Nem sempre amigos, familiares ou parceiros conseguem tirar férias no mesmo período. Mas, para muitas pessoas, isso já não é motivo para adiar planos. Cada vez mais viajantes têm decidido embarcar sozinhos para estudar, trabalhar, fazer intercâmbio ou simplesmente conhecer novos destinos.
As razões para viajar sozinho são variadas. Para alguns, a viagem representa uma oportunidade de descanso ou autoconhecimento; para outros, a principal motivação é a liberdade de definir o próprio roteiro, no seu ritmo e sem depender da agenda ou dos interesses de outras pessoas.
Essa tendência acompanha o crescimento do interesse dos brasileiros por viagens. Uma pesquisa da Booking.com mostra que 29% dos brasileiros pretendem viajar para o exterior em 2026. O turismo nacional desperta ainda mais interesse: 62% planejam fazer mais viagens de fim de semana, 49% querem aumentar as escapadas curtas pelo país e 41% pretendem realizar viagens de até uma semana. Para transformar esses planos em realidade, os brasileiros também estão dispostos a investir mais. Segundo o levantamento, 70% pretendem aumentar os gastos com viagens em 2026, sendo que 29% afirmam que esse aumento será significativo, em busca de experiências cada vez mais marcantes.
Foi justamente essa vontade de aproveitar experiências em novos lugares que levou Vinícius Quintal Dalter, de 32 anos, analista de dados que atualmente mora em Hamburgo, na Alemanha, a fazer sua primeira viagem solo. Aos 26 anos, pouco depois de se mudar para o país, ele decidiu passar quatro dias em Milão, na Itália. "Eu havia acabado de me mudar, queria viajar e não conhecia muitas pessoas naquele momento. Mesmo assim, eu queria explorar", conta.
Apesar das boas experiências, ele divide que viajar sozinho requer uma dose de coragem. O medo de ficar isolado, por exemplo, costuma estar entre as principais preocupações de quem considera viajar sem companhia. A líder de produtos Rayanna Ruani, de 28 anos, sentiu essa insegurança durante os intercâmbios realizados no Canadá e nos Estados Unidos e, mais tarde, durante os estudos na Alemanha. No entanto, a experiência teve o efeito oposto. "Ter ido para essas viagens sozinha me forçou a desenvolver o meu lado social e a me aproximar das pessoas em vez de esperar que elas se aproximassem de mim", diz.
Para a social media Májory Marcelino, de 40 anos, moradora de São Paulo e que viaja sozinha há mais de uma década, a autonomia também vem acompanhada de planejamento. Sem a divisão dos custos e das decisões, a viagem solo exige atenção ao orçamento, à segurança e aos imprevistos. "Como o dinheiro, o recurso e o investimento são seus, ninguém vai fazer esse esforço por você", afirma.
Se a liberdade é um dos maiores atrativos das viagens solo, o planejamento é o que torna a experiência mais tranquila. Antes de comprar as passagens, vale entender por que cada vez mais pessoas escolhem viajar sozinhas e quais cuidados ajudam a aproveitar melhor esse tipo de aventura. Inspire-se!
O que leva as pessoas a viajarem sozinhas?
Muitas viagens acabam sendo adiadas pela dificuldade de encontrar alguém disponível para compartilhar o roteiro — algo que Vinícius não estava disposto a deixar acontecer. “Eu não queria esperar ou deixar de viajar por conta disso, e usei essa minha primeira viagem desacompanhado para entender se eu seria uma boa companhia para mim mesmo”, divide. Os quatro dias que ele passou explorando sozinho deixaram a certeza de que a experiência valeu a pena. Hoje, o conselho dele é simples: "Se você tem a oportunidade, vá. Não precisa necessariamente esperar alguém."
A busca por liberdade e flexibilidade também aparecem entre os principais motivos que levam pessoas a viajar sozinhas. Segundo o relatório State of Solo Travel, da Hostelworld, 64% dos viajantes apontam a liberdade para definir o próprio roteiro como uma das principais vantagens da experiência, enquanto 58% afirmam que a possibilidade de conhecer novas pessoas influencia a decisão.
No caso da Májory, o principal incentivo sempre foi o desejo de mergulhar em outras culturas e conhecer diferentes formas de viver. Depois do primeiro intercâmbio em Londres, ela passou a viajar sozinha por diferentes países e afirma que a experiência vai muito além do turismo tradicional. Para ela, estar desacompanhada facilita a interação com moradores e outros viajantes, além de permitir mais liberdade para adaptar o roteiro de acordo com os próprios interesses, sem precisar negociar cada escolha.
Embora seja natural imaginar imprevistos ou sentir insegurança antes de embarcar, Rayanna acredita que esse medo não deve impedir quem deseja viver essa experiência. "Você vai sempre pensar em tudo o que pode dar errado, mas, no final, se algum imprevisto realmente acontece, você vai dar conta. O importante é se preparar, planejar e se permitir", diz.
Como se preparar para fazer uma viagem sozinho
O planejamento de uma viagem solo começa antes mesmo da compra das passagens. Mais do que definir o orçamento, essa etapa envolve pesquisar o destino, entender a logística local e identificar quais cuidados serão necessários durante a jornada. O objetivo da viagem também influencia diretamente essas decisões: uma viagem de lazer curta, por exemplo, exige preparativos diferentes de um intercâmbio ou de uma estadia mais longa.
Depois de organizar sozinha o intercâmbio para aprender alemão em Munique e o mestrado em Hamburgo, Rayanna passou a dedicar mais tempo à etapa de pesquisa. Antes de embarcar, ela reúne informações sobre instituições de ensino, bairros, custo de vida, transporte público e relatos de quem já viveu no destino. "Pesquisar muito, ler blogs e buscar relatos online de outras pessoas ajuda bastante", conta.
A líder de produtos também destaca o uso de mapas digitais como um recurso essencial. Visualizar distâncias entre moradia, locais de estudo e pontos de interesse ajuda a comparar regiões, estimar deslocamentos e escolher melhor a hospedagem. "Marcar no mapa ajuda a entender, visualmente, onde tudo está distribuído. Isso faz muita diferença na hora de planejar onde você vai ficar", explica.
A escolha do tipo da hospedagem, por sua vez, varia conforme o perfil do viajante. Hostels, que costumam oferecer quartos compartilhados e áreas comuns, podem facilitar a socialização, principalmente para quem está fazendo a primeira viagem sozinho. Foi o que aconteceu com Vinícius durante a estadia em Milão. "As pessoas se aproximavam, conversavam e perguntavam de onde eu era. Foi bem legal poder ter essa conexão tão fácil", lembra.
Já quem busca mais privacidade pode optar por hotéis, pousadas e apartamentos temporários. Em qualquer caso, avaliar comentários de outros hóspedes é uma etapa importante para entender aspectos como segurança, limpeza, localização e facilidade de deslocamento.
Além da hospedagem, é fundamental planejar a logística da chegada e da estadia: deslocamento entre aeroporto e acomodação, oferta de transporte público, necessidade de chip internacional ou uso de roaming e eventuais exigências sanitárias do destino. “Procurar informações médicas antes da viagem, principalmente em destinos internacionais que exigem vacinas específicas ou apresentam doenças pouco conhecidas pelos brasileiros, também é muito importante”, recomenda Májory.
Veja outros cuidados para se tomar antes de embarcar:
Apesar de todo o planejamento, imprevistos podem acontecer. "Eu não tinha hotel e estava sem acesso à internet", lembra Vinícius, ao relatar uma situação em Portugal em que sua reserva não foi registrada e ele precisou encontrar uma hospedagem de última hora. A experiência o levou a passar a reservar parte do orçamento da viagem para emergências.
Májory também enfrentou situações inesperadas, como um problema de saúde durante uma viagem à África do Sul e atrasos aéreos que alteraram seu retorno ao Brasil. Em ambos os casos, a experiência reforçou a importância de manter contatos de emergência, ter pessoas que estavam acompanhando seu roteiro à distância e ter acesso à internet durante toda a viagem. “Nós nunca sabemos quando algum imprevisto vai acontecer. Por isso, recomendo economizar um pouco no começo da viagem, para chegar ao final dela com um valor que permita lidar com qualquer tipo de situação. Até porque, no final da viagem, nosso corpo já está cansado. É importante ter esse cuidado”, opina.
Nesses casos, o seguro-viagem funciona como uma camada adicional de proteção. Além de cobrir despesas médicas, algumas apólices incluem extravio de bagagem e atrasos de voo.
Viajar sozinho costuma ser mais caro?
Uma das dúvidas mais comuns entre quem pretende fazer uma viagem solo é se ela custa mais caro do que viajar acompanhado. A resposta depende do tipo de despesa. Enquanto alguns custos permanecem praticamente os mesmos, outros deixam de ser compartilhados e acabam aumentando o orçamento individual.
É o caso da hospedagem. Um quarto de hotel que custa R$ 500 por noite pode ser dividido entre duas pessoas em uma viagem em casal. Quem viaja sozinho, no entanto, arca com o valor integral da diária. O mesmo pode acontecer com corridas de táxi, aluguel de carro e alguns passeios privados. Por outro lado, despesas individuais, como alimentação, ingressos para atrações e passagens aéreas, costumam ter o mesmo valor, independentemente de a pessoa viajar sozinha ou acompanhada.
Para as mulheres, o planejamento financeiro pode incluir ainda despesas relacionadas à segurança. "Quando você viaja sozinha, muitas decisões envolvem equilibrar custo e proteção”, explica Májory, que por vezes preferiu optar por um quarto privativo, escolher uma hospedagem em um bairro mais central ou utilizar táxi e transporte por aplicativo em determinados horários, gastando um pouco mais para ter mais tranquilidade.
Isso não significa, porém, que viajar sozinho seja sempre mais caro. Sem precisar negociar escolhas com outras pessoas, o viajante ganha liberdade para adaptar o roteiro ao próprio orçamento, optar por restaurantes mais econômicos, alterar datas ou decidir quanto investir em cada atividade.
Na hora de avaliar um destino, Májory ressalta que vale pesquisar o custo de vida local. "Não basta olhar apenas o câmbio. Às vezes a moeda parece favorável, mas isso não significa que a viagem será barata", afirma. Avaliar o custo médio da hospedagem, da alimentação, do transporte e das principais atrações também ajuda a construir um orçamento mais próximo da realidade e evita surpresas ao longo da viagem.
Outra forma de economizar é planejar a viagem com antecedência. Reservar passagens e hospedagens antes da alta temporada, comparar diferentes tipos de acomodação e pesquisar alternativas de transporte podem ajudar a reduzir os custos. Para quem fará a primeira viagem sozinho, também pode ser mais simples começar por roteiros curtos e destinos com boa infraestrutura turística.
Vinícius, por sua vez, prefere adotar um planejamento mais flexível. Em vez de definir cada atividade antes do embarque, ele organiza apenas os pontos essenciais da viagem."Hoje eu planejo muito mais onde vou ficar e quantos dias vou passar em cada lugar do que exatamente o que vou fazer em cada dia", conta. Para ele, essa estratégia permite adaptar o roteiro de acordo com o orçamento, o clima e as oportunidades que surgem pelo caminho.
Como montar o orçamento da viagem em 4 passos
"Viajar sozinho faz você pensar em educação financeira, porque ninguém vai fazer esse planejamento por você", afirma Májory. Ela resume essa responsabilidade de forma simples: "Você pode até aprender com outras pessoas, mas não pode delegar a tarefa. É você por você”.
O primeiro passo é mapear todos os gastos previstos. Vale usar planilhas, aplicativos de notas ou até papel e caneta — o formato não importa tanto quanto a organização. O essencial é listar todas as despesas antes de definir quanto será necessário economizar para a viagem. Veja um passo a passo simples para ajudar você a começar:
#1. Liste os gastos antes do embarque: anote tudo o que será pago antes de sair de casa, dividido por categorias como deslocamento, hospedagem, alimentação, saúde, lazer. Entram aqui os gastos com comida no aeroporto, passagens, seguro-viagem, documentação, vacinas, chip de internet e ingressos comprados antecipadamente, por exemplo.
#2. Estime os gastos durante a viagem: agora, faça uma previsão das despesas do dia a dia. Inclua alimentação, transporte público, aplicativos de mobilidade, passeios, compras pessoais e uma estimativa para pequenos gastos que podem surgir, como farmácia, lavanderia ou deslocamentos extras. Mesmo que os valores sejam aproximados, eles ajudam a entender quanto será necessário levar para a viagem.
#3. Reserve uma margem para imprevistos: nem tudo sai exatamente como foi planejado. Mudanças de roteiro, atraso de voos, oscilações do câmbio ou uma despesa médica podem aumentar o custo da viagem. Por isso, o ideal é não viajar com o dinheiro contado. Sempre que possível, acrescente uma reserva de aproximadamente 15% a 20% sobre o valor total estimado para lidar com situações inesperadas.
#4. Descubra quanto precisa economizar: some todos os gastos para entender quanto a sua viagem irá custar. Compare esse valor com o tempo que falta até o embarque para descobrir quanto será necessário guardar por mês. Se preferir, você pode utilizar o Simulador de Sonhos para fazer esse cálculo. A ferramenta mostra quanto precisa economizar mensalmente para atingir a meta dentro do prazo desejado e permite ajustar o valor ou a data da viagem caso o planejamento não caiba no orçamento.
Assim, o orçamento funciona como uma ferramenta para viajar com mais tranquilidade e ter liberdade para adaptar o roteiro quando necessário — uma flexibilidade que só é possível quando há um bom planejamento prévio. Foi exatamente esse preparo que marcou uma viagem de Vinícius por Portugal. Com as hospedagens dos primeiros dias reservadas e um carro alugado, ele percorreu diferentes cidades durante quase duas semanas, ajustando o roteiro conforme a experiência em cada destino. "Se eu gostasse de uma cidade, eu ficava mais tempo. Se quisesse ir embora, eu simplesmente ia", conta. Para ele, essa autonomia resume a experiência de viajar sozinho. "A maior sensação é a liberdade de poder decidir tudo no momento em que você quer."
Destinos amigáveis para quem viaja sozinho
Ficou inspirado? Na hora de escolher um destino para viajar sozinho, leve em conta alguns critérios. De acordo com o relatório The Best Cities for Solo Female Travelers, publicado pela seguradora InsureMyTrip, os principais fatores para serem considerados são a segurança, a facilidade de deslocamento, a qualidade da infraestrutura turística e a oferta de serviços para visitantes. Eles ajudam a reduzir imprevistos e podem tornar a experiência mais prática, especialmente para quem fará a primeira viagem sem companhia.
Também é importante conhecer o seu perfil de viajante. Enquanto algumas pessoas preferem cidades com boa mobilidade e programação urbana, outras procuram destinos voltados ao ecoturismo, à gastronomia ou ao contato com a natureza. Se você ainda tem dúvidas por onde começar, Vinícius deixa uma dica de ouro: "Começar fazendo uma viagem curta pode ser uma boa forma de entender o que você gosta e como se sente viajando sozinho".
Com base nesses critérios, reunimos destinos que costumam oferecer boa estrutura para receber turistas e que podem facilitar a experiência de quem viaja solo.
Destinos nacionais para conhecer sozinho
Destinos internacionais amigáveis
Para quem vai carimbar o passaporte pela primeira vez sem companhia, a América do Sul oferece proximidade cultural. Além da menor duração dos voos, muitos destinos contam com boa estrutura turística e grande circulação de brasileiros.
Se o orçamento permitir cruzar o oceano, estes destinos lideram os rankings globais de segurança e infraestrutura turística.
Planejamento financeiro, pesquisa e organização ajudam a reduzir imprevistos, mas não determinam como será a experiência. Cada viagem solo é diferente e depende dos objetivos, do perfil do viajante e das escolhas feitas ao longo do caminho.
Para Májory, as viagens têm um papel de autoconhecimento. "Viajar sozinho faz você entender quem você é, que tipo de experiência procura e quais escolhas fazem sentido para a sua realidade. Nessa troca, eu gosto de pensar que sou um puxadinho de todos os lugares que já passei." E não é porque a viagem começa desacompanhada que ela será solitária. Para Rayanna, estar aberta para explorar, socializar e conhecer o novo trouxe surpresas para além da viagem. “Nelas, conheci pessoas e fiz amizades que mantenho até hoje”, sorri.







