As mudanças climáticas não são mais uma ameaça distante. Em diversas regiões do Brasil, os cidadãos já sofrem os efeitos do calor extremo, secas prolongadas e enchentes. Entre março de 2024 e fevereiro de 2025, a temperatura média global ficou 0,71°C acima da média climatológica, que considera pelo menos os últimos 30 anos, e 1,59°C acima dos níveis pré-industriais. O verão de 2025 foi considerado o segundo mais quente da história.
Esses eventos não geram apenas impactos ambientais: eles afetam diretamente a economia do país e a vida de todos nós. A escassez de água compromete a agricultura e aumenta os custos de produção, elevando o preço dos alimentos e colocando a segurança nutricional da população em risco. A escassez de água e energia encarece o preço das contas de itens básicos. A perda de biodiversidade afeta ecossistemas essenciais para o equilíbrio ambiental e econômico.
Os efeitos para a saúde humana também são nefastos. A poluição provocada por incêndios florestais pode agravar problemas respiratórios, como asma e bronquite. O calor pode aumentar a infestação de mosquitos e o surgimento de doenças como chikungunya, dengue, zika e malária. Até mesmo a saúde mental pode ser afetada em decorrência de sofrimentos gerados por eventos extremos.
A situação é grave e exige que cada um de nós faça a sua parte para ajudar a conter as mudanças climáticas. Veja, a seguir, algumas dicas para colocar o tema em sua rotina, preparando-se para ter mais resiliência pessoal e financeira em um mundo cada vez mais desafiador.
As mudanças climáticas e você
As mudanças climáticas impactam o custo de vida no curto prazo, além de ameaçar nossa existência no longo prazo. Não se trata mais de previsões futuras, mas de efeitos concretos que já afetam o cotidiano, especialmente, das populações mais vulneráveis. Entenda, a seguir, seus principais efeitos.
Perda de safras e aumento dos preços dos alimentos
O avanço da desertificação e a degradação do solo reduzem a área disponível para cultivo. Isso diminui a produção agrícola, aumenta a dependência de alimentos importados e eleva os preços de itens básicos, como arroz, feijão e milho. Para os pequenos produtores, o efeito é ainda mais severo, podendo comprometer a renda familiar e a manutenção do negócio.
Além disso, eventos extremos, como secas e chuvas intensas, prejudicam a produção e a qualidade das colheitas, a exemplo do que aconteceu com o café no início de 2025. Isso não só encarece alimentos no supermercado, mas também afeta a segurança alimentar, com impacto direto em famílias que destinam grande parte do orçamento à alimentação.
O “Panorama Regional de Segurança Alimentar e Nutrição 2024”, lançado em janeiro de 2025 pelas Nações Unidas, mostra que ao menos 20 países da América Latina e do Caribe estão sob risco de insegurança alimentar em decorrência de eventos climáticos extremos.
Aumento de pragas e doenças
Mudanças no clima, como temperatura mais alta e umidade variável, favorecem a reprodução de vetores e pragas que afetam a saúde e a economia. Um exemplo recente vem dos surtos de dengue: nos meses de março e abril de 2024, o Brasil registrou 1,7 milhão e 1,6 milhão de casos prováveis, respectivamente; índices recordes que coincidiram com o fenômeno El Niño, que elevou calor e chuvas em várias regiões do país.
Essa proliferação mais intensa exige dos governos e da população aumento nos gastos com saúde - vacinas, medicamentos repelentes e controle vetorial. Estima-se que, em 2024, os custos com tratamento e combate à dengue, zika e chikungunya tenham chegado a R$5,2 bilhões e o impacto na produtividade nacional afetou até R$7 bilhões do PIB.
Perda de moradia e emprego
Tempestades, enchentes e deslizamentos destroem casas e infraestrutura, gerando custos inesperados com reparos e realocação. Além das perdas materiais, há impacto direto na renda: negócios locais podem ser interrompidos, resultando em perda de empregos. Em um cenário de transformações constantes, buscar capacitação para as profissões do futuro pode ser uma alternativa para fortalecer a resiliência financeira das famílias diante desses riscos.
Redução da biodiversidade
O desaparecimento de espécies compromete ecossistemas essenciais para a agricultura, pesca e recursos hídricos. Um dos exemplos mais claros está na polinização. Dados do IBGE, divulgados em julho de 2025, mostram que a contribuição da polinização animal para a produção agrícola e extrativista brasileira foi, em média, de 16,14% do valor total em 2023, acima do registrado em 1996 (14,4%).
Mais da metade (52,2%) dos 67 produtos pesquisados dependem, em algum grau, da ação de polinizadores como abelhas, morcegos e aves. Essa dependência é ainda maior em lavouras permanentes, como frutas e café, em que 71,4% da produção exige a presença desses animais. No caso da produção extrativista, a contribuição da polinização chegou a 47,2% em 2023.
Na prática, quando espécies polinizadoras são ameaçadas pelo desmatamento, incêndios florestais, uso intensivo de agrotóxicos ou mudanças climáticas, não é só o equilíbrio ambiental que se perde. A produtividade agrícola diminui, os custos de produção aumentam e o reflexo aparece no bolso do consumidor, especialmente das famílias de baixa renda, que já gastam boa parte do orçamento com alimentação.
Energia verde: é possível usar a energia solar gastando pouco
Os combustíveis fósseis (carvão mineral e derivados de petróleo) estão entre as principais fontes de emissão dos gases de efeito estufa, que levam ao aquecimento global e às mudanças do clima. Eles representam cerca de 11% da matriz elétrica brasileira, que é baseada em hidrelétricas.
O país possui outra fonte inesgotável de energia renovável e limpa: o sol. Em 2025, a energia solar ultrapassou 55,2 GW de potência instalada, tornando-se a segunda maior fonte da matriz elétrica nacional, com 22,2% de participação, segundo dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
Desse total, 37,6 GW vêm da geração própria, ou seja, de placas fotovoltaicas instaladas em telhados e quintais de cerca de 5 milhões de residências, e 17,6 GW vêm de grandes usinas conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Além disso, há, hoje, sistemas simples e acessíveis para iluminar o jardim ou aquecer a água do chuveiro, por exemplo, usando a energia solar. Veja algumas opções em diferentes faixas de preço.
Como utilizar energia solar gastando até R$ 100
Jardins, gramados e outras áreas de casas e escritórios podem ser iluminados com lâmpadas que usam apenas a energia do sol. Existem vários modelos disponíveis no mercado, com pequenas placas solares e baterias acopladas. As placas recarregam essas baterias e um sensor embutido nessa estrutura garante que a lâmpada se acenda apenas quando escurece.
É um sistema simples, que qualquer pessoa consegue instalar sem a necessidade de ajuda de profissional especializado. Em geral, basta fixar no solo ou prender na parede. Há alguns modelos mais caros, mas é possível encontrar luminárias solares de parede por cerca de R$30 e kits com várias lâmpadas por preço inferior a R$100.
Nessa faixa de preço há, também, carregadores para celulares, ventiladores e até carrinhos de brinquedo movidos à energia solar. É interessante saber que o objeto não precisa ficar diretamente exposto ao sol para ser recarregado – a claridade já dá conta do recado.
Usar a energia solar gastando até R$ 2.000
Com um investimento um pouco maior, você tem acesso a tecnologias ecológicas ainda mais sofisticadas. É o caso da energia solar térmica, que permite aquecer a água usada em torneiras, chuveiros e piscinas, por exemplo. O sistema é formado por coletores solares, que são placas metálicas, muitas vezes com vidro, que fazem a captação da luz e aquecem a água.
Hoje, podem ser encontrados módulos na faixa de R$1.500 (para 200 litros), que trazem até 70% de redução no consumo de energia elétrica para o aquecimento de água. Esses coletores são instalados em telhados ou outros lugares onde ficam mais expostos aos raios solares e fixados a um sistema de tubulação, por onde a água circula. Nessa estrutura, é instalado também um reservatório térmico (boiler), onde a água quente fica armazenada para uso.
Sistema fotovoltaico: Como gerar sua própria energia
Você também pode investir em um sistema fotovoltaico para gerar a energia elétrica necessária para abastecer a sua casa ou empresa. Funciona assim: você instala os equipamentos, usa a energia e “vende” o que sobrar para a distribuidora local, em troca de créditos para abater na conta de luz.
É possível, dessa maneira, zerar a conta de energia, dependendo do tamanho da instalação. Em muitos países, se você produz mais energia do que usa, pode vender o excedente diretamente a outros consumidores. Isso não vale, por enquanto, no Brasil. Se a energia gerada não for suficiente, ela é complementada pela rede elétrica convencional.
Assim como os coletores solares, o sistema fotovoltaico é uma estrutura modular, formada por uma série de placas que são acopladas ao telhado ou instaladas em outros espaços que recebem mais radiação solar. A instalação demanda acessórios, além da contratação de uma empresa especializada. Como cada residência tem dimensões e características, é necessário um projeto específico.
Dicas para economizar, cuidar do ambiente e mudar o estilo de consumo
Adotar hábitos sustentáveis no dia a dia pode parecer um detalhe, mas faz diferença tanto na conta no fim do mês quanto no impacto ambiental. A boa notícia é que não é preciso investir alto nem transformar a rotina de uma vez só: pequenas escolhas já geram grandes resultados. Confira algumas ideias práticas que ajudam a economizar recursos, reduzir desperdícios e ainda deixar o estilo de vida mais consciente.
Captar a água da chuva
Quem mora em casa pode aproveitar a água da chuva para diversas atividades: regar plantas, lavar o quintal, dar descarga ou até limpar o carro. O jeito mais simples é colocar um recipiente grande (como tonéis de plástico ou caixas d’água pequenas) embaixo de calhas ou áreas onde a chuva escorre com mais força. Para evitar sujeira, cubra com uma tela fina que segure folhas e galhos.
Com um pouco mais de investimento, é possível instalar cisternas próprias, que já vêm com sistema de filtragem e bomba. Como são muitas opções e modelos disponíveis no mercado, os preços também variam muito. Os modelos menores, chamados de minicisternas, custam a partir de R$900 e já ajudam bastante no dia a dia. Os maiores, que chegam a mais de R$10 mil, são indicados para famílias grandes ou quem tem jardim extenso.
Estudos mostram que empresas conseguem reduzir até 38% da conta de água com esse tipo de solução, e em residências a economia pode chegar perto de 50%, dependendo do consumo. É um investimento que se paga e ainda ajuda o meio ambiente. Além de economizar dinheiro, você estará usando um recurso que iria simplesmente para o esgoto.
Rever o estilo de vida e o padrão de consumo
Sustentabilidade também é sobre fazer escolhas conscientes diariamente. É preciso parar e revisitar atitudes cotidianas, aquelas que estão no “piloto automático”. Alguns exemplos:
- Transporte: se for um trajeto curto, troque o carro por caminhada ou bicicleta. Além de economizar combustível, faz bem para a saúde.
- Alimentação: plantar temperos em casa é simples e ajuda a reduzir idas ao mercado. Dá para começar com vasos de manjericão, hortelã ou salsinha na janela.
- Compras: antes de levar um produto para casa, pergunte-se se realmente precisa. Em vez de ter várias peças iguais de roupa, que tal explorar um armário cápsula inteligente?
- Apoio ao comércio local: comprar na feira do bairro ou do pequeno produtor é mais sustentável e muitas vezes mais barato.
Evitar as perdas de alimentos e outros desperdícios
Muitos gastos que pesam no bolso e prejudicam o meio ambiente acontecem de forma silenciosa, sem que a gente perceba. O desperdício de alimentos é um bom exemplo: comidas esquecidas na geladeira, produtos que vencem antes de serem usados e até compras por impulso que acabam indo direto para o lixo. Para evitar isso, comece pelo planejamento.
Antes de ir ao mercado, faça uma lista com o que realmente precisa e organize a geladeira deixando à frente os alimentos que devem ser consumidos logo. Outra boa ideia é reaproveitar sobras em novas receitas. O arroz do dia anterior pode virar bolinho e o frango desfiado pode ser o recheio de uma torta saborosa.
Envolver as crianças no preparo das refeições também ajuda a reduzir perdas. Além de transformar a cozinha em um espaço de aprendizado e diversão, você mostra na prática que cada alimento tem valor e não deve ser desperdiçado.
Mas os desperdícios não acontecem apenas na comida. Existem os chamados “vazamentos invisíveis”: torneiras pingando, chuveiros ligados por mais tempo que o necessário e luzes acesas em cômodos vazios. São detalhes pequenos, mas que, somados, podem representar uma fatia considerável da conta no fim do mês.
Reciclar e reaproveitar o que for possível
Aprender a lidar melhor com os resíduos que produzimos no dia a dia também é uma ótima forma de criar bons hábitos. O primeiro passo é repensar antes de comprar: muitas vezes adquirimos produtos por impulso ou em quantidades desnecessárias, o que gera gastos extras e mais lixo. Sempre que possível, reutilize embalagens e objetos - potes de vidro podem virar recipientes úteis e caixas de papelão podem ser transformadas em organizadores. O que não puder ser reaproveitado deve ser separado corretamente para a reciclagem.
O lixo orgânico, que representa boa parte do que descartamos, pode ganhar um novo papel por meio da compostagem. Restos de frutas, legumes, cascas de ovos e borra de café podem ser transformados em adubo natural, diminuindo o volume de lixo enviado aos aterros e ainda gerando economia para quem cultiva plantas ou uma horta em casa.
Outra mudança importante é evitar o uso de descartáveis: carregar uma garrafa ou copo reutilizável, além de sacolas duráveis, reduz significativamente a quantidade de resíduos gerados. Por fim, lembre-se de que nem tudo o que não serve mais para você precisa virar lixo: roupas, livros e objetos em bom estado podem ser doados ou trocados, prolongando sua vida útil.
Conectar as crianças à natureza
Dica #5: Conectar as crianças à natureza
Educar com afeto e consciência significa plantar valores que crescem junto com as crianças. Ensinar como funcionam os projetos ambientais municipais, falar sobre conceitos como Pegada Ambiental, pedir ajuda para reciclar o lixo são formas de mostrar que precisamos tornar o mundo um lugar que seja bom para elas viverem no futuro.
Quanto mais cedo elas tiverem contato com a natureza, mais irão desenvolver noções de cuidado com o meio ambiente e compreensão sobre a importância de preservar os recursos naturais. Existem várias maneiras práticas de colocar isso em prática no dia a dia.
Montar uma pequena horta, mesmo em vasos na varanda ou na janela, é uma ótima forma de mostrar o ciclo da vida e o valor de cada planta. As crianças se envolvem no cuidado diário e sentem orgulho ao colher o que plantaram. Incentivar brincadeiras ao ar livre também ajuda a criar vínculo com o ambiente e a diminuir o tempo excessivo em frente a telas.
Outra oportunidade valiosa é promover o contato com diferentes animais. Observar e interagir com aves, peixes, insetos ou pequenos animais de estimação ensina respeito, empatia e cuidado com todas as formas de vida. Com esse contato, as crianças aprendem que cada ser vivo tem um papel no ecossistema e que é importante conviver com responsabilidade.
Essas experiências ajudam a formar adultos mais conscientes, que respeitam o planeta e todos os seres que nele habitam.
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Matéria publicada originalmente em 04/06/2021 e atualizada em 02/09/2025.






