O que você pode aprender com os povos que mais guardam dinheiro no mundo

Descubra lições valiosas que podem ajudar você a melhorar sua vida financeira.

Poupar e Investir

/ 04 Abr 2025 / 6 min. leitura
Descubra tudo o que podemos aprender com os povos que mais economizam pelo mundo

Você já se perguntou como pessoas que não ganham muito conseguem guardar dinheiro e construir um patrimônio considerável ao longo da vida? Pois saiba que essa é uma realidade para cidadãos de alguns países, que são conhecidos por manter altos níveis de poupança e segurança financeira de suas populações.

Sabendo da importância de enraizar o hábito de poupar em nosso dia a dia, fomos procurar entender o que faz com que estes povos tenham uma maior capacidade de equilibrar as contas e gerir bem o dinheiro que outros. Confira, a seguir, os segredos e algumas lições práticas, que podem fazer parte da rotina de quem deseja manter o bolso sempre em dia. 

1. Japoneses

O Japão é mundialmente reconhecido por sua cultura de economia e disciplina financeira. Historicamente, os japoneses mantiveram altas taxas de poupança, embora elas tenham caído nos últimos anos devido ao envelhecimento da população.

Uma das estratégias mais conhecidas para economizar dinheiro no Japão é o Kakebo, um método criado no século 19 por Hani Motoko, a primeira mulher jornalista do país. Inicialmente pensado para ajudar as donas de casa a organizarem as finanças, o Kakebo se popularizou e ainda hoje é usado por muitas pessoas para poupar parte do salário.

Ele propõe que, em vez de guardar o que sobra depois de pagar as contas, o planejamento comece definindo quanto se quer economizar no mês. Entenda como ele funciona e como usar o Kakebo no dia a dia. 

Registre suas receitas e despesas por categorias

O primeiro passo é anotar todas as suas receitas e despesas. Isso pode ser feito diariamente, semanalmente ou mensalmente, de acordo com sua rotina. Para facilitar a organização, divida os gastos em categorias. O método tradicional do Kakebo sugere quatro grupos principais:

  • Sobrevivência: alimentação, moradia, transporte, medicamentos.
  • Cultura e lazer: cinema, academia, restaurantes, hobbies.
  • Extras: presentes, viagens, itens não planejados.
  • Imprevistos: reparos emergenciais, consultas médicas inesperadas.

Você pode personalizar as categorias de acordo com sua realidade e até usar cores diferentes para destacar cada uma.

Defina suas prioridades e analise os gastos

Depois de registrar os gastos, é hora de analisar para onde o dinheiro está indo. O Kakebo incentiva a se perguntar: o que é realmente essencial? O que pode ser reduzido ou eliminado?

Essa etapa ajuda a diferenciar gastos necessários dos supérfluos e a entender quais despesas podem ser ajustadas para aumentar as economias. Ao final do mês, é importante revisar suas anotações e refletir sobre o que foi feito. 

O método sugere responder a quatro perguntas: “Quanto dinheiro eu guardei?”; “Quanto eu queria guardar?”; “Quanto eu realmente gastei?”; “O que posso mudar no próximo mês para melhorar?”. Dessa forma, fica mais fácil identificar padrões de consumo e ajustar suas metas para o mês seguinte.

Estabeleça metas de economia

Com base na análise, o próximo passo é criar metas realistas de economia. Pode ser um valor fixo ou um percentual da renda, o mais importante é ter um objetivo claro e direcionar os gastos de acordo com ele.

Dicas práticas para o uso do Kakebo

Gostou dessa ideia e quer aplicá-la em seu dia a dia? Veja algumas dicas práticas e experimente esse método tradicional japonês para poupar dinheiro:

  • Escolha o formato que funciona para você – O Kakebo tradicional incentiva anotações manuais, pois escrever no papel ajuda a processar melhor as informações e refletir sobre os gastos. No entanto, se você tem dificuldade com isso, pode adaptar o método para o digital, utilizando planilhas ou aplicativos de finanças. O essencial é registrar seus gastos regularmente.
  •  Use dinheiro em espécie quando possível – O ato de entregar cédulas torna os gastos mais tangíveis, ajudando a evitar compras impulsivas. Se isso não for viável para o seu dia a dia, tente visualizar seus pagamentos, revendo seu extrato com frequência para manter a consciência sobre os valores gastos.
  • Separe cinco minutos por dia para o Kakebo – Criar o hábito diário de registrar e analisar suas despesas torna tudo mais eficiente e natural, seja no papel, no celular ou no computador.
  • Dê uma chance por três meses – Recomenda-se manter a prática por pelo menos 90 dias para perceber os primeiros resultados. A disciplina no início faz toda a diferença!

O Kakebo continua firme e forte no Japão, mostrando que um pouco de disciplina e organização pode fazer toda a diferença na sua vida financeira. Que tal tentar?

2. Alemães

A Educação financeira ensina como usar o dinheiro desde cedo

Para os alemães, economizar não é apenas um hábito, mas um padrão cultural, um jeito de garantir estabilidade e segurança no futuro. Diferente de nações onde é comum os gastos serem maiores que os ganhos, na Alemanha, a poupança faz parte da vida desde cedo.

Os dados confirmam esse comportamento. No terceiro trimestre de 2024, a taxa de poupança das famílias alemãs chegou a 11,8%, um leve aumento em relação aos meses anteriores. Historicamente, os alemães sempre mantiveram uma média alta de economia, com picos como o de 2020, durante a pandemia, quando a incerteza fez muita gente guardar mais dinheiro.

Mas por que eles economizam tanto? Além do medo de imprevistos, existe uma forte cultura de planejamento financeiro. Guardar dinheiro não é visto como um sacrifício, mas sim como uma forma inteligente de garantir um futuro tranquilo. Seja para viagens, compra de um imóvel ou aposentadoria, os alemães preferem poupar primeiro e gastar depois – um contraste com a mentalidade de "comprar agora e pagar depois".

Mesada: uma forma simples de educação financeira

Na Alemanha, dar mesada aos filhos é uma forma prática de ensiná-los desde cedo a administrar dinheiro. Os pais alemães acreditam que, ao receberem pequenas quantias regularmente, as crianças aprendem a planejar gastos, guardar para algo que querem e até lidar com frustrações quando gastam tudo antes da hora.

Uma pesquisa da fintech N26 mostrou que a maioria das famílias alemãs adota essa prática: 71% das crianças pequenas (entre 4 e 6 anos) já recebem uma mesada, e esse número chega a impressionantes 95% entre os pré-adolescentes de 10 a 12 anos. Ou seja, quase todas as crianças por lá crescem aprendendo, na prática, como gerenciar dinheiro.

O valor da mesada varia bastante, mas, em média, gira em torno de €13,60 por mês (cerca de R$ 78,00 no início de fevereiro de 2025). Mais do que a quantia, o que importa é a regularidade. Cerca de 89% dos pais alemães seguem um cronograma fixo – alguns dão dinheiro toda semana, outros preferem mensalmente. Há também aqueles que ajustam a mesada conforme o comportamento dos filhos ou dão apenas quando a criança realmente precisa.

Assim, as crianças começam a desenvolver noções importantes para a vida adulta, pois quando elas gastam tudo de uma vez, aprendem na prática o impacto dessa escolha; e, quando economizam, percebem como podem conquistar mais coisas no futuro.

3. Suíços

A Suíça é outro país com uma forte cultura de poupança e investimento, sustentada por um sistema bancário robusto que incentiva a segurança e a boa administração do dinheiro. De acordo com uma pesquisa do Migros Bank, 61% dos adultos suíços poupam por mês até CHF 1.000 (US$ 1.175 ou R$ 6.815, no início de fevereiro), e quase 80% mantêm seu dinheiro em uma conta de poupança.

O principal motivo para guardar dinheiro, segundo os entrevistados, é criar um fundo de emergência para imprevistos financeiros. Outros objetivos comuns incluem a aposentadoria e a compra da casa própria. No entanto, apenas 15% poupam sem um propósito específico.

A importância da reserva de emergência

Os suíços sabem que a tranquilidade financeira vem da preparação e é por isso que muitos deles priorizam a construção de uma reserva de emergência.

Mas o que isso significa na prática? Simples: é aquele dinheiro reservado exclusivamente para imprevistos – um problema de saúde, uma perda de renda temporária ou outro gasto não previsto. O segredo está em manter essa quantia em uma aplicação acessível e protegida da desvalorização. Isso evita o risco de recorrer a empréstimos caros ou entrar no cheque especial caso aconteça algo inesperado.

Quer começar a sua? A dica é começar com pouco e, ao longo do tempo, construir uma reserva que possibilite cobrir alguns meses de seus gastos e manter o dinheiro em uma aplicação  de baixo risco e que possa ser resgatada  a qualquer momento. O importante é criar o hábito de poupar e manter essa reserva sempre intacta para quando realmente precisar.

Mulheres e os investimentos

Mulheres ainda investem menos do que homens, mas a educação financeira pode reverter esse cenário

A pesquisa suíça revelou ainda que as mulheres tendem a ser mais conservadoras em relação ao dinheiro. Além disso, 60% das entrevistadas afirmaram que seu conhecimento sobre investimentos é “insuficiente”, enquanto entre os homens essa percepção foi de apenas 34%.

Esse receio não é exclusivo da Suíça. Em muitos países, mulheres ainda enfrentam desafios para entrar no mundo dos investimentos, seja por falta de informação, insegurança ou receio de perder dinheiro.

Para superar essa insegurança, é importante desmistificar o mundo dos investimentos, compreendendo os riscos e benefícios de cada modalidade para tomar decisões mais informadas para garantir um futuro financeiro mais estável.

4. Chineses

Se tem um povo que leva a sério o hábito de poupar, são os chineses. O país tem uma das maiores taxas de poupança familiar do mundo e isso não acontece por acaso.  Para muitas famílias a poupança é uma prioridade, seja para a educação dos filhos ou para segurança futura. O governo também incentiva esse hábito com políticas que promovem o investimento e o consumo moderado.

Mas a grande novidade vem da Geração Z. Enquanto em muitos países os jovens são conhecidos pelo consumo impulsivo, na China está acontecendo o contrário: os nascidos depois dos anos 2000 estão mais focados em economizar do que em gastar. Essa tendência começou com a pandemia, se intensificou com a crise no setor imobiliário e agora virou um estilo de vida.

Nas redes sociais chinesas, não faltam dicas sobre como economizar no dia a dia – desde gastar menos nos almoços do escritório até evitar compras desnecessárias de roupas. Os números comprovam essa mentalidade: segundo o Yu’e Bao, um popular fundo do mercado monetário da Alipay, os jovens chineses fizeram, em média, 20 depósitos por mês ao longo de 2024 – o dobro do número registrado em maio. O saldo médio nas contas cresceu 50% em um ano, chegando a cerca de 3.000 ienes (aproximadamente R$ 2.500,00).

Talvez seja hora de nos inspirarmos nessa disciplina e olharmos com mais carinho para o nosso próprio futuro financeiro.

5. Sul-coreanos

A Coreia do Sul também tem uma tradição forte de economia. Mesmo em uma economia moderna e competitiva, o povo coreano ainda valoriza a poupança, principalmente para garantir educação e bens de alto valor.

Desde a crise de 1997, a desigualdade tem aumentado, e muitos jovens enfrentam dificuldades para comprar uma casa ou alcançar a mesma estabilidade financeira de seus pais. Diante desse cenário, os sul-coreanos desenvolveram uma nova perspectiva e tentam se adequar a um novo padrão de vida para economizar, de acordo com a pesquisa divulgada pelo Canvas8.

Enquanto em alguns países, mesmo em crise, é mantida a mentalidade YOLO ("You Only Live Once" – Você Só Vive Uma Vez), na Coreia do Sul, muitos jovens têm adotado o conceito oposto: YONO ("You Only Need One" – Você Só Precisa de Um). Isso significa cortar gastos desnecessários e focar no essencial.

Atualmente, é mais comum que os coreanos levem marmitas para o trabalho em vez de comer fora, evitem compras por impulso e até saquem dinheiro em espécie para guardá-lo em envelopes, separando valores específicos para diferentes necessidades. Além disso, muitos preferem manter seu dinheiro em bancos nacionais, que historicamente oferecem estabilidade e segurança devido à forte regulamentação do governo.

Gyemoim: a força da economia coletiva

Ter metas financeiras claras facilita a construção de um patrimônio ao longo do tempo

Uma moda que cada vez se populariza mais na Coreia do Sul é a formação de gyemoim, grupos financeiros onde amigos ou familiares juntam dinheiro para um objetivo comum, como viagens, eventos ou até despesas futuras. Funciona como um fundo coletivo, onde cada membro contribui com um valor fixo mensal.

Esse sistema não é apenas uma forma de guardar dinheiro, mas também um compromisso social. O nível de golpes é praticamente inexistente (ainda que possa acontecer, como em qualquer lugar) pois o medo de ser malvisto no grupo impede que alguém falte com suas contribuições ou deixe de pagar o que deve. Esse hábito se tornou tão popular que o KakaoBank, um dos principais bancos digitais do país, criou uma conta especial para gyemoim, permitindo que amigos gerenciem o dinheiro em conjunto de maneira prática e segura.

6. Singapurianos

Se você acha difícil guardar dinheiro, imagine viver em um lugar onde poupar é quase uma obrigação. Em Singapura, as pessoas não só economizam por hábito, mas também porque o sistema financeiro incentiva isso. Parte do salário de todo trabalhador vai direto para o CPF (Central Provident Fund), um fundo de previdência que cobre aposentadoria, saúde e moradia. Ou seja, antes mesmo de gastar, o dinheiro já está sendo guardado.

Mas não é só isso. Os singapurianos têm a fama de serem os maiores poupadores do Sudeste Asiático. Uma pesquisa da Milieu Insight revelou que 36% deles conseguem guardar mais de 25% da renda todo mês – um número bem maior do que a média da região. 

E o mais interessante? Eles não deixam o dinheiro parado. Investir faz parte da rotina, seja em ações, depósitos fixos ou até plataformas digitais, mostrando que, por lá, fazer o dinheiro render é quase um esporte nacional.

Uma juventude que saber como guardar

Agora, se você acha que essa mentalidade é só coisa de adulto preocupado com o futuro, pense de novo. Os jovens de Singapura estão muito à frente quando o assunto é organização financeira. Segundo um estudo do Institute of Policy Studies (IPS), oito em cada dez jovens sabem exatamente para onde o dinheiro deles está indo – e ainda assim, vivem se perguntando se estão gastando demais.

E não para por aí: 70% têm uma reserva financeira de pelo menos três meses e já começaram a planejar a aposentadoria. Sim, aposentadoria! Enquanto muita gente só pensa nisso quando chega aos 40, por lá, a galera já tem um plano desde cedo.

Mas calma, isso não significa que eles vivem contando moedas e deixando de aproveitar a vida. Muito pelo contrário, essa organização financeira permite que viajem, curtam bons momentos com os amigos e realizem sonhos sem se enrolar com dívidas.

No fim das contas, saber lidar bem com dinheiro não é sobre abrir mão das coisas boas, mas sim sobre garantir que você possa curtir e realizar seus sonhos sem preocupações – agora e no futuro.

7. Escandinavos 

Guardar dinheiro não significa apenas poupar, mas também investir de forma inteligente

Na Escandinávia – que inclui Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e Islândia – a cultura financeira é quase um estilo de vida. Nessas sociedades, o consumo consciente, o minimalismo em busca de uma vida mais leve e a forte presença do bem-estar social criam um ambiente onde as pessoas não vivem para ostentar, mas sim para garantir estabilidade e qualidade de vida.

Diferente de muitos lugares do mundo, a riqueza pessoal não é um grande símbolo de status, e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é levado a sério. O modelo escandinavo, conhecido como "do berço ao túmulo", garante saúde, educação e seguridade social de qualidade para todos, financiado por impostos que podem chegar a 60% da renda anual. Mas, no geral, os cidadãos enxergam isso como um investimento coletivo para uma sociedade mais justa, segura e eficiente.

Além da forte igualdade de gênero e social, há uma mentalidade de independência e autossuficiência. Como os serviços são caros e valorizados, os escandinavos adotam o "faça você mesmo" para muitas tarefas do dia a dia – um reflexo da cultura econômica da região. Talvez não seja possível copiar esse modelo por completo, mas certamente há lições valiosas que podem ser aplicadas em qualquer lugar do mundo.