Nunca é tarde para realizar o sonho de empreender

Oportunidades para quem planeja começar um negócio após os 60 anos.

Empreender

/ 21 Jul 2026 / 5 min. leitura
 começar a empreender aos 60 anos

Se até alguns anos atrás a aposentadoria era sinônimo de "parar", hoje o cenário é bem diferente. O Brasil já tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais — o equivalente a 15,7% da população, segundo estudo da FGV em parceria com o Instituto Itaú Viver Mais. E uma parcela crescente desse público está escolhendo um caminho que mistura propósito, autonomia e renda: empreender. 

Os números impressionam. Um levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua (IBGE) mostra que o Brasil fechou 2024 com 4,3 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais — um crescimento de 53% em 12 anos. Entre 2025 e 2026, esse número já ultrapassa 4,5 milhões.

Não se trata de uma onda passageira. É uma transformação profunda na forma como enxergamos o envelhecimento, o trabalho e a realização pessoal.

O crescimento do empreendedorismo 60+

Por que tantas pessoas estão começando um negócio depois dos 60? As razões vão muito além da necessidade financeira. Pela primeira vez, a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, realizada pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, incluiu a faixa de 65 a 74 anos em sua análise. O resultado: mais de 60% desses empreendedores estão no mercado por oportunidade, não por falta de opção. 

O que pesa a favor de quem empreende na maturidade?

Quem chega aos 60 anos carrega uma bagagem que nenhum curso ensina:

  • Experiência profissional acumulada ao longo de décadas
  • Rede de contatos consolidada em diferentes áreas
  • Conhecimento técnico e domínio de um ofício
  • Maior capacidade de planejamento e visão de longo prazo
  • Repertório de vida para resolver problemas com mais tranquilidade

Todo esse conhecimento traz diferencial para o negócio. Segundo dados do Sebrae, o rendimento médio dos empreendedores seniores é de R$3.516 — valor 1,1% superior à média nacional de todos os donos de negócio. Além disso, 90% estão há mais de dois anos à frente do próprio negócio, índice bem acima da média geral, o que mostra maior estabilidade.

O que motiva quem começa depois dos 60?

motivação para empreender na maturidade

As pessoas sêniores estão empreendendo principalmente pela oportunidade, e não pela necessidade. Dentre os principais motivadores está a conquista de realização pessoal.

Não são poucos os relatos de quem passou a vida inteira trabalhando para sustentar a família, criando filhos, pagando contas, e deixou um sonho guardado na gaveta. Um ateliê de costura, uma quitanda de bolos caseiros, uma oficina de marcenaria, um pequeno café no bairro. A aposentadoria pode ser o momento de tirar esse projeto do papel — não por pressão financeira, mas por prazer. Empreender aqui é menos sobre dinheiro e mais sobre olhar para trás e sentir que valeu a pena.

Entra nessa lista, também, a vontade de compartilhar conhecimento. Depois de décadas em uma profissão, o conhecimento acumulado é imenso. Seja como eletricista, costureira, professor, vendedor ou cozinheiro, há um saber que pode ser ensinado, repassado, transformado em curso, consultoria ou produto. Muita gente tem vontade de compartilhar o que aprendeu — e descobrir que existe um mercado disposto a pagar por essa experiência é uma grata surpresa.

Tudo isso anda em conjunto com a vontade de continuar ativo. Parar de repente pode ser um choque para quem sempre teve uma rotina cheia. Muitos sentem falta de ter um lugar para ir, pessoas com quem interagir, problemas para resolver. Manter-se ativo, com horários e compromissos, ajuda a preservar a saúde física e mental. Estudos mostram que quem se mantém engajado em atividades produtivas na maturidade tem melhor qualidade de vida e até maior longevidade.

Ter uma renda complementar também aparece como um dos motivos para empreender na maioridade. Para muitos, a aposentadoria cobre o essencial, mas não sobra muito para os extras: uma viagem com os netos, um jantar fora, um presente especial, um plano de saúde mais completo. Um negócio próprio — mesmo que pequeno e de meio período — pode fazer diferença no orçamento sem a pressão de ter que bancar todas as despesas da casa.

É um reforço que traz mais liberdade de escolha, somado, ainda, com o benefício da flexibilidade. Isso porque, diferente de quem empreende novo por necessidade e precisa trabalhar 12 horas por dia para sobreviver, o empreendedor 60+ pode escolher o ritmo. Trabalhar três dias por semana, atender só de manhã, fechar quando quiser viajar. Essa liberdade de ser dono do próprio tempo é um dos maiores atrativos. O negócio se adapta à vida, e não o contrário.

Os desafios de começar um negócio na maturidade

desafios de empreender na maturidade

Apesar da experiência ajudar a quem quer empreender na maturidade, existem diversos desafios que precisam ser levados em conta antes de decidir abrir um negócio. É importante conhecê-los para não ser pego de surpresa.

#1 Adaptação ao ambiente digital

Esse é, talvez, o maior obstáculo. O estudo da FGV/Itaú Viver Mais aponta que 70% dos idosos brasileiros não têm letramento financeiro, e a exclusão digital ainda é uma barreira significativa.

Hoje, até mesmo um pequeno negócio exige presença digital mínima. Isso inclui:

  • Usar redes sociais para divulgar produtos e serviços;
  • Aplicar técnicas de marketing digital para alcançar novos clientes;
  • Cadastrar o negócio em plataformas de vendas online e meios de pagamento digitais (PIX, maquininha, link de pagamento);
  • Dominar ferramentas de gestão como planilhas online, aplicativos de controle financeiro;
  • E aproveitar a Inteligência Artificial para automatizar tarefas e fazer mais negócios.

A boa notícia é que existem cursos gratuitos e programas como o Empreendedorismo Sênior 60+, do Sebrae, voltados exatamente para esse tipo de aprendizado.

#2 Atualização constante

Se tem uma coisa que o empreendedorismo ensina é que ninguém sabe tudo — e quem acha que sabe, geralmente aprende do pior jeito. O mercado muda, as regras mudam, o comportamento do consumidor muda. O que funcionava há cinco anos pode não funcionar mais. E isso não é motivo para desânimo: é parte do jogo.

Para quem vem de uma longa carreira em uma área específica, pode ser tentador apoiar-se apenas no que já se sabe. Mas empreender exige humildade para aprender de novo, assim como disciplina para se atualizar com frequência. Veja algumas dicas:

  • Conhecer o próprio mercado e a concorrência: não basta ter um bom produto. É preciso saber quem mais está vendendo algo parecido, por quanto, para quem e com quais diferenciais. Uma rápida pesquisa na internet, uma conversa com outros empreendedores do mesmo ramo ou até uma visita a concorrentes (pessoalmente ou online) já dá um bom norte. O Sebrae, por exemplo, oferece materiais gratuitos de análise de mercado que ajudam a enxergar o cenário com mais clareza.
  • Entender as novas formas de vender e se comunicar:  o consumo mudou. Hoje, grande parte das compras começa com uma busca no Google, uma indicação no WhatsApp ou um anúncio no Instagram. Quem empreende não precisa virar expert em marketing digital da noite para o dia, mas saber o básico faz diferença: criar um perfil profissional no Instagram, aprender a divulgar o negócio no Facebook (ainda muito usado pelo público 60+), usar o WhatsApp Business para se comunicar com clientes, entender como funciona um link de pagamento ou uma maquininha de cartão. São ferramentas que ampliam o alcance do negócio sem exigir grandes investimentos.
  • Estar aberto a aprender até com os mais jovens: muitas vezes, quem está começando agora na vida profissional já domina ferramentas digitais, tendências de consumo e novas formas de se comunicar. Um neto, um sobrinho ou até um vizinho mais novo podem ensinar em poucos minutos o que levaria horas lendo ou assistindo tutoriais. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, é inteligência. 

#3 Gestão do negócio

Não basta ter um bom produto ou serviço. Na prática, muitas ideias promissoras naufragam não por falta de clientes, mas por falta de controle financeiro. A boa notícia é que gestão se aprende  e não precisa ser complicada:

  • Precificar incorretamente (preço de custo x preço de venda): esse é um dos erros mais comuns de quem está começando. A pessoa soma quanto gastou de matéria-prima, dobra e acha que está correto. Mas esquece de incluir itens essenciais na conta. O preço de venda precisa cobrir não só os custos diretos (ingredientes, tecido, embalagem), mas também as despesas fixas (luz, água, aluguel), o tempo de trabalho (sua hora de serviço), os impostos, as taxas da maquininha de cartão e ainda sobrar uma margem de lucro. Para ajudar na conta, confira as planilhas gratuitas do Meu Bolso em Dia. 
  • Controlar o fluxo de caixa (o dinheiro que entra e sai): não confunda dinheiro na conta com lucro. Pode parecer óbvio, mas muita gente olha para o saldo bancário no fim do mês e acha que está tudo bem, sem perceber que aquele valor já estava comprometido com fornecedores, contas a pagar ou impostos. O fluxo de caixa é simplesmente um registro de tudo o que entra (vendas à vista, parcelamentos, recebimentos futuros) e tudo o que sai (compras, contas, salários). Saber exatamente quando cada valor vai entrar e sair evita surpresas — como ter que pagar uma conta importante e não ter dinheiro disponível. 
  • Gerenciar custos fixos e variáveis: os custos fixos são aqueles que existem todo mês, independentemente de quanto o negócio vende: aluguel, internet, água, luz, assinatura de um sistema, pró-labore. Já os variáveis mudam conforme a produção: matéria-prima, embalagem, frete, comissões. Saber a diferença entre eles ajuda a tomar decisões melhores. Exemplo: numa temporada de vendas mais fraca, dá para reduzir custos variáveis (comprar menos matéria-prima), mas os fixos continuam batendo à porta todo mês. Quem conhece bem esses números consegue planejar melhor e não entra em pânico nos meses mais magros.
  • Cuidar do atendimento ao cliente: em um mercado com tanta concorrência, o atendimento é um dos maiores diferenciais de quem está começando. Um cliente bem atendido volta, indica para os amigos e deixa avaliações positivas. Um cliente mal atendido conta para todo mundo, inclusive na internet. Por isso, é importante ser claro nos prazos, educado nas respostas, honesto sobre o que o produto faz, resolver problemas com rapidez e, quando errar, pedir desculpas e corrigir. Empreendedores maduros costumam levar vantagem aqui: décadas de experiência em lidar com pessoas ensinam paciência e jogo de cintura que nenhum curso oferece.

Planejamento financeiro: o primeiro passo antes de empreender

 a importância do planejamento financeiro

Antes de investir em um negócio novo, é fundamental proteger a própria estabilidade financeira, para evitar que o entusiasmo se transforme em pesadelo. Para isso, se fazer algumas perguntas pode ajudar e muito o seu negócio ser mais bem acertado:

  1. Quanto vou investir? Tenha um valor máximo definido, considerando o seu orçamento.
  2. Quando o negócio deve começar a gerar receita? Seja realista com o prazo e faça planos. Testar a sua ideia de negócio antes de investir costuma ajudar.
  3. Qual o pior cenário possível? Projetar cenários com diferentes volumes de vendas e pensar em alternativas é um passo fundamental para se proteger dos impactos de resultados abaixo do esperado.

Com isso em mente, é possível passar para questões mais específicas:

  • Tenho uma reserva financeira? O ideal é ter um valor equivalente a alguns meses de despesas pessoais guardado, sem contar o dinheiro do negócio. No início, o empreendimento irá demandar recursos para se manter, e provavelmente não será possível retirar um pró-labore. 
  • Conheço os custos do negócio? Aluguel, matéria-prima, divulgação, impostos, taxas de maquininha, hora de trabalho, etc. Ter conhecimento sobre quanto custa para manter o negócio é essencial para evitar surpresas. Além disso, é importante ter um capital de giro suficiente para pagar as despesas do negócio nos primeiros meses, até que ele comece a dar lucro.
  • Fiz uma pesquisa de mercado? Saber se existe cliente para o que se deseja vender, quanto ele pagaria, se a localização é favorável, se há muita ou pouca concorrência também é fundamental para aumentar as chances de acerto no investimento. 
  • Tenho metas de faturamento? Identificar o valor necessário a faturar por mês para pagar os custos do negócio e obter lucro, além de estimar quanto tempo será necessário para alcançar esse faturamento é importante para ter uma previsão de retorno e lucratividade.
  • Sei quanto posso investir sem comprometer minha segurança financeira? Essa é a pergunta mais importante de todas. Muitos negócios não se sustentam pois o empreendedor investe tudo que tem com a expectativa de sucesso, porém se o negócio não faturar como esperado ou se algum acontecimento externo ocorrer, como inflação, mudanças no mercado ou queda na demanda, a segurança financeira fica comprometida. Por isso, é tão importante manter dinheiro em caixa para não depender totalmente do negócio.

A importância de separar as contas

Finanças pessoais e empresariais são coisas diferentes. Parece óbvio, mas é um dos erros mais comuns de quem está começando um negócio próprio, especialmente quando ele nasce dentro de casa, na cozinha, na sala ou no quintal.

Quando o negócio ainda é pequeno, é tentador usar o mesmo dinheiro para comprar insumos e pagar a conta de luz da família. O problema é que, sem separação, fica impossível saber se o negócio está realmente dando lucro ou se está sobrevivendo às custas do orçamento da casa. No fim do mês, a impressão é que "entrou dinheiro", mas não se sabe exatamente quanto veio do negócio e quanto era da aposentadoria ou de outras fontes.

A solução para isso é simples: abrir uma conta bancária exclusiva para o negócio. Hoje em dia, existem opções digitais gratuitas, sem tarifa de manutenção, que podem ser abertas pelo celular em poucos minutos.

Ter uma conta separada permite saber exatamente quanto o negócio faturou no mês, sem misturar com depósitos pessoais; enxergar os custos reais do negócio, entendendo se as despesas estão cabendo dentro da receita ou não; separar o "pró-labore", ou seja, definir um valor fixo que você tira do negócio para si, como se fosse um salário, e, ainda, facilita na hora de fazer a declaração de Imposto de Renda, já que fica mais fácil comprovar receitas e despesas do negócio.

Na prática: imagine que você vendeu R$1.500 em bolos caseiros no mês. Se esse dinheiro cai na mesma conta onde você paga supermercado, farmácia e gasolina, no fim do mês você não sabe se o negócio deu lucro ou prejuízo. Agora, se esse valor vai para uma conta separada, e dela você tira R$400 para comprar ingredientes, R$50 para embalagens e R$30 para gás, sobram R$1.020. Desse total, você define, por exemplo, R$800 como seu pró-labore e deixa R$220 na conta para investir em novos equipamentos ou como reserva do negócio. Assim, fica nítido como o negócio está performando.

Como a educação financeira ajuda nessa jornada

A educação financeira não serve só para quem quer investir na bolsa ou poupar para o futuro. Ela é uma aliada poderosa de quem empreende, porque ajuda a:

  • Avaliar riscos antes de tomar decisões;
  • Planejar investimentos de forma consciente;
  • Controlar despesas do dia a dia do negócio;
  • Precificar produtos e serviços com margem adequada;
  • Tomar decisões mais conscientes,  inclusive sobre quando parar ou mudar de rumo.

O Meu Bolso em Dia oferece planilhas e ferramentas gratuitas que podem ajudar nessa organização. Vale a pena conferir também o artigo Novo negócio a partir da aposentadoria , que traz dicas complementares sobre o tema.