Fobia financeira, o medo de olhar as finanças

Como vencer a paralisação gerada pelo medo de lidar com as finanças e construir uma vida mais próspera

Sair das dívidas

/ 24 Jun 2025 / 8 min. leitura
fobia financeira: homem apavorado com as contas

Você sente aquele frio na barriga quando chega a fatura do cartão de crédito? Evita consultar seu extrato bancário diariamente? Empurra para depois aquela conversa sobre dívidas com a família? Por receio, deixa de procurar informações sobre investimentos? Se respondeu “sim” a alguma dessas perguntas, talvez você esteja lidando com a chamada fobia financeira, um medo quase paralisante de encarar as próprias finanças.

O conceito surgiu em 2003, a partir de um estudo conduzido pelo pesquisador Thomas Burchell, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Na época, ele identificou que uma em cada cinco pessoas apresentava algum grau de aversão a temas relacionados ao dinheiro.

Passadas duas décadas, o fenômeno não só persiste como parece ainda mais presente na vida dos brasileiros. Uma pesquisa encomendada pela XP, realizada pelo Instituto Locomotiva com 1.501 entrevistados, revelou que quase metade dos entrevistados (47%) se sentem inseguros ao lidar com questões financeiras. Além disso, 40% relataram sentimentos de culpa e ansiedade e 21% confessaram que chegam a evitar abrir os boletos.

Outra pesquisa, divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) em parceria com a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), aponta que 66% dos brasileiros entrevistados afirmam sentir ansiedade ao lidar com dinheiro; 47% relatam que o tema provoca estresse e 35% dizem ter dificuldade de organizar as finanças pessoais.

Por trás desse medo, existe um ciclo que pode ser bastante prejudicial: quanto mais a pessoa deixa de olhar as finanças, fica mais difícil retomar o controle, o que impacta não só o bolso, mas também a saúde mental e emocional. O problema pode levar ao adiamento de decisões importantes como organizar as contas, negociar dívidas ou começar a investir; e gerar consequências que afetam toda a vida financeira e familiar.

A seguir, você vai entender melhor como identificar a fobia financeira, quais são suas causas e, principalmente, como começar a enfrentá-la.

Causas da fobia financeira

Problemas com dívidas e organização financeira aumentam o estresse financeiro

O medo excessivo de lidar com dinheiro pode ter diferentes origens, e uma delas, bastante comum, é o acúmulo de dívidas. Quando as contas apertam, os boletos se acumulam e a sensação de descontrole toma conta, o cérebro entra em estado de alerta constante. Esse estresse financeiro, que começa como preocupação, pode evoluir para ansiedade crônica e, em casos mais graves, se transformar em uma verdadeira fobia.

Além das dívidas, o estudo da Universidade de Cambridge também aponta outros gatilhos que podem levar ao desenvolvimento da fobia financeira. Um deles é a procrastinação, ou seja, o hábito de adiar tarefas, inclusive as que envolvem dinheiro. Outro motivo comum é a frustração gerada por perdas financeiras inesperadas. Depois de passar por um trauma (como desemprego, separações, falências ou emergências médicas), a pessoa pode não querer mais lidar com as próprias finanças.

A terceira principal causa é a falta de confiança em compreender dados, planilhas, números, gráficos, além de siglas usadas em larga escala quando se fala em finanças.  Essa dificuldade, combinada com a baixa educação financeira, leva muitas pessoas a fugir do assunto.

Para avaliar se o problema é grave, especialistas recomendam, como primeiro passo, tentar conversar sobre dinheiro com alguém de confiança, como um familiar ou amigo. Como passo seguinte, buscar ajuda do gerente do banco ou de um consultor financeiro. Essa etapa é importante, pois quem sofre de fobia financeira dificilmente consegue tomar sozinho as decisões necessárias para superar suas dívidas ou reduzir seu descontrole.

Sintomas da fobia financeira e como começar a superá-los

 Fobia financeira como identificar os sintomas e buscar soluções

A fobia financeira não é só um desconforto passageiro, é um problema que pode gerar uma série de sintomas emocionais, comportamentais e até físicos, que muitas vezes se confundem com quadros de ansiedade generalizada. Reconhecer os sinais é o primeiro passo para buscar soluções, que passam tanto pela organização das finanças, quanto, em alguns casos, pela busca de apoio psicológico.

Veja a seguir os sinais mais comuns, entenda como eles impactam sua vida e confira orientações práticas para lidar com cada um deles.

1. Ansiedade física ao pensar em dinheiro

Quando o simples ato de pensar nas finanças dispara reações físicas, como taquicardia, mãos suando ou falta de ar, é sinal de que a relação com o dinheiro já está gerando sobrecarga emocional.

Como lidar melhor com isso?

O primeiro passo é, aos poucos, conhecer suas finanças e ganhar mais controle sobre o assunto. Comece com pequenas ações, como anotar seus principais gastos do mês, sem se preocupar em fazer um orçamento completo. Aplicativos e ferramentas gratuitas podem ajudar nesse processo, transformando a ansiedade em dados concretos. 

2. Medo paralisante de abrir faturas ou extratos

Esse é um comportamento clássico da fobia financeira: evitar o contato com informações financeiras por medo do que vai encontrar. Isso, porém, costuma agravar o problema, pois impede que você tenha clareza da sua real situação.

Como lidar melhor com isso?

Experimente criar um “dia do dinheiro”, que será um momento fixo na semana para checar as finanças, de preferência com o apoio de alguém de confiança. Ao olhar para as contas, a recomendação é organizar as dívidas por ordem de prioridade e buscar negociação. Portais como o Consumidor.gov.br e os feirões de renegociação podem ajudar muito.

3. Dificuldade de falar sobre dinheiro

Falar sobre dinheiro ainda é tabu para muitas pessoas e, para quem vive a fobia financeira, isso se intensifica. Evitar o tema, porém, afasta possíveis soluções. Se o desconforto em falar sobre dinheiro for muito intenso, o ideal é buscar apoio terapêutico. Afinal, essa dificuldade não é apenas um problema prático, mas também emocional, que pode estar ligado à vergonha, inseguranças, crenças limitantes ou traumas relacionados às finanças.

Como lidar melhor com isso?

Escolha uma pessoa de confiança para ser seu “parceiro financeiro”: pode ser um amigo, um parente ou até um profissional, como um consultor financeiro. Conversar ajuda a reduzir a vergonha e normaliza o processo de pedir ajuda. Com diálogo e acordos claros, dívidas podem ser solucionadas, sonhos saem do papel e metas se tornam mais alcançáveis. Mas, quando o assunto vira um tabu, o que se acumula não são só boletos, e sim mágoas, frustrações e distanciamentos.

O resultado? Quando o tema finalmente vem à tona, muitas vezes já é tarde para resolver com tranquilidade. As decisões acabam sendo tomadas no calor do desespero, as brigas surgem e todo mundo sai perdendo financeiramente e emocionalmente. Por isso, vale a pena investir alguns minutos para abrir essa conversa. Na vida a dois, também é fundamental abrir esse diálogo. Se quiser, confira nosso conteúdo com dicas para saber se o casal é compatível financeiramente.

4. Ansiedade constante ao lidar com dinheiro

Se escolher entre pagar uma conta ou outra, ou decidir se vai parcelar ou não, gera ansiedade constante, isso indica que sua relação com o dinheiro está adoecida. 

Como lidar melhor com isso?

A construção de uma reserva de emergência pode aliviar essa pressão. Comece pequeno: separe 5% a 10% da sua renda mensal para esse fim. Ter esse colchão financeiro reduz o medo das imprevistos e traz mais segurança para tomar decisões.

5. Insônia e pensamentos constantes sobre dívidas

Ansiedade ao lidar com dinheiro pode gerar estresse e até afetar a saúde mental

Dificuldade para dormir, pensamentos repetitivos sobre contas, dívidas ou insegurança financeira. A insônia causada pela preocupação financeira não é só incômoda: ela compromete sua saúde, seu humor e sua produtividade.

Como lidar melhor com isso?

Anotar os problemas e as possíveis soluções antes de dormir ajuda a esvaziar a mente. Além disso, criar um plano de ação para suas dívidas, definindo quais priorizar e renegociar, ajuda a diminuir a sensação de descontrole. Se a insônia persistir, a recomendação é buscar ajuda profissional, tanto financeira quanto psicológica.

6. Aversão total ao tema “dinheiro”

Muitas pessoas com fobia financeira evitam completamente o assunto, fugindo de notícias, reportagens ou qualquer conteúdo sobre finanças por achar chato, entediante ou desconfortável. Esse é um comportamento que pode parecer desinteresse, mas na verdade é uma defesa contra o desconforto.  

Como lidar melhor com isso?

Busque conteúdos que falem de finanças de forma leve, prática e voltada para seu dia a dia. Podcasts, vídeos curtos ou perfis nas redes sociais que tratem do tema de maneira acessível podem ser um bom começo. Aqui no nosso blog, você encontra guias práticos e planilhas prontas para baixar, tudo em uma linguagem amigável, tornando o tema menos assustador.

7. Sintomas físicos crônicos sem causa aparente

Dores nas costas, no pescoço, ombros ou outras partes do corpo sem explicação médica clara? O estresse financeiro pode gerar tensões musculares e dores crônicas, assim como outros quadros relacionados à ansiedade.

Como lidar melhor com isso?

Além de buscar atendimento médico para descartar outras causas, é importante observar se há uma conexão entre as dores e momentos de estresse financeiro. Práticas como alongamento, atividade física e práticas como meditação ou ioga ajudam a aliviar a tensão. E, claro, enfrentar de forma gradual os desafios financeiros é essencial para reduzir o impacto emocional e físico.

Todos esses sintomas podem estar associados não apenas ao problema que é a fobia financeira, mas também a quadros mais amplos de ansiedade e estresse. Por isso, além de organizar suas finanças, não hesite em procurar apoio psicológico. Afinal, dinheiro também é assunto de saúde mental e cuidar das suas emoções é parte fundamental para construir uma vida financeira mais saudável.

Quando gastar ou não gastar vira um problemão

Falta de controle financeiro pode gerar culpa, insegurança e medo de gastar.

Gastar dinheiro, em teoria, deveria ser algo positivo. Afinal, ter dinheiro disponível permite realizar sonhos, investir em bem-estar, educação, lazer e qualidade de vida. Mas, na prática, nem sempre é assim. A relação com o dinheiro é carregada de emoções, traumas, crenças e comportamentos que, quando saem do equilíbrio, podem se transformar em fonte de sofrimento seja para quem gasta demais, seja para quem não consegue gastar.

Seja no consumo compulsivo, seja na privação extrema, o problema está em não conseguir estabelecer uma relação saudável e equilibrada com as próprias finanças.

O caminho para sair desses extremos passa, primeiro, por reconhecer o padrão que você repete. Depois, buscar informação, desenvolver educação financeira, criar uma reserva de emergência e, quando necessário, contar com apoio psicológico ou de especialistas em finanças. 

Como encarar o dinheiro sem medo

A capacidade de lidar com a fobia financeira vai depender da gravidade do caso. Quando a pessoa se sentir confortável para conversar sobre o assunto, a dica é pedir ajuda para colocar as contas no papel e encarar o problema de frente. Existem situações em que o medo é tão grande que acaba gerando a percepção de que o problema é maior do que realmente é.

Contar com o apoio de alguém para fazer as contas e conhecer a própria fotografia financeira vai permitir dimensionar o tamanho da dificuldade e elaborar um plano de ação para superar cada dívida ou decidir o que fazer com o dinheiro parado. Estudar e aprender sobre finanças também pode ajudar a desmistificar o assunto e torná-lo menos assustador. Aproveite os artigos, tabelas e planilhas disponíveis aqui no site do Meu Bolso em Dia e encare suas contas sem medo.

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Matéria publicada em 25 de março de 2020 e atualizada em 24 de junho de 2025.