Os pequenos negócios têm um papel central na economia do país. Eles movimentam a renda local, geram empregos e oferecem oportunidades de formalização para milhões de brasileiros. De acordo com o SEBRAE, 2025 marcou um recorde histórico na abertura de pequenos negócios, com mais de 4,6 milhões de novos CNPJs, sendo a grande maioria formada por Microempreendedores Individuais (MEIs).
Ao mesmo tempo, os dados oficiais mostram que o fechamento de empresas também segue elevado. Entre os principais motivos estão a falta de organização financeira, dificuldades de gestão, desconhecimento do próprio negócio e a ausência de planejamento de médio e longo prazo. É nesse contexto que organizar o ano — mesmo que ele já tenha começado — se torna fundamental. E, para isso, ter um planner bem estruturado pode ser um ótimo caminho.
O planner é uma ferramenta de organização que ajuda a planejar, registrar e acompanhar compromissos, metas e atividades ao longo do tempo. No contexto do MEI, ele funciona como um guia do negócio, reunindo em um só lugar informações financeiras, prazos, metas, tarefas e decisões importantes.
Mais do que uma agenda, ele permite visualizar o ano como um todo, antecipar despesas e obrigações, acompanhar resultados e ajustar rotas sempre que necessário. Pode ser feito em papel, planilha ou aplicativo, mas o mais importante é que seja simples, personalizado e usado com frequência para apoiar a tomada de decisões no dia a dia do empreendedor.
Nunca é tarde para começar: montar um planner para 2026 pode ser um divisor de águas para quem quer crescer de forma sustentável.
O que não pode faltar no planner do MEI para que ele seja bem sucedido
Um bom planner vai além de anotar contas e compromissos. Ele deve refletir a realidade do negócio e apoiar decisões estratégicas ao longo do ano. Veja, a seguir, o que não pode faltar no seu.
#1 Propósito do seu negócio
Antes de pensar em números, é importante entender por que você empreende. Por exemplo, uma MEI que faz doces artesanais pode registrar: “quero adoçar a vida das pessoas, com um negócio que permita trabalhar de casa, gerar renda estável e ter mais tempo com minha família.”
Esse propósito ajuda a dizer “não” para encomendas que não compensam ou que geram mais estresse do que retorno financeiro. Se você ainda não tem certeza sobre o seu objetivo, responda às perguntas a seguir para defini-lo:
- Por que eu decidi abrir esse negócio? O que me motivou no início?
- Quais problemas eu ajudo meus clientes a resolver?
- Como quero que meus clientes se sintam ao consumir meu produto ou serviço?
- O que eu faria diferente se não estivesse apenas “correndo atrás do dinheiro”?
- Que tipo de vida eu quero que esse negócio me ajude a construir?
- Quanto tempo e energia eu quero (ou posso) dedicar ao trabalho?
- O que eu não estou mais disposto(a) a aceitar na minha rotina profissional?
- Quais valores são inegociáveis para mim (ex.: ética, liberdade, flexibilidade, impacto social)?
- O que faz meu trabalho valer a pena mesmo nos meses difíceis?
- Daqui a alguns anos, como eu gostaria de olhar para esse negócio e para mim mesmo(a)?
Depois de responder às perguntas, resuma tudo em uma frase simples, como: “Meu negócio existe para…”. Esse exercício ajuda a manter o foco, orientar decisões e alinhar crescimento financeiro com qualidade de vida.
#2 Finanças pessoais e do negócio
Misturar contas é um erro comum e que atrapalha bastante o planejamento do empreendedor. Se possível, tenha uma conta bancária exclusiva para o MEI e use o seu planner como aliado nesse controle, criando duas seções distintas:
- Negócio: anote todas as entradas e saídas relacionadas à empresa, como: aluguel do ponto, matéria-prima, internet, impostos, entre outros;
- Pessoal: registre seus gastos do dia a dia, por exemplo: mercado, aluguel da casa, lazer, escola, etc.
Essa separação ajuda a visualizar se o negócio realmente está dando lucro e não apenas se “sobrou” dinheiro no fim do mês. Com tudo anotado, fica mais fácil tomar decisões, ajustar gastos e planejar o crescimento.
#3 Metas pessoais e do negócio
Ter metas claras deixa o planejamento mais realista e evita aquela sensação de que o objetivo é grande demais ou está muito distante. O segredo é transformar metas maiores em metas menores e usar o planner para acompanhá-las.
Comece anotando a meta principal do negócio, como o faturamento anual. Por exemplo, uma meta anual de faturamento de R$ 60 mil. Depois, desdobre essa meta em partes menores:
- R$ 5 mil por mês
- Cerca de 50 vendas mensais de R$ 100
- 10 novos clientes por mês com ticket médio de R$ 500
Esse tipo de divisão facilita o acompanhamento e reduz a frustração. Avalie qual tipo de meta combina melhor com seu negócio e escreva no seu planner.
#4 Meus produtos ou serviços
Anotar as vendas do dia a dia permite identificar quais produtos ou serviços realmente sustentam o negócio. No planner, crie um espaço para registrar:
- Quais produtos ou serviços foram vendidos
- A quantidade de vendas de cada item
- O valor faturado por produto ou serviço
- Observações, como pedidos recorrentes ou baixa procura
Ao anotar tudo, a(o) MEI que trabalha com roupas pode perceber, por exemplo, que 70% do faturamento vem de apenas três modelos de roupas que vende. A partir disso, pode reduzir o estoque de itens que vendem pouco e focar nos produtos mais lucrativos.
#5 Compras e estoque
Datas especiais fazem toda a diferença no faturamento e se organizar antecipadamente para elas é essencial. Use o planner anual a seu favor, planejando compras e estoque ao longo do ano para evitar correria, gastos desnecessários e perda de vendas.
Crie um espaço para registrar: datas comemorativas importantes para o seu negócio; o que precisa ser comprado com antecedência; ajustes de estoque ao longo do ano; prazos para fornecedores e produção. Esse planejamento evita compras de última hora, preços mais altos e perda de vendas.
Veja alguns exemplos:
- Abril: montagem de kits para venda no dia das mães
- Setembro: compra de embalagens para a Black Friday
- Outubro: reforço de estoque para o fim do ano
#6 Meu público-alvo
Anotar informações sobre o seu cliente ideal ajuda a direcionar melhor tempo, energia e dinheiro. No planner, esse espaço funciona como um lembrete constante de para quem você vende e onde vale a pena investir. Assim, você investe tempo e dinheiro onde realmente funciona. Você pode registrar informações como:
- Perfil do público principal (idade, gênero, hábitos)
- Canais de venda que mais geram resultado
- Canais que consomem tempo, mas trazem pouco retorno
- Observações sobre comportamento de compra
#6 Checklist mensal
Por fim, inclua no seu planner um checklist mensal simples, com as principais obrigações do MEI. Ele ajuda a não esquecer tarefas importantes e traz mais controle para a rotina do negócio.
Essa prática deixa o dia a dia mais organizado, reduz esquecimentos e transforma o planner em uma ferramenta prática de gestão do negócio. Alguns itens que podem entrar no checklist:
- Registrar vendas e despesas do mês
- Emitir notas fiscais
- Pagar o DAS
- Conferir e ajustar o estoque
- Avaliar se a meta do mês foi atingida
Passo a passo para montar o seu planejamento financeiro de 2026
Ter um planejamento financeiro organizado é essencial para o MEI. Ele permite antecipar despesas, impostos e períodos de maior ou menor faturamento, oferecendo mais previsibilidade e segurança para o negócio. Veja alguns pontos essenciais para um bom planejamento e considere incluí-los em seu planner:
- Controle financeiro: registro de todas as entradas (vendas) e saídas (despesas). O fluxo de caixa mostra se o negócio está saudável e se há recursos suficientes para os próximos meses. Entenda como organizar as contas pessoais e do negócio no início do ano.
- Emissão e controle de documentos: lembretes mensais para emissão de Notas Fiscais, pagamento do DAS e organização de comprovantes. Saiba tudo sobre como manter sua MEI.
- Obrigações fiscais: espaço para as obrigações anuais, como a DASN-SIMEI e, quando aplicável, o Imposto de Renda Pessoa Física. Confira o calendário de obrigações do pequeno empreendedor e fique em dia com as taxas, declarações e prazos importantes.
- Gestão de clientes e fornecedores: cadastro simples com contatos, datas comemorativas, histórico de compras e prazos. Isso facilita negociações, melhora o relacionamento e gera maior fidelização.
- Estoque e gerenciamento de produtos: planeje compras antecipadas para datas importantes e revise o estoque regularmente para evitar desperdícios ou falta de produtos.
- Sazonalidade do negócio: identifique meses de menor movimento e registre estratégias para manter o faturamento, como promoções, novos serviços ou parcerias.
- Orçamento e desdobramento das metas: defina metas financeiras e operacionais, previsão de faturamento e a criação de uma reserva financeira para imprevistos.
- Planejamento de descanso: férias, folgas e momentos de autocuidado também devem estar no planner. Um negócio sustentável depende da saúde de quem empreende. Confira uma ferramenta para calcular o valor ideal da sua hora de trabalho, que já considera os dias úteis em que você irá produzir e os que você se dedicará ao seu autodesenvolvimento e descanso.
- Distribuição de lucro: planeje como será feita a distribuição dos ganhos - quanto será reinvestido no negócio, quanto irá para reserva financeira e quanto será retirado como lucro, incluindo um “décimo terceiro” do MEI. Veja como se organizar para ter salário fixo, 13o. e férias.
Como montar o seu planner na prática
Depois de entender o que precisa ser planejado, o próximo passo é escolher como organizar essas informações no dia a dia. O melhor planner não é o mais bonito ou complexo, mas aquele que se adapta à sua rotina e que você realmente consegue usar.
Escolha o formato que mais combina com você
Não existe um formato único ideal. O importante é escolher aquele que facilite o hábito de registrar e consultar informações.
Planner em papel
É indicado para quem gosta de escrever à mão e visualiza melhor as informações no formato físico. Pode ser um caderno, uma agenda ou um planner personalizado.
Exemplo: um MEI que atende clientes presencialmente pode usar um caderno dividido por abas: finanças, clientes, metas e tarefas.
Dica: use cores diferentes ou post-its para destacar datas importantes como pagamento do DAS e períodos de maior venda.
Planner em planilha (Excel ou Google Sheets)
Funciona bem para quem gosta de números e quer automatizar contas. Permite somar receitas, despesas e acompanhar o fluxo de caixa com mais facilidade.
Exemplo: um MEI que vende produtos online pode ter uma planilha com abas para vendas, despesas fixas, despesas variáveis e metas mensais.
Dica: mantenha a planilha simples no início e vá adicionando colunas apenas quando sentir necessidade.
Planner em aplicativo
Ideal para quem resolve tudo pelo celular e precisa de lembretes automáticos. Existem apps de organização, finanças e gestão de tarefas.
Exemplo: um MEI que trabalha como prestador de serviços pode usar um app para registrar clientes, agendar atendimentos e receber alertas de pagamento.
Dica: evite usar muitos aplicativos ao mesmo tempo — centralizar as informações é essencial para não perder o controle.
Organize o planner por meses e por temas
Depois de definir o formato, o próximo passo é estruturar o planner. A melhor forma é dividir o ano em meses, e dentro de cada mês, organizar por temas. Isso ajuda a visualizar tudo o que precisa de atenção naquele período e evita que informações importantes fiquem espalhadas.
Exemplo de temas mensais:
- Finanças (entradas, saídas, lucro)
- Obrigações (DAS, notas fiscais, impostos)
- Metas do mês
- Clientes e vendas
- Estoque e compras
- Tarefas e prioridades
Reserve um momento fixo para a revisão mensal
O planner só funciona se for revisado com frequência. Criar uma rotina mensal é fundamental para manter a organização. Nesse momento, você pode responder perguntas como: Quanto faturei este mês? Quais despesas aumentaram? Cumpri minhas metas? O que precisa ser ajustado para o próximo mês?
Exemplo: Todo primeiro dia útil do mês: planejar; Todo último dia do mês: revisar resultados.
Dica: trate esse momento como um compromisso com você e com o seu negócio. Pode ser um café tranquilo, um horário fixo na agenda ou até um alarme no celular.
Lembre-se: o planner não precisa estar perfeito desde o início. Ele deve evoluir junto com o seu negócio. O mais importante é que ele seja simples, funcional e usado de forma consistente, ajudando você a tomar decisões melhores e a construir um negócio mais sustentável ao longo do ano.
Com organização, metas definidas e acompanhamento constante, 2026 pode ser um ano de crescimento e mais tranquilidade financeira.



