Os carros elétricos deixaram de ser uma curiosidade nas ruas brasileiras para entrar de vez no radar de quem está pensando em trocar de veículo. Nos últimos anos, o mercado ganhou novos modelos, as montadoras expandiram a oferta e os consumidores passaram a olhar com mais atenção para a possibilidade de gastar menos com combustível e manutenção. Outro atrativo, para consumidores preocupados com a saúde do planeta, é a redução das emissões de poluentes.
Ainda que normalmente tenham um preço de compra mais elevado do que os modelos a combustão, os carros elétricos começam a se tornar uma opção mais acessível do que há alguns anos. Os números mostram que esse interesse vem se refletindo nas vendas. Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), os emplacamentos de veículos elétricos registraram um aumento de 175% no primeiro quadrimestre de 2026. Comparado com o mesmo período de 2025, o crescimento foi de 17.541 para 48.299 carros. Até o final de 2026, a Anfavea, entidade que representa as montadoras, prevê que as vendas de carros eletrificados (híbridos e elétricos) podem chegar a 450 mil.
Mas, na prática, vale mesmo a pena trocar um carro a combustão por um elétrico? A resposta depende de fatores que vão muito além do preço na concessionária. Custos com recarga, manutenção, seguro, desvalorização e o perfil de uso do motorista podem fazer toda a diferença na conta final. Entender esses aspectos é o primeiro passo para descobrir se a mudança realmente compensa. Quer saber mais? Confira a seguir!
Afinal, o carro elétrico vale a pena atualmente?
Apesar da economia com combustível e manutenção ser um dos principais atrativos para quem busca um carro elétrico, a resposta depende muito de fatores como o preço de compra, os custos de seguro, a infraestrutura de recarga e o perfil de uso de cada motorista.
Para ajudar nessa decisão, reunimos um comparativo entre carros elétricos e modelos a combustão, analisando os principais custos antes e depois da compra para mostrar em quais situações a troca pode compensar.
#1 Preço de compra
O preço de compra ainda é o principal obstáculo para quem deseja migrar para um carro elétrico. Mesmo que a produção nacional e a chegada de novos fabricantes tenham ampliado a oferta e reduzido os valores nos últimos anos, os modelos elétricos continuam, em geral, mais caros do que veículos equivalentes a combustão.
A chegada de novas marcas chinesas no mercado, porém, começa a mudar esse cenário. Nos últimos dois anos, pelo menos 15 fabricantes chineses passaram a atuar ou a ampliar sua presença no Brasil, trazendo modelos mais equipados e preços mais agressivos, segundo dados divulgados pela Forbes.
Um estudo feito pela Bright Consulting e divulgado em julho de 2026, mostra que as marcas chinesas alcançaram 23% de participação no mercado brasileiro, um avanço sobre os 19,8% registrados em junho. Ao mesmo tempo, os eletrificados somaram 61.781 unidades no mês, equivalentes a 23,3% das vendas, e acumulam alta de 123% em relação ao mesmo período de 2025. Os números mostram que a maior oferta de modelos, sobretudo de fabricantes chineses, vem ampliando a presença dos eletrificados e tornando a disputa por preço e tecnologia mais intensa no mercado.
Em matéria publicada pelo portal UOL, Håkan Samuelsson, CEO da Volvo, afirma que carros elétricos podem ficar mais baratos que os modelos a combustão nos próximos cinco anos. Segundo o executivo, os custos dos elétricos estão caindo mais rapidamente do que o previsto, impulsionados por avanços tecnológicos e industriais. Entre os principais fatores está a redução no preço das baterias, um dos componentes mais caros desses veículos.
#2 Gastos com "combustível"
Quando o assunto é abastecimento, os carros elétricos levam vantagem. Recarregar a bateria na tomada costuma custar bem menos do que encher o tanque com gasolina ou etanol.
Uma simulação feita pelo jornal Gazeta do Povo, baseada em dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), mostra que rodar 1.000 km com um carro elétrico custa cerca de R$ 155, contra R$ 662 com um veículo a gasolina. Considerando os consumos médios de 15 kWh/100 km e 10 km/l, respectivamente, o custo por quilômetro é de R$ 0,16 para o elétrico e R$ 0,66 para o modelo a combustão, uma economia de aproximadamente 76%.
Em contrapartida, é importante considerar a logística da recarga, já que o tempo de abastecimento é maior e nem sempre há pontos públicos disponíveis, o que exige um pouco mais de planejamento nas viagens.
#3 Pontos de recarga
Outro ponto que pesa na decisão de comprar um carro elétrico é a infraestrutura de recarga. A carga pode ser feita em postos públicos e semipúblicos espalhados pelo país, uma rede que ainda está em expansão. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil tinha 25.429 pontos públicos e semipúblicos de recarga em maio de 2026, alta de 20,7% em relação a fevereiro. Desse total, 8.601 eram carregadores de recarga rápida (DC), crescimento de 33,8% em apenas três meses.
Além dos pontos disponíveis nas ruas e em estabelecimentos comerciais, muitos condomínios residenciais e comerciais também já oferecem ou instalam carregadores para seus moradores e usuários. Ainda assim, a disponibilidade de pontos de recarga é um dos entraves para a expansão da frota elétrica, sobretudo para quem não tem acesso fácil a um carregador no dia a dia. Para driblar essa dificuldade, muitos proprietários optam por instalar carregadores próprios em suas residências, transformando a garagem em seu principal ponto de abastecimento.
#4 Instalação de carregador
Se você pretende carregar o carro na sua residência, pode precisar investir na instalação de um wallbox (carregador de parede), equipamento que reduz o tempo de recarga e oferece mais praticidade. Além do carregador, é comum haver custos com adequações na instalação elétrica. Também é importante procurar empresas homologadas e capacitadas.
No Brasil, um wallbox costuma custar entre R$ 3 mil e R$ 8 mil, dependendo da potência, fabricante e dos recursos, sem contar a instalação. Já para quem possui um sistema de energia solar, é possível utilizar a eletricidade gerada pelos painéis para abastecer o veículo, reduzindo ainda mais o custo por quilômetro rodado - lembrando que esse também é um investimento de longo prazo.
#5 Revenda
O valor que o carro elétrico mantém ao longo do tempo também merece atenção. Segundo o IBV Auto, índice do banco BV que acompanha os preços de veículos usados no Brasil, os elétricos têm apresentado uma desvalorização mais acentuada do que modelos híbridos e equivalentes a combustão. Os modelos elétricos lançados em 2022 acumulavam desvalorização média de 49,3% até maio de 2026, enquanto os híbridos registravam 18,9% e os modelos a combustão comparáveis, 13,4%.
A perda de valor está relacionada, entre outros fatores, à rápida evolução da tecnologia, à chegada de novos modelos e à redução dos preços dos elétricos novos, impulsionada pela maior concorrência entre as montadoras. Na prática, o comprador precisa considerar não apenas o preço de aquisição e a economia com combustível e manutenção, mas também quanto o veículo poderá valer no momento da revenda.
#6 Manutenção
Os carros elétricos costumam ter custos de manutenção menores, já que seus motores possuem menos peças móveis e dispensam serviços como troca de óleo, velas, filtros de combustível e componentes do sistema de escapamento. Mesmo assim, há despesas com itens de desgaste, como pneus, freios e suspensão, além das revisões periódicas recomendadas pela fabricante.
Em caso de falha, porém, o reparo de determinados componentes pode ter um custo mais elevado, pois, em algumas situações, é necessário substituir o conjunto inteiro em vez de apenas uma peça específica. Por isso, o custo final da manutenção depende do tipo de problema e do componente afetado.
#7 Seguro
O valor do seguro é um dos itens que mais pode variar entre os carros elétricos. Em alguns casos, a apólice pode ser mais cara do que a de um modelo a combustão equivalente, devido ao custo elevado de componentes como a bateria, à dificuldade de reposição de algumas peças e à necessidade de mão de obra e oficinas especializadas.
Segundo dados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) e da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), essas características ainda representam desafios para a precificação e para a estrutura de atendimento das seguradoras. A disponibilidade de peças e de profissionais capacitados também pode influenciar o custo e o tempo dos reparos. Por isso, antes da compra, recomenda-se fazer cotações em diferentes seguradoras e verificar quais coberturas e serviços estão incluídos.
Quando investir em um carro elétrico
Se você ainda tem dúvidas sobre investir ou não em um carro elétrico, a resposta depende da avaliação de alguns critérios que influenciam o custo-benefício e ajudam a identificar se esse tipo de veículo faz sentido para o seu perfil. Veja alguns exemplos práticos que vão te ajudar nesta escolha:
Além desses fatores, também vale considerar a existência de incentivos fiscais na sua região, o custo da energia elétrica, a disponibilidade de assistência técnica e as perspectivas de revenda do veículo. Avaliar esses aspectos ajuda a fazer uma escolha mais alinhada às suas necessidades e ao seu orçamento.
O que avaliar num carro elétrico usado?
Outro ponto que merece atenção é a compra de um carro elétrico usado, já que a oferta de modelos seminovos tem crescido no mercado. Nesses casos, ainda que a quilometragem continue sendo um aspecto importante, ela já não é o principal indicador do estado de conservação do veículo. Atualmente, o fator que merece mais atenção é a saúde da bateria.
Por isso, antes de fechar negócio, verifique o State of Health (SoH), indicador que mostra quanto da capacidade original da bateria ainda foi preservada. Em geral, percentuais inferiores a 75% sinalizam um desgaste mais acentuado. Caso adquira um veículo com a bateria nessas condições, a autonomia poderá ser reduzida e, no futuro, a substituição do componente pode representar um custo elevado.
Também vale verificar se a bateria ainda está coberta pela garantia de fábrica, além do histórico de revisões e das atualizações do sistema de gerenciamento da bateria (BMS). Confirme se o veículo é compatível com carregadores rápidos (DC) e se há assistência técnica especializada disponível na região onde ele será utilizado.
O erro mais comum: olhar apenas o preço do veículo
A decisão de comprar um carro elétrico - ou permanecer com um modelo a combustão - envolve muito mais do que comparar preços na concessionária. Um dos erros mais comuns é considerar apenas o valor de compra ou da parcela, sem colocar na ponta do lápis despesas como IPVA, seguro, manutenção, energia elétrica ou combustível, pneus, revisões, estacionamento e a desvalorização do veículo.
No fim das contas, a melhor escolha não é, necessariamente, o carro mais moderno ou o mais tecnológico, mas aquele que se encaixa no seu orçamento e atende às suas necessidades - seja com o objetivo de economizar no longo prazo ou para reduzir o impacto ambiental da mobilidade. Portanto, avaliar todos os custos envolvidos e o seu perfil de uso é a forma mais segura de fazer um investimento que realmente valha a pena.
