Saúde e beleza andam lado a lado nos dias de hoje. A busca por bem-estar, autoestima e uma boa aparência deixou de ser apenas uma questão estética para se tornar um estilo de vida. Procedimentos cirúrgicos, cosméticos de alta performance, roupas com tecidos “inteligentes” e que seguem as últimas tendências, acessórios, dietas modernas e academias exclusivas fazem parte de um mercado bilionário que cresce a cada ano — e movimenta desejos, sonhos e investimentos pessoais.
Não há nada de errado em querer se cuidar. Pelo contrário: valorizar a própria imagem pode ser uma forma legítima de expressar identidade, melhorar a autoconfiança e promover saúde física e mental. O problema começa quando a busca por esse ideal ultrapassa os limites do planejamento financeiro e se transforma em dívidas, compulsões ou frustrações.
Quando o cuidado com a aparência pesa no bolso
Patrícia Duarte é proprietária de um estúdio de estética e beleza na capital paulista. Sua clientela — composta em grande maioria de mulheres — realiza procedimentos usuais como cutilagem e esmaltação de unhas, sobrancelhas e depilação, com gastos mensais que giram em torno de R$ 100. Tratamentos estéticos faciais e corporais, com valores que variam de acordo com a região a ser trabalhada, também fazem parte dos serviços ofertados pelo estúdio, que tem lucro de aproximadamente R$5 mil por mês.
A empreendedora conta que um dos procedimentos mais procurados no local é a massagem para emagrecimento. “Costumo fechar pacotes de seis sessões, com duração de 1 hora e 30 minutos cada, a R$3.600”. Patrícia afirma que tem clientes que ainda estão pagando e realizando as sessões de um determinado procedimento, e acabam fechando novos pacotes, de massagens modeladoras e outros serviços. “Algumas das minhas clientes passam por dificuldades financeiras, parcelam os valores, mas nunca deixam de fechar os pacotes estéticos ou fazer seus procedimentos mensais”.
O pequeno negócio de Patrícia é apenas um dos milhares espalhados pelos mais diversos cantos do país. Juntos, eles ajudam a movimentar uma indústria bilionária. Dados da Euromonitor, empresa global de pesquisas de mercado, mostram que o Brasil está entre os maiores mercados consumidores de beleza e cuidados pessoais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão, sendo o maior da América Latina. O mercado brasileiro de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos movimentou, em 2024, R$173,4 bilhões, quase quatro vezes mais do que o valor registrado em 2018 (R$45 bilhões).
Em um mundo cada vez mais influenciado pela cultura da imagem, os procedimentos estéticos têm se tornado parte da rotina de milhões de pessoas. No Brasil, essa realidade é especialmente evidente. Dados da Pesquisa Global Anual sobre Procedimentos Estéticos, realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, revelam que o país ocupa o segundo lugar no ranking mundial de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
A cada ano, milhões de pessoas investem em procedimentos como botox, preenchimentos, harmonizações faciais, além de cosméticos de alto custo, roupas de grife e serviços de bem-estar. A popularidade desses procedimentos reflete não apenas o desejo por mudanças na aparência, mas também pressões sociais e a busca por pertencimento em um padrão de beleza muitas vezes inatingível.
Em muitos casos, o desejo por se encaixar em um padrão estético pode levar a decisões impulsivas e gastos que comprometem o orçamento familiar. Parcelamentos longos, compras por impulso e o compromisso com parcelas não planejadas são sinais de alerta que podem comprometer, em muitos casos, a saúde financeira de toda a família.
Mas, afinal, quanto custa uma rotina de beleza?
Cabelo, pele, cosméticos, procedimentos estéticos, roupas e acessórios, academia ou atividade física. Uma rotina que não se limita ao universo feminino e que tem custos mensais variáveis, de acordo com a região de cada um, as preferências de marca e, é claro, o quanto se está disposto a pagar.
De acordo com uma pesquisa realizada pela Koin, os brasileiros apresentam comportamentos variados quando o assunto é gasto mensal com produtos de beleza. Cerca de 30,9% afirmam gastar entre R$151 e R$200 por mês, enquanto 22,8% desembolsam valores entre R$251 e R$350. Já 27,5% mantêm um gasto mais moderado, entre R$51 e R$150 mensais. Há ainda uma parcela menor, mas significativa, que investe quantias mais elevadas: 6% dos entrevistados relataram gastos mensais entre R$500 e R$1.000, e 2% disseram ultrapassar a marca de R$1.000 por mês com itens de beleza.
Entre as preferências de consumo, os perfumes e desodorantes são os itens mais populares (74,6%); produtos para cabelo aparecem como opção para 59,5%, seguidos por itens de maquiagem (25,7%). Os itens para skincare, aqueles voltados especialmente para o rosto, têm grande representatividade (24,9%); produtos para unhas e cutículas são os escolhidos por 13% dos entrevistados.
Ainda que os cuidados com a saúde e a estética não sejam uma preocupação restrita ao universo feminino, mulheres e meninas costumam arcar com preços mais altos por produtos destinados a elas. Uma pesquisa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) revelou que mulheres pagam, em média, 12,3% a mais por produtos idênticos aos voltados ao público masculino.
Essa diferença, conhecida como "pink tax", não é exclusividade do Brasil. Estudos internacionais, como o realizado pelo Departamento do Consumidor de Nova Iorque e uma investigação do jornal britânico The Times, também identificaram disparidades significativas nos preços de itens semelhantes, comercializados de forma distinta para homens e mulheres.
Afinal, o que é beleza?
A palavra beleza tem raízes profundas na história e na construção cultural da humanidade. Ao longo do tempo, a ideia de beleza foi sendo moldada por valores sociais, religiosos, filosóficos e, mais recentemente, midiáticos.
Na Grécia Antiga, por exemplo, beleza era sinônimo de harmonia e equilíbrio; já na Idade Média, o ideal estético estava fortemente ligado à religiosidade: beleza era vista como reflexo da pureza espiritual, e o corpo, muitas vezes, tratado como uma armadilha para o pecado. Foi só no Renascimento que a beleza voltou a ser celebrada como um valor em si, inspirando artistas a retratarem corpos nus com naturalidade e reverência.
Com o passar dos séculos, a beleza passou a ser cada vez mais influenciada por fatores externos, como a moda, o cinema e a publicidade. A partir do século 20, o surgimento da fotografia, da televisão e, mais recentemente, das redes sociais, criou uma estética globalizada e padronizada — muitas vezes inatingível. Assim, o conceito de beleza, que começou como uma ideia subjetiva e filosófica, transformou-se em uma indústria bilionária e, para muitos, em uma fonte de pressão constante.
O padrão estético atual
Somos bombardeados diariamente pelo que é considerado belo. Redes sociais como Instagram e TikTok tornaram-se vitrines de corpos, rostos e estilos de vida ditos perfeitos. Filtros de edição e algoritmos que priorizam certos tipos físicos reforçam a ideia de que existe um único ideal a ser seguido: pele lisa, corpo esguio (ou malhado), cabelos impecáveis, rosto simetricamente maquiado.
Mas o que se vê nas telas, muitas vezes, não é real. A edição de imagem, o uso de filtros e ângulos cuidadosamente escolhidos criam um padrão artificial que influencia o olhar — e, principalmente, a percepção que cada pessoa tem sobre si mesma.
A busca pelo corpo ideal pode, em alguns casos, incentivar hábitos saudáveis e fortalecer a autoestima. No entanto, quando guiada por padrões estéticos rígidos e muitas vezes inalcançáveis, ela pode provocar frustrações, inseguranças e impactos negativos na saúde física e emocional.
Dados da pesquisa Beleza, Saúde e Bem-estar, realizada pelo Opinion Box, revelaram que a pressão social em torno dos padrões de beleza é mais sentida pelas mulheres: 15% consideram ter baixa autoestima, contra 9% dos homens. As mulheres também se consideram mais distantes dos padrões de beleza (27%) do que os homens (20%).
O estudo, que ouviu 1.179 pessoas, em dezembro de 2024, mostrou que há uma ligação direta entre a relação das pessoas com o próprio peso e os padrões de beleza. Dos entrevistados, 41% responderam estar acima do peso e 44% disseram achar estar no peso ideal — 51% são mulheres e 43% homens. Essa pressão social pelo peso ideal, teve impacto na vida, saúde ou bem-estar, alterando a autoestima de 68% dos entrevistados.
A mesma pesquisa mostrou ainda que 33% das pessoas reconhecem que as redes sociais impactam diretamente sua visão de beleza — 48% seguem influenciadores voltados para a área. Para 63% dos entrevistados as propagandas, de forma geral, ajudam a reproduzir padrões irreais de beleza.
Quando a aceitação vira um ato revolucionário
Em um mundo bombardeado por filtros, cirurgias e comparações digitais, aceitar o próprio corpo tornou-se um ato político e transformador. O movimento body positive, que surgiu com força no final dos anos 1990, propõe justamente isso: a valorização de todos os corpos — em sua diversidade de formas, cores, marcas e histórias.
Um dos nomes mais representativos do movimento é o da cantora, rapper, compositora e atriz americana Lizzo. A ativista tem feito da aceitação corporal a base de sua arte e discurso. Em seus shows, videoclipes e redes sociais, ela desafia abertamente a gordofobia e celebra seu corpo com liberdade e orgulho. Sua atuação é um dos exemplos mais potentes do body positive como movimento de empoderamento, principalmente para mulheres marginalizadas pela indústria da beleza.
No Brasil, a atriz Taís Araújo também se destaca por sua atuação no campo da autoaceitação, especialmente no que diz respeito à estética negra. Ao assumir e valorizar seus cabelos crespos em papéis de destaque, campanhas publicitárias e eventos de moda, ela contribuiu significativamente para o fortalecimento da representatividade e para o combate ao racismo estético, que por muito tempo associou beleza à branquitude e ao alisamento capilar.
Ao longo da carreira, Preta Gil, falecida em 20 de julho de 2025, enfrentou a gordofobia e falou abertamente sobre sua sexualidade, seu corpo e, mais recentemente, sobre as mudanças causadas pela luta contra o câncer. Em entrevista a um programa de TV, a artista falou sobre as críticas que recebeu em Pret-à-Porter, seu álbum de estreia, que chegou às lojas com uma foto sua completamente nua na capa.
“Eu lancei o disco achando que estava abafando, achando que eu era bonita e gostosa. E aí veio uma enxurrada de críticas, de muito conservadorismo, de muito preconceito.” Preta Gil contou que o episódio a fez duvidar de si, que começou a questionar sua beleza, seu corpo e a procurar uma espécie de “aprovação”. “Eu comecei a querer emagrecer para que parassem de falar de mim.”
Foi só com o passar do tempo e com o amadurecimento artístico e pessoal que a cantora compreendeu que o problema nunca foi a nudez, mas a forma como a sociedade, a mídia e parte do público insistem em vigiar e punir corpos que fogem ao padrão: “Eu entendi que o erro não estava em mim, e sim nas pessoas que me julgavam.”
Quando o autocuidado pesa no bolso: os sinais de alerta de um problema financeiro
Cuidar de si mesmo virou sinônimo de bem-estar. Skincare, academia, terapias alternativas, salão de beleza, suplementos e procedimentos estéticos passaram a fazer parte da rotina de muita gente — e não há nada de errado nisso. O problema começa quando esse autocuidado, promovido como essencial à autoestima e saúde, compromete o orçamento, gera dívidas e vira um peso emocional.
Em um cenário em que o consumo está fortemente atrelado à imagem — e redes sociais ajudam a reforçar esse comportamento — cresce o número de pessoas que ultrapassam os limites financeiros para manter uma aparência condizente com os padrões atuais. E isso pode acontecer de maneira silenciosa.
A internet, em especial os aplicativos como Instagram e TikTok colaboram para esse cenário ao exibir rotinas de autocuidado idealizadas, com produtos caros, tratamentos exclusivos e estéticas padronizadas. A lógica do “se valorize” se mistura com o consumo como forma de validação. E para quem já enfrenta inseguranças com o corpo ou autoestima, essa exposição constante pode levar a decisões precipitadas — e caras.
Há comportamentos que funcionam como sinais de alerta de que o autocuidado pode estar ultrapassando o limite saudável e se tornando um problema financeiro. Isso pode acontecer quando os gastos com estética, moda, alimentação fitness ou serviços de bem-estar comprometem o orçamento. Outro sinal é assumir dívidas para custear tratamentos e recorrer a parcelamentos frequentes, inclusive para compras recorrentes como cosméticos e roupas.
Como equilibrar autoestima e finanças
Cuidar da aparência é uma forma legítima de elevar a autoestima, melhorar a confiança e investir no bem-estar. No entanto, quando os gastos com estética ultrapassam os limites do orçamento, esse autocuidado pode virar fonte de estresse, dívidas e frustrações. O equilíbrio entre autoestima e saúde financeira é possível — e necessário. A seguir, dicas práticas para manter os dois em dia.
Inclua o autocuidado no orçamento
Assim como alimentação, moradia ou transporte os gastos com o autocuidado precisam começar a fazer parte do orçamento. Procure separar um valor realista, compatível com a sua renda para evitar gastos impulsivos e ter mais clareza sobre o que cabe, de fato, no seu planejamento. Mesmo que o valor seja pequeno, ter esse limite definido permite priorizar e tomar decisões com mais consciência.
Avalie necessidade x desejo
Antes de qualquer compra vale a pergunta: "eu realmente preciso disso agora?". Avaliar a diferença entre necessidade e desejo ajuda a frear impulsos e colocar os gastos em perspectiva. Nem sempre a promoção, o lançamento ou a dica do influenciador digital representam uma urgência real. Muitas vezes, o que parece essencial no momento pode esperar — ou ser substituído por uma alternativa mais acessível.
Planeje os gastos maiores
Uma cirurgia plástica, um tratamento odontológico ou uma mudança capilar significativa são procedimentos que custam mais e que precisam ser planejados com antecedência. Pesquise preços, condições de pagamento, economize com metas claras e, se possível, defina um valor mensal que caiba no orçamento para esse fim. Evite parcelamentos longos e impulsivos, pois eles podem comprometer sua renda por meses.
Busque alternativas
Autocuidado não precisa ser sinônimo de luxo, de grife. Existem opções acessíveis e criativas para manter a autoestima em dia: comprar de pequenos produtores locais, frequentar brechós, apostar no DIY (faça você mesmo) para cuidados com cabelo e pele, e pesquisar por produtos alternativos que entregam bons resultados por preços mais baixos.
Aquela academia caríssima que está levando todo o seu dinheiro no final do mês pode ser substituída por estabelecimentos menores do seu bairro, sem comprometer a qualidade. Muitas vezes, o que encarece o produto ou o serviço é a marca, e não a eficácia.
Aposte no consumo consciente
A beleza também pode — e deve — ser aliada da sustentabilidade. Comprar menos e melhor, optar por produtos duráveis, reutilizáveis e que tenham menor impacto ambiental ajuda o seu bolso e o planeta. Conheça o conceito da economia circular, um novo jeito de viver e pensar suas escolhas.
Invista no autoconhecimento
Estar bem consigo mesmo não pode limitar-se às roupas, produtos de beleza ou procedimentos estéticos. Investir em autoconhecimento, redes de apoio emocional, terapia é essencial para a construção de uma relação mais saudável e harmoniosa com o que mais importa: você.
E lembre-se: cuidar da aparência é um gesto de carinho consigo mesmo e deve ser valorizado — desde que não seja feito às custas do equilíbrio financeiro ou emocional. Autocuidado não precisa vir com preço alto, e autoestima não pode depender apenas do que está na vitrine ou nas telas. O verdadeiro cuidado começa quando a escolha é consciente, respeita seus limites e valoriza quem você é de dentro para fora.






