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Atualizado em: 28 ago 2019 às 10h e 05m

Quando o impulso domina as finanças

Por que algumas pessoas acabam gastando mais do que desejam e como conquistar o autocontrole


O ser humano é movido por necessidades e vontades, algumas fundamentais para a sobrevivência, como se alimentar, matar a sede, proteger o corpo e ter um abrigo para se defender do frio e da chuva. Mas também é movido por outros desejos, como o de adquirir itens materiais que complementam sua subsistência e fortalecem seu convívio social. Até aí, tudo certo.

O problema surge quando as pessoas tomam decisões por impulso e perdem o freio na hora de ir às compras. A falta do controle, nos casos mais graves, pode se transformar em uma doença que afeta as finanças e as diversas esferas da vida. Esse distúrbio é chamado de transtorno do controle do impulso e tem um nome científico: oniomania.

Ele é definido pela Organização Mundial da Saúde como aquele que tem como característica “a falha em resistir a um impulso, instinto ou desejo de realizar um ato que é prejudicial ao indivíduo ou outras pessoas”. Mas por que isso acontece e como encontrar o equilíbrio nessas situações?

É o que perguntamos à psicóloga e mestre em Psiquiatria Tatiana Filomensky, coordenadora da iniciativa para Compradores Compulsivos do Pro-Amiti (Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso) do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. “Essa é uma doença que nem sempre é diagnosticada, mas que afeta profundamente a vida das pessoas que convivem com ela”, alerta a especialista.


Em busca de satisfação e status

O transtorno do impulso pela compra é uma doença recentemente incluída no rol das enfermidades psiquiátricas, que se desenvolve na fase adulta e se intensifica na sociedade de consumo em que vivemos. Estimuladas pela mídia e pelo imediatismo, os indivíduos desejam mais do que precisam ou podem ter.

O bombardeio de ofertas e novidades, principalmente do mercado eletrônico, invade cotidianamente a vida das pessoas, que buscam no ato de comprar a sensação de empoderamento e, consequentemente, de inserção na sociedade de consumo. E isso costuma ser sinônimo de status. Em geral, indivíduos que chegam a esse estágio têm uma autoestima frágil e valorizam as conquistas por meio da aquisição de bens.

Estudos já têm apontado alguns caminhos para entender a origem do distúrbio de compras compulsivas, que afeta cerca de 5% da população. Segundo a dra. Tatiana, o fator genético pode ser um dos gatilhos para a doença. “Indivíduos que têm famílias com histórico de comportamentos impulsivos e outras dependências, como a química, podem ser mais vulneráveis”.

Outro fator que influencia esse processo, de acordo com a psicóloga, é a facilidade de acesso ao crédito. Mesmo que você não tenha dinheiro em mãos, pode levar o produto para casa parcelando-o em muitas vezes ou adiando o pagamento para uma data futura. “É preciso ter maturidade psíquica para lidar com essas situações e se pôr no controle”, reforça.

Características da doença

Veja algumas características comuns em pessoas que costumam decidir por impulso:

  • · Preocupação excessiva e perda de controle sobre o ato de comprar.
  • · Aumento progressivo do volume de compras.
  • · Tentativas frustradas de reduzir ou controlar as compras.
  • · Comprar para lidar com a angústia, ou outra emoção negativa.
  • · Mentiras para encobrir o descontrole com compras.
  • · Prejuízos nos âmbitos social, profissional e familiar.
  • · Problemas financeiros causados por compras.


Como identificar os sinais de alerta

O Pro-Amiti preparou um questionário para ajudar as pessoas a identificarem sinais de alerta do transtorno de compras. Responda às perguntas abaixo. Se suas respostas forem afirmativas para mais de cinco perguntas, isso pode indicar uma inclinação ao desenvolvimento do distúrbio de compras compulsivas.

1. Você tem preocupação excessiva com compras? 
2. Você muitas vezes acaba perdendo o controle e comprando mais do que devia ou podia? 
3. Você percebeu um aumento progressivo do volume de compras e nas suas despesas?
4. Você já tentou e não conseguiu reduzir ou controlar as compras? 
5. Você percebe se faz compras como uma forma de aliviar a angústia, tristeza ou outra emoção negativa? 
6. Você mente para encobrir o seu descontrole e as quantias que gastou com compras? 
7. Você tem ou teve prejuízos sociais, profissionais ou familiares em função das compras? 
8. Você tem problemas financeiros causados por compras? 
9. Você já se envolveu com roubo, falsificação, emissão de cheques sem fundos, ou outros atos ilegais para poder comprar ou pagar dívidas?


Consequências: do desequilíbrio financeiro à depressão

Quem gere as finanças por impulso tem dificuldades para manter um planejamento financeiro. Em geral, pauta sua necessidade pela emoção e não pela razão, ou seja, adquire bens e coisas que não são fundamentais para sua sobrevivência, tampouco para a de sua família.

O impulsivo acredita que irá conseguir pagar suas compras, mesmo que tenha feito vários parcelamentos seguidos no cartão de crédito e contratado outros tipos de empréstimos. É comum que ele acabe se complicando para pagar os valores devidos e procure novas formas de crédito, transformando suas dívidas em uma bola de neve que não para de crescer, impulsionada pelos juros e outras taxas.

“O indivíduo endividado, às vezes, esconde a situação da família e dos amigos, sente-se pressionado pela sua condição, desenvolve um quadro de ansiedade e está sempre irritado. Todos esses ingredientes são gatilhos para o desenvolvimento de depressão”, alerta a dra. Tatiana.


Como se prevenir

“A educação financeira é uma parte importante do tratamento, mas é necessário trabalhar as questões emocionais que envolvem as compras compulsivas para depois poder tratar as questões mais racionais, como as finanças”, diz Tatiana Filomensky. Veja algumas dicas de comportamentos, trazidas por ela, que podem ajudar a inibir o impulso de consumo:

# Restringir o uso do cartão de crédito e do limite da conta corrente (cheque especial). Esses produtos só devem ser usados em situações emergenciais e por pouco tempo.

# Quando precisar recorrer a um crédito ou financiamento, use-o com sabedoria, sabendo de onde sairá o dinheiro para pagar.

# Planejar os gastos é outro importante exercício para conter o impulso de gastar mais do que gostaria, principalmente, em liquidações ou promoções.

# Quando estiver em um ambiente com muitas ofertas de produtos a preços reduzidos, foque no que realmente você ou sua família está necessitando naquele momento. Saiba mais na matéria Gatilhos de Consumo.

# Converse com a família sobre o orçamento mensal, de maneira que todos contribuam com a organização das contas e estejam comprometidos com o bem-estar financeiro. Veja as dicas para conduzir esta conversa na matéria Falar sobre dinheiro é o melhor remédio.

# Também é importante educar as crianças para o consumo consciente. E isso pode se tornar uma grande brincadeira. Veja como na matéria Crianças e Dinheiro.




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