O primeiro salário é um marco na vida de qualquer pessoa. Ele pode vir do estágio, do trabalho como jovem aprendiz, do tão aguardado primeiro emprego com carteira assinada ou de uma atividade informal realizada por um determinado período. Quem está inserido há mais tempo na vida profissional muito provavelmente se lembra do que fez com o primeiro dinheiro que ganhou na vida.
E não é para menos. A sensação de independência bate à porta, misturada com a empolgação de finalmente ter nosso próprio dinheiro. Junto com ela, vem também a responsabilidade de aprender a administrar o fruto do trabalho. Lembrando que quanto mais cedo você começar a se organizar financeiramente, menor será o esforço que terá de fazer ao longo da vida para realizar seus planos e conquistar sua independência financeira, a dica é reservar um tempinho para planejar tudo o que você deseja conquistar.
Por que se planejar?
Cuidar das próprias finanças é um hábito que deve começar cedo. A empolgação, somada à falta de experiência na gestão das finanças pessoais, pode levar ao descontrole financeiro. Uma pesquisa divulgada em maio de 2025, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e pelo SPC Brasil, em parceria com o Sebrae, revela que 47% dos jovens de 18 a 24 anos não controlam suas finanças.As principais razões apontadas são falta de conhecimento, preguiça, ausência de hábito ou disciplina e a crença de que não ganham o suficiente para se organizar. Ao mesmo tempo, dados mostram que 78% dos jovens ouvidos pela pesquisa têm alguma fonte de renda. A maioria trabalha com carteira assinada (36%) ou está em ocupações informais (23%), fazendo bicos ou freelancer. Pouco mais da metade deles têm algum dinheiro guardado, sendo que a maioria (53%) mantém os valores na poupança, em casa (25%) ou parado na conta corrente (20%), perdendo a chance de obter rentabilidade em investimentos. Cerca de 56% costumam ceder aos impulsos quando querem comprar algo. Quatro em cada dez entrevistados já estiveram com o nome negativado (37%).A organização financeira ajuda a evitar perrengues e a fazer escolhas mais alinhadas aos objetivos de vida, sem a necessidade de abrir mão da diversão e do lazer.
Entendendo o seu salário
Você já ouviu falar em contracheque? Esse é um outro nome para o holerite, que é aquele documento que mostra, tim-tim por tim-tim, quanto a empresa pagou e quanto foi descontado do seu salário. Parece complicado no começo, mas entender isso é essencial para cuidar bem do que entra e sai da sua conta.
Salário bruto x salário líquido
O salário bruto é o valor total que foi combinado na sua contratação, antes dos descontos. Já o salário líquido é o que realmente vai cair na sua conta, depois que são tirados impostos, contribuições e outros itens obrigatórios (vamos falar deles logo mais).
O holerite também traz os benefícios oferecidos pela empresa, como vale-refeição, vale-transporte e plano de saúde. É uma forma de a empresa prestar contas e do colaborador acompanhar tudo o que está sendo pago.
Saber a diferença entre bruto e líquido ajuda a evitar surpresas e a montar seu orçamento com mais segurança. Afinal, não dá para planejar os gastos contando com um valor que nunca vai chegar de fato.
Conheça os principais descontos no seu salário
Quando você recebe seu salário, ele já vem com alguns descontos que são obrigatórios por lei ou fazem parte do pacote de benefícios oferecido pela empresa e que têm uma participação do funcionário. Veja os descontos mais comuns:
- INSS (Instituto Nacional do Seguro Social): essa é a contribuição que todo trabalhador com carteira assinada faz para garantir direitos importantes como aposentadoria, auxílio-doença, pensão por morte e salário-maternidade. O desconto é feito direto no salário e varia de acordo com o quanto você ganha; quanto maior o salário, maior a alíquota (seguindo uma tabela definida pelo governo).
- IRRF (Imposto de Renda Retido na Fonte): se o seu salário passa de um valor mínimo (atualmente no valor de R$ 3.036,00), uma parte dele é descontada para o pagamento do Imposto de Renda. Esse valor já sai da sua folha, direto para a Receita Federal. É o que chamamos de imposto “retido na fonte”. Porém, isso não significa que você pagou tudo o que devia ou que está isento da declaração. Quando chega o período de entrega do Imposto de Renda, no ano seguinte, você precisa declarar sua renda e ver se tem imposto a pagar ou até a receber de volta (restituição).
- Vale-transporte (VT): é um benefício obrigatório, destinado a cobrir os seus gastos com deslocamento casa-trabalho-casa. A empresa pode descontar até 6% do seu salário bruto para isso. Se o custo total do transporte for maior do que esse valor, a diferença deve ser paga pela própria empresa. Vale conferir se você realmente usa o VT, pois, em algumas situações, pode ser mais vantajoso abrir mão do benefício e negociar algum outro tipo de apoio com a empresa.
- Vale-refeição ou alimentação (VR/VA): algumas empresas oferecem esse benefício sem custo, outras fazem um desconto simbólico no holerite — algo em torno de 1% do salário. Esses vales costumam ser pagos todo dia 20, e o valor varia conforme o número de dias úteis no mês.
- Plano de saúde: quando a empresa oferece plano médico, geralmente ela arca com parte do valor e o restante pode vir como mensalidade fixa ou coparticipação (você paga uma parte ao usar). Vale entender direitinho como funciona, porque isso pode influenciar seus gastos ao longo do mês. Se sua empresa não oferece plano de saúde, não precisa ficar na mão: existem planos individuais ou coletivos por adesão; associações profissionais e conselhos de classe costumam ter convênios com operadoras; algumas redes oferecem atendimento popular, com consultas a preços acessíveis. Mesmo sendo jovem, ter algum tipo de assistência médica é uma forma de prevenir dores de cabeça no futuro.
FGTS: entenda o que é e como acompanhar seus depósitos
Muita gente confunde e acha que o FGTS é um desconto no salário, mas ele não sai do seu bolso. Na verdade, é uma obrigação da empresa, que deposita todo mês o equivalente a 8% do seu salário bruto em uma conta vinculada ao seu nome, na Caixa Econômica Federal.
Esse dinheiro funciona como uma poupança para a aposentadoria, e você não pode mexer nele a qualquer momento. Ele vai se acumulando ao longo do tempo, com correção monetária. E apesar de estar “guardado”, ele é seu por direito.
Você pode sacar o FGTS em algumas situações específicas, como:
- Demissão sem justa causa;
- Compra ou financiamento da casa própria;
- Aposentadoria;
- Doenças graves (como câncer ou HIV);
- Falecimento do trabalhador (nesse caso, os dependentes podem sacar).
Existem também modalidades como o Saque-Aniversário, que permite retirar uma parte do saldo todos os anos no mês do seu aniversário. Mas é importante entender as regras, porque ao aderir a essa opção, você abre mão do saque total em caso de demissão.
Para acompanhar os depósitos do seu FGTS e saber quanto já tem acumulado, é só baixar o aplicativo FGTS da Caixa. Lá você consulta o saldo, vê o extrato e pode ser notificado se a empresa deixar de depositar corretamente.
Benefícios corporativos que ajudam no seu bolso
Nem só de salário vive o trabalhador. Quando você é contratado como CLT, os ganhos vão além do valor depositado na conta. A carteira assinada garante um conjunto de direitos e benefícios que oferecem proteção, estabilidade e ajudam no seu planejamento financeiro.
Entre os principais estão as férias remuneradas, o 13º salário, o depósito mensal no FGTS, o acesso ao INSS e o seguro-desemprego. E com um salário fixo comprovado, também fica mais fácil conseguir crédito com taxas menores.
Além disso, muitas empresas oferecem benefícios que complementam sua renda e melhoram sua qualidade de vida, como o vale-transporte, vale alimentação ou refeição, e plano de saúde e odontológico. Algumas companhias ainda contam com uma previdência privada corporativa, como uma forma de ajudar o colaborador a guardar dinheiro para o futuro. Mesmo que você ainda esteja começando a carreira, vale conversar com o RH e entender como esse benefício funciona.
Não sabe se vale a pena aderir? Avalie quanto da sua renda pode ser comprometida sem apertar o orçamento. E lembre-se: poupar para o futuro não significa abrir mão do presente, mas é uma garantia de mais tranquilidade a longo prazo.
Como usar o seu primeiro salário com inteligência
Chegou o seu primeiro salário e com ele uma grande oportunidade de transformar cada real em um passo rumo à sua liberdade financeira. Quer saber por onde começar? A gente te mostra.
Organize o seu dinheiro por prioridades
Se você quer aproveitar bem o seu salário, a primeira dica é simples: coloque cada gasto no seu lugar. Isso significa separar o que é essencial, o que é desejo e o que é plano de futuro. Nessa organização, vale a pena já incluir um espacinho para a poupança ou investimento - quando começamos a guardar desde cedo, estamos construindo mais tranquilidade para nós mesmos no futuro.
Uma forma fácil de começar é usando a regra dos 50/30/20, que consiste em fazer a divisão da sua renda em três partes:
- 50% para necessidades: transporte, alimentação, aluguel, contas fixas.
- 30% para desejos: lazer, delivery, roupas, presentes, shows.
- 20% para metas e reserva: guardar dinheiro e formar uma reserva financeira para emergências e realizar sonhos.
Esse modelo pode (e deve) ser ajustado com o tempo, de acordo com sua realidade. O importante é criar uma base que ajude você a entender para onde o dinheiro está indo e como fazer ele trabalhar a seu favor.
Use as planilhas orçamentárias do Meu Bolso em Dia para acompanhar suas despesas, definir metas e visualizar seu orçamento mês a mês. Além do orçamento pessoal, também tem a planilha de independência financeira e uma específica para estudantes e quem está no primeiro emprego. Dá para usar no computador ou celular e já começar agora.
Comece uma reserva de emergência
A gente não gosta de pensar que algo ruim pode acontecer, especialmente quando estamos no começo de algo novo e legal como o primeiro emprego, mas construir uma reserva de emergência é uma etapa do processo de cuidado financeiro e serve para evitar dívidas e garantir mais tranquilidade diante de imprevistos.
Para saber quanto precisa guardar, comece somando os seus gastos mensais e defina por quantos meses gostaria de estar coberto. O recomendado é juntar um valor equivalente a cerca de seis meses de despesas, que será guardado e acessado apenas em momentos de emergência - como a perda de emprego, doença inesperada, etc.
Você pode iniciar com valores pequenos e aumentar aos poucos, priorizando o hábito de poupar. O dinheiro deve ser aplicado em uma opção segura com liquidez diária, para poder ser resgatado a qualquer momento. Essa aplicação pode ser a poupança ou outras alternativas seguras. Selecionamos 3 aplicações que combinam com quem está começando a poupar. E, se estiver em dúvida, você pode usar nosso simulador para comparar a rentabilidade da poupança com o Tesouro Selic e descobrir qual vale mais a pena para o seu perfil.
Transforme seu salário em sonhos
Tudo começa com um sonho e, para tirá-lo do papel, é preciso ter os pés bem fincados no chão e um bom planejamento. Você pode e deve usar parte do seu salário para conquistar o que deseja — seja fazer uma viagem, comprar um celular novo, fazer uma pós, um curso de idiomas ou até um intercâmbio.
- Curto prazo (até 1 ano): viagens, eletrônicos, cursos rápidos → prefira investimentos seguros e com resgate rápido, como Tesouro Selic ou CDB com liquidez diária.
- Médio prazo (1 a 5 anos): cursos mais longos, carro, mudança → busque aplicações que rendem um pouco mais, como CDBs com vencimento, LCIs ou fundos de renda fixa.
- Longo prazo (mais de 5 anos): casa própria, reserva para aposentadoria, mestrado → aqui dá para pensar em investimentos que se aproveitam dos juros compostos. Vale a pena conhecer o seu perfil de investidor para entender o tipo de risco que está disposto a correr. No geral, investimentos com mais risco trazem maior retorno.
A chave está em alinhar o seu objetivo ao tempo disponível para realizá-lo. Quanto antes você começar, menor o esforço financeiro que terá que fazer todos os meses para chegar lá.
Para facilitar esse processo, você pode usar o simulador de sonhos do Meu Bolso em Dia. É simples:
- Dê um nome ao seu sonho. Isso ajuda a manter o foco no que realmente importa.
- Informe o valor necessário para realizá-lo. Pode ser uma estimativa.
- Defina o prazo em que deseja alcançar esse objetivo.
- Indique quanto consegue guardar por mês. Mesmo que seja pouco, o importante é começar.
- Veja o resultado. O simulador mostra se o plano é viável e ajuda você a ajustar prazos ou valores, se precisar.
Você pode repetir o processo quantas vezes quiser até encontrar um caminho que funcione para você. O importante é começar.
Cuidado com o cartão de crédito
O cartão de crédito pode ser um aliado na organização financeira, desde que seja utilizado com responsabilidade. No entanto, quando mal administrado, ele se torna uma das principais portas de entrada para o endividamento. De acordo com o Mapa da Inadimplência do Serasa, entre os mais de 77 milhões de brasileiros inadimplentes, 27,5% possuem dívidas relacionadas a bancos e ao uso do cartão de crédito. Isso acontece, muitas vezes, por falta de controle dos gastos ou pelo uso do crédito rotativo, que possui juros altos e pode transformar pequenas dívidas em grandes problemas.
Antes de usar o cartão, é importante se perguntar: "eu realmente preciso disso agora?" ou "tenho como pagar essa fatura integralmente no vencimento?". Na dúvida, o melhor é adiar a compra.
Acompanhar as faturas de perto, pagá-las sempre integralmente no vencimento e evitar parcelamentos longos são outros bons hábitos. Nunca misture as parcelas do cartão com sua reserva de emergência ou metas de longo prazo. Elas devem estar bem separadas para que você evite armadilhas e mantenha o equilíbrio financeiro. Antes de parcelar a próxima compra, vale dar uma olhada nestas dicas.
Não caia em ciladas financeiras
Com o primeiro salário no bolso, pode surgir a tentação de multiplicar o dinheiro rapidamente e é aí que mora o perigo. Desconfie de qualquer proposta que promete lucros garantidos ou ganhos fáceis, especialmente se vier pelas redes sociais, grupos de mensagens ou até mesmo por indicações de conhecidos.
As famosas pirâmides financeiras continuam fazendo vítimas, muitas vezes disfarçadas de “investimento digital” ou “oportunidade de negócio inovadora”. Se a proposta envolve ganhar dinheiro apenas indicando outras pessoas, ligue o alerta vermelho.
Outro risco cada vez mais presente são as apostas online, também conhecidas como bets. O crescimento desse mercado no Brasil é alarmante, tanto pelo volume financeiro movimentado, quanto pelo impacto negativo nas finanças e na saúde mental das pessoas. Um levantamento feito pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), divulgado na edição de julho de 2025 do Observatório Febraban, mostra que 81% da população considera o impacto das bets nas finanças das famílias como negativo ou muito negativo.
Para ajudar quem está exposto a esse cenário, a Plataforma Meu Bolso em Dia lançou uma trilha gratuita sobre apostas online para você entender tudo sobre o assunto.
É importante saber diferenciar: investimentos e jogos de azar não são a mesma coisa. Investir é aplicar seu dinheiro com planejamento e conhecimento, esperando retorno ao longo do tempo. Já apostar é confiar na sorte. E, nesse jogo, a vantagem é quase sempre fora de casa.
Quer ver um exemplo prático?
Imagine que você gaste R$ 120 por mês em apostas. Se, em vez disso, aplicar esse valor todos os meses no Tesouro Selic com vencimento em março de 2028, pode acumular cerca de R$ 4.400 mil até lá, sendo esse um dinheiro real, garantido e que pode fazer diferença na sua vida.
Veja a simulação feita em 01/08/2025, com depósitos mensais de R$120 entre agosto de 2025 e março de 2028:
| Investimento | Valor bruto de resgate antes do IR (R$) | Valor líquido de resgate (R$) |
|---|---|---|
| Tesouro Selic | 4.618,78 | 4.488,68 |
| Poupança | 4.134,77 | 4.134,77 |
| CDB | 4.461,37 | 4.357,49 |
| LCI/LCA | 4.395,00 | 4.395,00 |
No fim das contas, o que parece uma diversão inofensiva ou um “negócio imperdível” pode colocar seu planejamento financeiro em risco. Use seu salário com consciência e prefira escolhas que realmente façam seu dinheiro crescer com segurança e propósito.




