Recentemente, diversos investidores correram à mídia para relatar perdas dramáticas em Certificados de Operações Estruturadas (COEs) ligados às empresas Braskem e Ambipar. Um deles explicou que “apliquei R$180 mil e recebi de volta R$12 mil” — ou seja, um prejuízo de quase 93%. Outro relato apontou perda de mais de R$101 mil no COE da Braskem.
Esses casos ganharam destaque porque muitos aplicadores afirmaram que aquele dinheiro tinha uma finalidade concreta — comprar um carro, dar entrada em imóvel ou reservar fundos para um projeto futuro — e confiaram nas promessas de rentabilidade “altas com segurança”. O desastre ocorreu porque os ativos que compunham esses COEs, especialmente títulos de dívida (bonds) dessas empresas, sofreram forte desvalorização no mercado internacional, acionando cláusulas contratuais de vencimento antecipado ou liquidação automática.
Esse episódio é um alerta claro: COE não é sinônimo de garantia. Não pode ser usado como “cofre blindado” para seus planos com prazos definidos (casa, carro, curso etc.). Por isso, antes de investir, é essencial que o investidor conheça bem o produto — e é isso que detalharemos a seguir.
O que são os Certificados de Operações Estruturadas (COEs)
O COE é um produto financeiro híbrido. Ele mistura ativos de renda fixa e de renda variável dentro de uma mesma estrutura. Em outras palavras: é como se você colocasse numa caixinha um título seguro (para tentar proteger parte do capital) e um ativo de risco (para buscar uma performance mais alta).
Essa “caixinha” é emitida por bancos e distribuída por assessores de investimento. E ela vem com uma promessa tentadora: ganhar mais, com risco controlado. Em essência:
- Existe um ativo subjacente ou referência (pode ser um índice, uma ação, um título corporativo, uma cesta de ativos etc.).
- Os resultados finais dependem de cláusulas pré-definidas (barreiras, gatilhos, prazos, participação percentual, proteção de capital etc.).
- Nem todos os COEs oferecem proteção total do capital: alguns permitem perdas (total ou parcial).
- Os COEs não são valores mobiliários clássicos nem fundos — são emitidos por bancos ou instituições financeiras e vendidos por intermediários, com regras próprias de resgate e liquidação.
A vantagem aparente é permitir o acesso a estratégias sofisticadas (derivativos, crédito de empresas, moedas) por meio de um produto “consolidado”. Mas, como quase tudo no mercado financeiro, exige entender bem como funciona e quais são seus riscos.
Como os COEs funcionam
Para entender bem como esse produto financeiro funciona, é útil decompor a estrutura típica de um COE em seus componentes, e depois ver exemplos práticos.
Veja os componentes básicos de um COE:
- Parte “segura” ou de proteção: normalmente, uma porção do capital é aplicada em renda fixa (ex: CDB, título público, LFT) com o objetivo de garantir ao menos parte do capital investido no vencimento. Essa proteção pode não preservar o poder de compra (isto é, não considera inflação) e pode depender de condições (ex: se não houver “evento adverso” no ativo subjacente).
- Parte de “performance” (exposição): o restante do capital é alocado em operações com derivativos (opções, futuros, swaps) ou instrumentos cujo retorno depende do comportamento do ativo subjacente. É por meio dessa parte que o investidor “participa” de altas potenciais — ou sofre perdas se o movimento for desfavorável.
- Cláusulas, barreiras e gatilhos: muitos COEs definem barreiras ou “barriers” — níveis que o ativo subjacente precisa ultrapassar ou não ultrapassar para que a performance seja creditada. Podem existir gatilhos de liquidação antecipada: se o ativo subir ou cair demais (ou se houver evento de crédito), o emissor pode encerrar o COE antes do prazo, liquidando a posição segundo as regras definidas. Também podem haver limites máximos de ganho (cap) ou cláusulas de “condições mínimas” para que o investidor receba remuneração extra.
- Prazos e liquidez: em geral, COEs têm prazos fixos definidos na emissão — meses a anos — e liquidez restrita. Muitas vezes, não é possível resgatar antes do vencimento, ou se for, haverá deságio, ou seja, um “pênalti” severo.
Agora que você já entendeu como os COEs funcionam, veja alguns exemplos práticos:
Exemplo A — COE com proteção parcial e participação condicionada
Você aplica R$50.000 num COE de prazo 3 anos, atrelado ao índice S&P 500. O produto prevê:
- Proteção de 80% do capital no vencimento (ou seja, ao final, você garante pelo menos R$40.000, mesmo que o índice caia).
- Se o índice subir, você participa com 70% da valorização.
- Se o índice cair, você perde proporcionalmente, mas não pode perder mais do que 20% (em função da proteção).
Se o índice subir 30% em 3 anos, seu retorno será de 0,70 × 30% = 21%, você recebe R$50.000 + 10.500 = R$60.500.
Se o índice cair 15%, você recebe R$42.500 (pois perde 15% da parte exposta, mas fica acima da barreira de proteção).
Exemplo B — COE de crédito / risco extremo (como Ambipar/Braskem)
Você investe R$100.000 em um COE ligado aos bonds de uma empresa X (sem proteção de capital total). Condições:
- Se o bond mantiver valor ou subir até certa faixa, você recebe, por exemplo, IPCA + 8%.
- Se o bond cair abaixo de um gatilho de 50% do valor de emissão, ocorre a liquidação automática.
- Na liquidação automática, o emissor vende os bonds no mercado e devolve o que sobrar, sem garantia de reembolso total do capital.
Foi exatamente esse tipo de estrutura que causou perdas em COEs da Ambipar e Braskem. Em muitos casos, os investidores receberam apenas 6,88% do valor aplicado no caso da Ambipar, e valores entre 26,6% e 37% no caso da Braskem.
No exemplo real, a cláusula de gatilho foi acionada porque os bonds da empresa caíram além do limite estabelecido. O estruturador liquidou antecipadamente, vendendo os títulos no mercado com grande deságio, e repassou ao investidor o valor residual, que, em muitos casos, era uma fração muito pequena do capital investido.
Dessa forma, o que parecia “ganho garantido + segurança” acabou virando prejuízo total ou quase total para quem não compreendeu os riscos embutidos.
Cada COE tem regras específicas, descritas na chamada lâmina do produto, documento que o investidor precisa ler com atenção antes de investir.
Riscos e benefícios do COE
Como todo investimento, os COEs apresentam alguns riscos e benefícios, que precisam ser muito bem avaliados pelo investidor antes de adquirir o produto. Conheça os principais deles e faça uma escolha bem embasada.
Principais riscos associados ao COE
- Risco de crédito/risco do emissor do ativo subjacente: se o ativo referenciado (por exemplo, bond corporativo, empresa de crédito) tiver problemas financeiros, for reestruturado ou entrar em recuperação judicial, o COE sofrerá. Em casos extremos, o bond pode cair drasticamente, acionando a liquidação. Esse risco foi exatamente o que ocorreu nos casos de Braskem e Ambipar.
- Risco de liquidação antecipada/gatilhos: o emissor pode encerrar o COE antes do prazo se certas condições forem violadas — vendendo os ativos e devolvendo ao investidor o valor residual. Muitos investidores não percebem essa possibilidade ou o preço de venda dos ativos poderá ser muito desfavorável.
- Risco de liquidez/dificuldade de resgate antecipado: o COE normalmente não permite resgate antes da data de vencimento, ou se permite, será com deságio pesado. O investidor que precisar do dinheiro antes pode ficar “preso”.
- Risco de modelagem/complexidade contratual: os contratos são cheios de termos técnicos, barreiras, fórmulas matemáticas e letras miúdas que muitos investidores não conseguem interpretar. Se o investidor não entender a estrutura completa, pode ser surpreendido com resultados muito diferentes dos esperados.
- Falsa sensação de segurança/promessa exagerada: muitas vendas de COEs enfatizam taxas atraentes (“IPCA + X%”, “retorno elevado”) e minimizam riscos. Investidores desavisados podem acreditar que é investimento de proteção com bônus, quando, na realidade, é um investimento condicional.
- Sem cobertura de FGC: os COEs não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Então, se o emissor falir ou houver inadimplência, o investidor assume inteira exposição.
- Risco de inflação/poder de compra: mesmo que o capital nominal seja devolvido ao final do contrato, pode haver perda real se a correção não for suficiente para superar a inflação.
Principais benefícios
- Acesso a estratégias sofisticadas: permitem que investidores comuns participem de mercados de derivativos, crédito corporativo, índices internacionais etc., sem operar diretamente nesses mercados.
- Combinação de proteção + performance: muitos COEs oferecem uma “camada de proteção” parcial, que limita as perdas em cenários adversos — embora, como vimos, essa proteção não seja absoluta.
- Personalização e flexibilidade de estrutura: os emissores podem criar diferentes tipos de COEs com diferentes perfis de risco, prazos e níveis de participação, adaptando-se ao cenário de mercado.
- Potencial de retorno superior: em cenários favoráveis, um COE bem estruturado pode entregar ganhos bem acima dos produtos de renda fixa tradicionais.
- Diversificação de risco: ao misturar diferentes classes de ativos em uma “caixa única”, o COE pode trazer diversificação que seria mais difícil de montar individualmente para investidores menores.
Quando investir e quando evitar
Os COEs podem fazer sentido para investidores com perfil arrojado, que já possuem reserva de emergência e entendem bem o funcionamento de derivativos e de produtos de crédito.
Mas não são indicados para quem está investindo para:
- Comprar uma casa, um carro ou pagar uma faculdade;
- Guardar dinheiro de curto ou médio prazo, como reserva de emergência;
- Buscar retornos previsíveis ou garantidos.
Como referência, não mais que 5% a 10% da carteira total deve estar em produtos desse tipo — e apenas quando o investidor tem clareza sobre o risco envolvido.
Use a tecnologia a seu favor
Antes de investir em COEs — ou em qualquer outro produto complexo — use a tecnologia a seu favor. Ferramentas de inteligência artificial e simuladores financeiros ajudam a comparar rentabilidades, entender cenários e calcular riscos.
Também é fundamental:
- Ler atentamente a lâmina do produto;
- Conversar com seu assessor ou consultor financeiro;
- Verificar quem é o emissor e se há proteção de capital.
Lembre-se: entender o risco é o primeiro passo para investir com segurança. Como diria Warren Buffett, “o risco vem de não saber o que você está fazendo”.


