Se até alguns anos atrás a aposentadoria era sinônimo de "parar", hoje o cenário é bem diferente. O Brasil já tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais — o equivalente a 15,7% da população, segundo estudo da FGV em parceria com o Instituto Itaú Viver Mais. E uma parcela crescente desse público está escolhendo um caminho que mistura propósito, autonomia e renda: empreender.
Os números impressionam. Um levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua (IBGE) mostra que o Brasil fechou 2024 com 4,3 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais — um crescimento de 53% em 12 anos. Entre 2025 e 2026, esse número já ultrapassa 4,5 milhões.
Não se trata de uma onda passageira. É uma transformação profunda na forma como enxergamos o envelhecimento, o trabalho e a realização pessoal.
O crescimento do empreendedorismo 60+
Por que tantas pessoas estão começando um negócio depois dos 60? As razões vão muito além da necessidade financeira. Pela primeira vez, a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, realizada pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, incluiu a faixa de 65 a 74 anos em sua análise. O resultado: mais de 60% desses empreendedores estão no mercado por oportunidade, não por falta de opção.
O que pesa a favor de quem empreende na maturidade?
Quem chega aos 60 anos carrega uma bagagem que nenhum curso ensina:
Todo esse conhecimento traz diferencial para o negócio. Segundo dados do Sebrae, o rendimento médio dos empreendedores seniores é de R$3.516 — valor 1,1% superior à média nacional de todos os donos de negócio. Além disso, 90% estão há mais de dois anos à frente do próprio negócio, índice bem acima da média geral, o que mostra maior estabilidade.
O que motiva quem começa depois dos 60?
As pessoas sêniores estão empreendendo principalmente pela oportunidade, e não pela necessidade. Dentre os principais motivadores está a conquista de realização pessoal.
Não são poucos os relatos de quem passou a vida inteira trabalhando para sustentar a família, criando filhos, pagando contas, e deixou um sonho guardado na gaveta. Um ateliê de costura, uma quitanda de bolos caseiros, uma oficina de marcenaria, um pequeno café no bairro. A aposentadoria pode ser o momento de tirar esse projeto do papel — não por pressão financeira, mas por prazer. Empreender aqui é menos sobre dinheiro e mais sobre olhar para trás e sentir que valeu a pena.
Entra nessa lista, também, a vontade de compartilhar conhecimento. Depois de décadas em uma profissão, o conhecimento acumulado é imenso. Seja como eletricista, costureira, professor, vendedor ou cozinheiro, há um saber que pode ser ensinado, repassado, transformado em curso, consultoria ou produto. Muita gente tem vontade de compartilhar o que aprendeu — e descobrir que existe um mercado disposto a pagar por essa experiência é uma grata surpresa.
Tudo isso anda em conjunto com a vontade de continuar ativo. Parar de repente pode ser um choque para quem sempre teve uma rotina cheia. Muitos sentem falta de ter um lugar para ir, pessoas com quem interagir, problemas para resolver. Manter-se ativo, com horários e compromissos, ajuda a preservar a saúde física e mental. Estudos mostram que quem se mantém engajado em atividades produtivas na maturidade tem melhor qualidade de vida e até maior longevidade.
Ter uma renda complementar também aparece como um dos motivos para empreender na maioridade. Para muitos, a aposentadoria cobre o essencial, mas não sobra muito para os extras: uma viagem com os netos, um jantar fora, um presente especial, um plano de saúde mais completo. Um negócio próprio — mesmo que pequeno e de meio período — pode fazer diferença no orçamento sem a pressão de ter que bancar todas as despesas da casa.
É um reforço que traz mais liberdade de escolha, somado, ainda, com o benefício da flexibilidade. Isso porque, diferente de quem empreende novo por necessidade e precisa trabalhar 12 horas por dia para sobreviver, o empreendedor 60+ pode escolher o ritmo. Trabalhar três dias por semana, atender só de manhã, fechar quando quiser viajar. Essa liberdade de ser dono do próprio tempo é um dos maiores atrativos. O negócio se adapta à vida, e não o contrário.
Os desafios de começar um negócio na maturidade
Apesar da experiência ajudar a quem quer empreender na maturidade, existem diversos desafios que precisam ser levados em conta antes de decidir abrir um negócio. É importante conhecê-los para não ser pego de surpresa.
#1 Adaptação ao ambiente digital
Esse é, talvez, o maior obstáculo. O estudo da FGV/Itaú Viver Mais aponta que 70% dos idosos brasileiros não têm letramento financeiro, e a exclusão digital ainda é uma barreira significativa.
Hoje, até mesmo um pequeno negócio exige presença digital mínima. Isso inclui:
A boa notícia é que existem cursos gratuitos e programas como o Empreendedorismo Sênior 60+, do Sebrae, voltados exatamente para esse tipo de aprendizado.
#2 Atualização constante
Se tem uma coisa que o empreendedorismo ensina é que ninguém sabe tudo — e quem acha que sabe, geralmente aprende do pior jeito. O mercado muda, as regras mudam, o comportamento do consumidor muda. O que funcionava há cinco anos pode não funcionar mais. E isso não é motivo para desânimo: é parte do jogo.
Para quem vem de uma longa carreira em uma área específica, pode ser tentador apoiar-se apenas no que já se sabe. Mas empreender exige humildade para aprender de novo, assim como disciplina para se atualizar com frequência. Veja algumas dicas:
#3 Gestão do negócio
Não basta ter um bom produto ou serviço. Na prática, muitas ideias promissoras naufragam não por falta de clientes, mas por falta de controle financeiro. A boa notícia é que gestão se aprende e não precisa ser complicada:
Planejamento financeiro: o primeiro passo antes de empreender
Antes de investir em um negócio novo, é fundamental proteger a própria estabilidade financeira, para evitar que o entusiasmo se transforme em pesadelo. Para isso, se fazer algumas perguntas pode ajudar e muito o seu negócio ser mais bem acertado:
Com isso em mente, é possível passar para questões mais específicas:
A importância de separar as contas
Finanças pessoais e empresariais são coisas diferentes. Parece óbvio, mas é um dos erros mais comuns de quem está começando um negócio próprio, especialmente quando ele nasce dentro de casa, na cozinha, na sala ou no quintal.
Quando o negócio ainda é pequeno, é tentador usar o mesmo dinheiro para comprar insumos e pagar a conta de luz da família. O problema é que, sem separação, fica impossível saber se o negócio está realmente dando lucro ou se está sobrevivendo às custas do orçamento da casa. No fim do mês, a impressão é que "entrou dinheiro", mas não se sabe exatamente quanto veio do negócio e quanto era da aposentadoria ou de outras fontes.
A solução para isso é simples: abrir uma conta bancária exclusiva para o negócio. Hoje em dia, existem opções digitais gratuitas, sem tarifa de manutenção, que podem ser abertas pelo celular em poucos minutos.
Ter uma conta separada permite saber exatamente quanto o negócio faturou no mês, sem misturar com depósitos pessoais; enxergar os custos reais do negócio, entendendo se as despesas estão cabendo dentro da receita ou não; separar o "pró-labore", ou seja, definir um valor fixo que você tira do negócio para si, como se fosse um salário, e, ainda, facilita na hora de fazer a declaração de Imposto de Renda, já que fica mais fácil comprovar receitas e despesas do negócio.
Na prática: imagine que você vendeu R$1.500 em bolos caseiros no mês. Se esse dinheiro cai na mesma conta onde você paga supermercado, farmácia e gasolina, no fim do mês você não sabe se o negócio deu lucro ou prejuízo. Agora, se esse valor vai para uma conta separada, e dela você tira R$400 para comprar ingredientes, R$50 para embalagens e R$30 para gás, sobram R$1.020. Desse total, você define, por exemplo, R$800 como seu pró-labore e deixa R$220 na conta para investir em novos equipamentos ou como reserva do negócio. Assim, fica nítido como o negócio está performando.
Como a educação financeira ajuda nessa jornada
A educação financeira não serve só para quem quer investir na bolsa ou poupar para o futuro. Ela é uma aliada poderosa de quem empreende, porque ajuda a:
O Meu Bolso em Dia oferece planilhas e ferramentas gratuitas que podem ajudar nessa organização. Vale a pena conferir também o artigo Novo negócio a partir da aposentadoria , que traz dicas complementares sobre o tema.




