos acessados.
A especialista reforça que a supervisão constante é essencial, para isso é preciso acompanhar os aplicativos usados pelos adolescentes e dialogar sobre os jogos ajuda a mostrar que, mesmo sem envolver dinheiro, muitas dessas atividades já seguem os mesmos princípios das apostas.
Mais do que proibir, o objetivo é desenvolver pensamento crítico desde cedo. Conversar sobre desejos, impulsos e planos de longo prazo ajuda o adolescente a entender que pequenas decisões no presente podem comprometer seu futuro.
Como apoiar amigos e familiares viciados em jogos online
Reconhecer que alguém próximo está em risco pode ser difícil. Muitos jogadores se tornam especialistas em esconder dívidas, em inventar desculpas para o tempo gasto no celular ou em justificar sucessivas “tentativas de recuperação”. O acolhimento, nesse caso, é mais eficaz do que a crítica. Validar as dificuldades, escutar, oferecer apoio e sugerir a busca por tratamento profissional é o caminho recomendado por especialistas.
Tatiana reforça que, dentro das famílias, falar sobre finanças ainda é um tabu e muitos não discutem ganhos, gastos ou dívidas, criando um déficit de conversas financeiras que dificulta a prevenção e o apoio a quem está em risco. Criar um ambiente seguro e acolhedor permite que a pessoa se sinta à vontade para expressar a vontade de jogar e buscar alternativas saudáveis de lazer.
Serviços de apoio existem, embora ainda pouco conhecidos. Entre eles estão os Jogadores Anônimos; a Associação Viver Bem, que oferece psicoeducação online gratuita; e o ProAmiti em São Paulo, um ambulatório que fornece tratamento psicológico, médico e psiquiátrico gratuito. A orientação é procurar ajuda cedo, antes que o endividamento ou o isolamento social se agravem.
Para ajudar, amigos e familiares também podem propor atividades alternativas, como esportes coletivos, eventos culturais e convívio social fora do ambiente digital. A chave é reconstruir fontes de prazer que não estejam associadas à lógica da aposta, ajudando a reduzir a vulnerabilidade e os riscos do comportamento compulsivo.
Praticar esportes, por exemplo, não exige investimento. Há inúmeras opções gratuitas ou de baixo custo que mantêm o corpo ativo e oferecem benefícios de longo prazo que vão desde preservar funções básicas, como andar com facilidade ou subir escadas, até fortalecer o equilíbrio e a resistência. Além disso, o exercício físico tem impacto direto na mente: ajuda a controlar ansiedades, melhora o humor e pode prevenir quadros de depressão, transformando-se em um aliado poderoso contra os gatilhos do vício.
Outra alternativa é buscar novos hobbies, que funcionam como uma válvula de escape saudável diante do estresse. Atividades como aprender um instrumento, cozinhar, bordar ou mesmo cultivar plantas estimulam a criatividade, a concentração e oferecem satisfação sem a necessidade de estar conectado o tempo todo. Hobbies também reduzem a dependência do celular e da internet, ajudando a reequilibrar a rotina e trazendo leveza para o dia a dia.
Outra dica que pode ajudar é realizar passeios diferentes e culturais, que estimulem outros aspectos da vida fora das telas. O contato com artes visuais, teatro, música, literatura ou cinema amplia horizontes e fortalece a saúde mental.
Mais do que entretenimento, essas experiências coletivas promovem pertencimento e criam redes de apoio fundamentais. Participar de um show comunitário, de uma roda de leitura ou de uma exibição ao ar livre pode ser tão valioso quanto uma terapia de grupo e com o benefício extra de aproximar pessoas de diferentes origens em torno de emoções compartilhadas.
Um fenômeno que pede regulação e consciência
O mercado das apostas esportivas online no Brasil está em processo de implementação regulatória. A Lei 14.790/2023, sancionada no fim de 2023, estabeleceu as bases legais para a atividade, e em 2024 foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), ligada ao Ministério da Fazenda, responsável por fiscalizar e autorizar as empresas.
Até agosto de 2024, o governo já havia recebido 113 pedidos de autorização de 108 empresas interessadas em atuar no país. De acordo com a Portaria nº 1.475/2024, as companhias que protocolaram pedido até 17 de setembro podem operar durante o período de adequação, que vai até 31 de dezembro. A partir de 1º de janeiro de 2025, apenas as plataformas devidamente autorizadas poderão funcionar legalmente no Brasil.
Esse novo cenário mostra o tamanho do apetite de grandes grupos globais pelo mercado brasileiro. Mas também reforça a urgência de discutir os riscos. A experiência internacional aponta que a combinação de regulação efetiva, campanhas de conscientização e oferta de tratamento especializado pode reduzir danos.
Ainda assim, especialistas lembram que a responsabilidade individual continua central. “Quando o prazer se transforma em compulsão, o prejuízo não é só financeiro, e sim emocional, familiar e social”, conclui Tatiana.
Estou endividado, e agora?
Mais de 77 milhões de brasileiros enfrentam dificuldades com dívidas, e para quem desenvolve um vício em apostas, esse número pode significar muito mais que aperto no orçamento. Quando os débitos começam a comprometer alimentação, moradia ou saúde, o impacto se torna profundo e angustiante, configurando superendividamento.
É importante entender as diferenças:
- Endividado: tem dívidas, mas consegue administrá-las dentro do orçamento.
- Inadimplente: deixou de pagar alguma dívida no prazo.
- Superendividado: não consegue mais arcar com necessidades básicas por causa das dívidas acumuladas.
Para quem lida com apostas, o peso emocional é intenso. A ansiedade cresce, o sono e o apetite podem ser afetados, e sentimentos de vergonha e culpa se acumulam. Em casos mais graves, pode surgir a fobia financeira, que nada mais é do que um medo paralisante de lidar com dinheiro.
Se você se identifica com essa situação, é importante saber que não está sozinho. Existem caminhos para retomar o controle financeiro e emocional, e buscar ajuda é o primeiro passo para quebrar o ciclo.
Como saber mais sobre o assunto?
Para quem quer compreender de forma prática como as apostas online podem afetar finanças e bem-estar, a Plataforma Meu Bolso em Dia oferece uma trilha educativa gratuita sobre bets. O curso utiliza a história de Leonardo, um personagem que representa a experiência de milhares de brasileiros que começaram a apostar por curiosidade e acabaram se envolvendo além do previsto.
Ao longo de seis aulas curtas e acessíveis, os participantes aprendem não apenas como funcionam as bets, mas também os riscos financeiros e emocionais associados, identificando sinais de comportamento compulsivo e estratégias para retomar o controle. A linguagem didática e os vídeos objetivos tornam o conteúdo fácil de acompanhar, mesmo para quem nunca estudou finanças ou economia comportamental.
Além disso, o curso ajuda a diferenciar apostas de investimentos, mostrando que o resultado das bets depende do acaso e não de habilidade ou estratégia, algo fundamental para evitar expectativas irreais e perdas desnecessárias. Os alunos também recebem orientações práticas sobre planejamento, limites financeiros e formas de proteger o orçamento, criando hábitos mais conscientes e sustentáveis no dia a dia.
Ao final, a trilha educativa não apenas esclarece o funcionamento das apostas, mas também empodera os participantes a tomar decisões mais seguras, fortalecendo a saúde financeira e emocional.

