Mesmo com os preços nas alturas, o brasileiro não abre mão do cafezinho

Entenda porque e veja dicas e como economizar sem tirar o produto da rotina

Organizar as finanças

/ 22 Mai 2025 / 6 min. leitura
O café faz parte da rotina dos brasileiros

Ele está presente no nosso dia a dia. Pela manhã ou logo após almoço, em reuniões, encontros e bate-papo casual entre amigos. Coado, expresso, gourmet, em uma média ou pingado. Seja qual for o seu preferido, o café, com certeza, faz parte da sua rotina. Ele é tão relevante para o país que, em 2005, foi instituído o Dia Nacional do Café, comemorado em 24 de maio.

No entanto, nos últimos meses, o aumento no preço do café tem gerado preocupação entre os apreciadores da bebida. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o café moído subiu 77,8% nos últimos 12 meses. Essa alta se deve, principalmente, à baixa produção do grão, causada por altas temperaturas que impactam a cultura do café, e ao fortalecimento do dólar, que fez com que grande parte da safra fosse direcionada para exportação.

Com a disparada de preços, é preciso ser criativo para manter o consumo de café no cotidiano sem comprometer o orçamento. Veja dicas de como fazer isso e entenda mais sobre a história do café no Brasil, a importância do grão para a economia do país e, também, como preparar um café que tenha o seu jeito. 

Café, um símbolo histórico

No Brasil, o café é mais do que uma simples bebida: além de estar presente em cerca de 98% dos lares, é parte essencial da história, da economia e da cultura do nosso país.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Café, a trajetória do grão no país remonta ao início do século 18, quando as primeiras mudas da planta foram trazidas da Guiana Francesa para o estado do Pará. A partir daí, o cultivo se expandiu para outras regiões até encontrar condições ideais no Sudeste, especialmente no Vale do Paraíba, entre as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.  

E o sucesso dessa pequena planta pelas nossas terras não aconteceu por acaso: o clima tropical, os solos férteis e a topografia das regiões Sul e Sudeste foram determinantes. A partir daí e, principalmente durante o século 19 e 20, o café se tornou a base da economia brasileira, chegando a representar mais de 70% das exportações nacionais durante o auge do ciclo da planta, entre 1850 e 1930.  

A cidade de São Paulo, principal centro econômico do país, deve grande parte de seu crescimento ao café. Regiões do interior paulista como Campinas, Ribeirão Preto e o Vale do Paraíba, tornaram-se um dos maiores polos de produção cafeeira no mundo e, para escoar a produção até o porto de Santos – de onde ele era exportado para a Europa e os Estados Unidos – foi necessário criar uma infraestrutura de transportes mais eficiente, que deu origem a ferrovias como a Estrada de ferro Santos-Jundiaí. A cidade passou, então, a atrair investimentos, imigrantes, trabalhadores e empresários ligados ao setor, e o dinheiro do café financiou a criação de bancos, o surgimento de escolas, hospitais, teatros, etc. 

O início do século 19 marcou o declínio do café, que aconteceu pela combinação de inúmeros fatores, como excesso de produção, queda da demanda mundial (principalmente após a crise de 1929), crescimento da concorrência internacional e mudanças no modelo econômico brasileiro. Mas, ainda que com menos força, ele continua sendo um dos principais produtos agrícolas do Brasil.

O consumo de café no Brasil

Presente em tantos momentos, o consumo da bebida no Brasil registrou um aumento de 1,11% entre novembro de 2023 e outubro de 2024. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) e apontam, ainda, que o brasileiro segue como o maior consumidor dos cafés nacionais. No ranking internacional, ocupamos a segunda posição, perdendo apenas para os Estados Unidos – onde também se considera o consumo da bebida gelada. 

O café é a segunda bebida mais consumida no Brasil

De acordo com a ABIC, o Brasil – maior produtor e exportador global de café –, consumiu 21,9 milhões de sacas em 2024. Esse volume representa 40,4% da safra do ano no país, estimada pela Companhia de Abastecimento (Conab) em 54,21 milhões.  

O faturamento da indústria de café torrado, em 2024, alcançou R$ 36,82 bilhões, variação positiva de 60,85% quando comparado ao ano anterior. As alterações se devem, principalmente, ao aumento de preço do produto nas gôndolas dos supermercados. 

Para monitorar as vendas no varejo, a ABIC coleta, mensalmente, três milhões de notas fiscais em todo o Brasil. O preço médio dos cafés especiais aumentou 9,80% comparado ao período de janeiro a dezembro de 2024. As outras categorias da bebida também tiveram aumento de preços: gourmet (16,17%); cafés superiores (34,38%); cafés tradicionais e extrafortes (39,36%); cápsulas (2,07%). 

Mas, por que houve um aumento tão expressivo no preço do queridinho dos brasileiros? A explicação, provavelmente, está a quilômetros de distância da sua cafeteria preferida: no campo. 

A falta de chuvas e as altas temperaturas durante o desenvolvimento das lavouras aumentaram os gastos com a produção, já que muitos agricultores precisaram adotar técnicas especiais para a manutenção das lavouras e no combate às pragas, muito frequentes no calor. As exportações também ajudaram a elevar os preços para o consumidor brasileiro. Só em dezembro de 2024, elas representaram 3,8 milhões de sacas de 60 quilos, um volume recorde no resultado anual de 50,44 milhões de sacas, segundo o Conselho de Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). 

Para cada gosto, um tipo diferente de café

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o café arábica (coffea arabica) e o conilon (também conhecido como robusta) estão entre os principais tipos de grãos cultivados no Brasil. O arábica, grão mais popular no mundo, é cultivado em regiões de maior altitude e clima mais ameno. Tem sabor suave, aromático e menor teor de cafeína. Já o conilon tem sabor mais intenso e maior concentração de cafeína, além de ser amplamente utilizado em blends (mistura de grãos) e na produção de café solúvel. 

Bebida democrática para cada gosto há um tipo de café 

O mercado brasileiro oferece uma ampla diversidade de cafés, que variam em qualidade, sabor, método de preparo e preço, e atendem aos mais diferentes paladares e bolsos. Conheça, abaixo, alguns deles: 

  • Gourmet: feito a partir de grãos selecionados, passam por um tempo menor de torra e apresentam um sabor mais adocicado e menos amargo.  
  • Superior: é elaborado com grãos selecionados, mas ainda traz impurezas. Esse tipo de café apresenta certo nível de doçura e leve acidez, mas ainda tem o amargor presente. 
  • Tradicional: aqui, os grãos verdes, maduros ou passados, são colhidos todos juntos, sem seleção, por isso apresenta um sabor mais amargo. A torra não é tão carbonizada (como no extraforte) e nem a moagem é tão fina.  
  • Extraforte: é um tipo de café com torra muito escura, praticamente carbonizada. Isso porque os grãos, escolhidos a partir do café arábica, são compostos por grãos defeituosos. Possui sabor mais amargo e tem o pó mais fino, ou seja, contém menos cafeína.  
  • Especial: elaborados a partir de frutos maduros e livre de impurezas, são cafés que atingem notas sensoriais diferenciadas e apresentam a maior qualidade entre todos os tipos. 

Os valores podem variar muito de acordo com o tipo e a marca do café. No Brasil, o mais vendido e que agrada mais o paladar é o tradicional, seguido pelo extraforte, que tem preço superior, mas ainda acessível. No entanto, há um aumento expressivo no consumo dos tipos especiais, superiores e gourmets, impulsionado por pessoas em busca de novas experiências sensoriais e que demonstram preocupação com a origem dos grãos e com uma produção mais sustentável. Dados da Conab mostram que os grãos classificados como cafés especiais representam aproximadamente 20% da atual safra brasileira nos últimos dois anos. 

Novos sabores, novas tendências de espaços

Com tanta gente buscando por novas experiências em torno do produto, as cafeterias também têm se reinventado nos últimos anos e se transformado em verdadeiros pontos de encontro, ambientes de trabalho e experiências gastronômicas. A mudança, acelerada pela pandemia de Covid-19 e pelas novas dinâmicas sociais, impulsionou uma nova forma de se relacionar com esses espaços. 

Com a popularização do home office, muitas pessoas passaram a buscar alternativas para trabalhar fora de casa e as cafeterias com wi-fi gratuito, ambiente acolhedor e mesas confortáveis, se tornaram ambientes ideais para reuniões informais, estudo ou local de trabalho. A tendência foi rapidamente absorvida por empreendedores do setor, que adaptaram seus espaços para atender esse novo público. 

Essa reinvenção das cafeterias abriu espaço para o empreendedorismo. Espaços com experiências diferenciadas atraíram novas gerações de consumidores e abriram caminho para novos negócios no setor. 

Dados da pesquisa Evolução dos Hábitos e Preferências dos Consumidores de Café no Brasil (entre 2019 e 2023), divulgados pelo Instituto Agronômico (IAC), em parceria com o Instituto Axxus e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostram que, passado o período da pandemia de Covid, em 2023, as pessoas voltaram a frequentar as cafeterias: em 2019, eram 41%; 0,9%, em 2021 e 51%, em 2023. Entre as principais motivações estão a possibilidade de interação com as pessoas, a qualidade do café e as facilidades oferecidas, como estacionamento e internet, por exemplo. 

Modos de preparar o café

Existem diferentes métodos de preparo do café

Do coador de pano até a praticidade das cápsulas, há muitas maneiras de apreciar o café de todos os dias. Cada uma tem suas características de aroma, sabor e complexidade, indo do mais em conta ao gourmet. Conheça algumas delas: 

  • Espresso: os grãos são moídos na hora e extraídos na máquina.
  • Coado: basta colocar o café no filtro de papel ou de pano e ir despejando água quente.
  • Hario V60: método japonês similar ao anterior, porém utiliza um filtro que tem uma abertura maior e uma espécie de ranhura em forma de espiral. Neste método, o ideal é escaldar o filtro com água quente para remover as impurezas e, só depois, acrescentar os grãos moídos para pré-infusão.
  • Moka (ou cafeteira italiana): para esse preparo, basta acrescentar água na base do jarro até o nível da válvula de segurança e inserir o café no compartimento indicado. Conforme a água aquece, ela entra em contato com o pó e ambos são impulsionados para a parte superior da cafeteira.
  • Chemex: método utilizado por amantes do café gourmet, é considerado bastante prático por ser preparado em uma peça única. Basta aquecer a água e colocá-la sobre o filtro chemex.
  • Prensa francesa: aqui, a filtragem é feita por meio da separação entre sólido e líquido. Por utilizar uma tela fina e não filtro de papel, requer uma moagem mais grossa. Para fazer o café, basta acrescentar o pó no béquer, despejar água quente e aguardar cerca de 4 minutos para o processo de infusão acontecer.
  • Coador de pano: um dos métodos de preparo mais utilizados pelo brasileiro, o coador de pano é feito de algodão em formato cônico.
  • Café turco: um dos métodos mais antigos do mundo prepara a bebida em um utensílio chamado cezve, uma pequena panela de latão, na qual a água é fervida junto com especiarias e, depois, acrescenta-se o pó de café. 

Entre tantas possibilidades, a escolha do método ideal depende do gosto pessoal, da rotina e do quanto se quer (ou pode) investir. Para quem busca uma opção acessível e prática, o tradicional coador de pano  é barato, reutilizável e fácil de encontrar. Por outro lado, investir em métodos como a prensa francesa ou a cafeteira italiana pode valer a pena: apesar de custar mais no início, são duráveis e fáceis de usar no dia a dia.

Como economizar sem abrir mão do produto

O aumento dos preços do café impactou o bolso e os hábitos de consumo do produto Brasil afora. Mas não é preciso excluir o item da lista. Com algumas dicas simples é possível, sim, continuar apreciando o bom e velho cafezinho diariamente.  

Que tal trocar a marca mais cara por uma mais acessível no momento da compra? De olho nas vendas, alguns supermercados fazem promoções do produto e isso pode ajudar você a fazer um pequeno estoque a preços mais baixos. Outra alternativa é comprar pacotes maiores, que muitas vezes oferecem um melhor custo-benefício.

Você pode, ainda, começar a moer o próprio grão - isso porque comprar grãos inteiros costumam ser mais baratos e, ao moer na hora, você ainda preserva mais o sabor do café, com um bom aproveitamento do produto. No YouTube é possível encontrar vídeos que ajudam o consumidor no ajuste da moagem e da quantidade de café para cada máquina. Vale a pena conferir! 

Vale conferir também as cápsulas de café reutilizáveis, que podem ser preenchidas com o café moído de sua preferência. Há, também, marcas de café que promovem programas de fidelidade para incentivar o consumo do produto. É possível acumular pontos e resgatar produtos com desconto, além de ter acesso a degustações e experiências exclusivas. 

Além dessas dicas, tenha cuidado na hora de armazenar o café: ele pode perder o frescor rapidamente se exposto ao ar. Por isso, garanta que ele esteja guardado em um recipiente bem fechado e em um local fresco e seco. Assim, você preserva o sabor por mais tempo e evita desperdícios.